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terça-feira, 31 de julho de 2007

Bell P-63 Kingcobra

ORIGENS

Num dos estágios iniciais do desenvolvimento do Bell P-39 Airacobra, foi começado um trabalho para aumentar a performance dessa aeronave, pela introdução de melhorias aerodinâmicas. Três exemplares experimentais foram construídos, todos utilizando a fuselagem básica do P-39D, à qual foi acrescentada uma nova asa laminar com pontas quadradas e cauda revisada. De fato, cada um dos XP-39Es, como foram designados, tinha uma cauda de desenho diferente.

Inicialmente os protótipos usariam o motor Continental Aviation and Engineering Corporation IV-1430 que gerava uma força superior a 2.000 hp. No entanto, a motores Allison V-1710, que apresentavam pouco mais da metade desse poder, foram instalados; provavelmente pela falta de confiabilidade no motor Continental. Os testes dos XP-39Es começaram em fevereiro de 1942 e, provando-se satisfatórios, entraram em produção sob a designação P-76. Cerca de 4.000 aeronaves seriam construídas pela Bell em Marietta, Ohio, mas foram cancelados três meses depois. Foi decidido, ao invés, construir uma versão maior e mais poderosa, que seria usada como caça-bombardeiro e caça de apoio cerrado.

DESENVOLVIMENTO

Os desenhos e desenvolvimento levados a cabo no XP-39E foram usados na finalização do
projeto que se tornaria conhecido como Bell Model 33, Bell P-63 Kingcobra. Exteriormente, essa nova aeronave era bastante similar ao Airacobra, mas apesar de ser maior e utilizar um Allison V-1710 mais potente que o dos P-39 de produção (excetuando-se o P-39K e P-39L), esforços tiveram de ser feitos para tornar o novo caça mais adaptável ao apoio cerrado, que seria sua função principal. Dois protótipos foram encomendados pela USAAF em junho de 1942 sob a designação XP-63, fazendo seus vôos de estréia em 7 de dezembro de 1942 e 5 de dezembro de 1943. Ambos eram equipados com motores Allison V-1710-47 de 1.325 hp.

As duas aeronaves foram perdidas em estágios primários do programa de testes, resultando de um terceiro protótipo, o XP-63A, que fez seu primeiro vôo em 26 de abril de 1943 utilizando o motor Allison V-1710-93 de 1.500 hp. Foi planejado testá-lo com um Packard-Merlin V-1650-5, mas isso não ocorreu. A performance do XP-63A se provou satisfatória, e o modelo entrou em produção em setembro de 1943. As primeiras entregas começaram em outubro e, quando a produção terminou em 1945, mais de 3.300 Kingcobras haviam sido construídos em várias versões. A grande maioria, cerca de 2.400 unidades, foram enviadas à URSS sob Lend-Lease, e outros 300 serviram com a Armée de l'Air da França Livre. Pouquíssimos P-63 de produção foram entregues à USAAF, e pelo que se sabe, nenhum Kingcobra lutou com as cores americanas.

EQUIPAMENTO E VARIANTES

O equipamento dos lotes de produção variava constantemente, resultando em diversos subtipos. Os primeiros P-63A-1s tinham motores V-1710-93, um canhão M4 de 37mm no nariz e uma metralhadora 12,7mm sob cada asa; outras variantes tinham mais duas metralhadoras 12,7mm na fuselagem do nariz. Os Bell P-63A-1s e P-63A-5s podiam acomodar um tanque descartável de 284 litros ou 662 litros, ou ainda uma bomba de 237 kg. O P-63A-6 tinha presilhas subalares para carregar bombas similares ou combustível extra, e o P-63A-10 podia carregar três foguetes ar-terra sob cada asa.

O peso da blindagem defensiva, inicialmente projetada para proteção contra artilharia antiaérea, aumentou progressivamente de 40 kg no P-63A-1 até 107 kg no P-63A-10. O P-63A foi sucedido nas linhas de montagem pelo P-63C com motor V-1710-117 de 1.800 hp. A característica que identificava o P-63C era uma pequena extensão do leme no ventre. Outras versões incluíam o único P-63D, que tinha o motor Allison V-1710-109, canopy em bolha e área alar ampliada; os 13 P-63E do pedido de 2.930 unidades, cancelado ao fim da guerra, e que se diferenciava do P-63D por ter canopy normal; e dois P-63F, modificação do P-63E com motor V-1710-135 e algumas modificações na cauda.

Outra estranha variante do Kingcobra foi produzida em grande número(mais de 300) para a USAAF, em seu programa de treinamento de combate envolvendo munição de verdade. Desenvolvida a partir do P-63A, toda a blindagem e armamento foram removidos, e a fuselagem, superfície externa das asas e cauda, foram protegidas pela adição de uma camada de duralumínio pesando 680 kg. Outras proteções incluíam a instalação de vidro à prova de balas nas janelas do cockpit, proteções de aço para o motor e exaustores, e o uso de um propulsor com lâminas grossas e ocas. Todas essas precauções foram tomadas para que a aeronave pudesse voar como alvo, sem sofrer avarias sérias com o impacto das balas recebidas. Quando a aeronave atacante atingia o esse Kingcobra, uma luz vermelha no painel confirmava a boa pontaria do treinante. As primeiras cinco dessas aeronaves foram designadas RP-63A-11. Os 95 RP-63A-12 que se seguiram tinham capacidade de combustível ampliada. A versão seguinte, RP-63C, que teve 200 unidades construídas, usava o motor Allison V-1710-117. A última versão foi o RP-63G(32 unidades) que tinha o motor V-1710-135 de 1.425 hp.

CONCLUSÃO

Nunca aceito pela USAAF para uso em combate, mas de sucesso considerável com a VVS
soviética, o P-63 no imediato pós-guerra se tornou uma atração no circuito de corridas aéreas. Alguns ex-pilotos militares compraram unidades sobressalentes no Arizona e reduziram a envergadura para aumentar a velocidade da aeronave. Hoje há muitos Kingcobras espalhados pelo mundo, alguns ainda em condições de vôo.

DADOS TÉCNICOS

Tripulação: 1
Comprimento: 10.0 m
Envergadura: 11.7 m
Altura: 3.8 m
Área alar: 23 m²
Peso vazio: 3.100 kg
Peso cheio: 4.000 kg
Peso máximo de decolagem: 4.900 kg
Motor: 1× Allison V-1710-117 V-12, 1.800 hp (1.340 kW)
Velocidade máxima: 660 km/h
Alcance: 725 km
Teto operacional: 13.100 m
Armamento: 1× canhão 37mm T9 disparando pelo cubo da hélice, 4× metralhadoras 12.7mm (duas no nariz, duas nas asas)

sábado, 28 de julho de 2007

Filmes: Leão do Deserto

Leão do Deserto (Lion of the Desert)
EUA/Líbia, 1981 - 173 min.

Direção: Moustapha Akkad
Roteiro: H. A. L. Craig
Elenco: Anthony Quinn, Oliver Reed, Rod Steiger, Irene Papas, John Gielgud, Raf Vallone, Sky Dumont, Gastone Moschin, Adolfo Lastretti

por Júlio César Guedes Antunes

Tive uma ótima surpresa recentemente, ao descobrir uma obra-prima do cinema que nos últimos 25 anos permanece escondida dos brasileiros e de boa parte do mundo: Leão do Deserto (EUA/Líbia, 1981). O filme é de um conjunto extremamente harmonioso, possui excelentes interpretações e fidelidade histórica de alto nível. Um conjunto de fatores, porém, conspirou para que a produção passasse quase despercebida no ocidente, embora seja um clássico de primeira grandeza no mundo árabe.

Leão do Deserto conta a história da pacificação da Líbia (conquistada dos Turcos em 1911) entre 1929 e 1931, período em que atingiram o auge as ações guerrilheiras de Omar Mukhtar, líder líbio rebelde, interpretado aqui com maestria absoluta por Anthony Quinn. Mukhtar encontra seu nêmesis quando Mussolini destaca Rodolfo Graziani (Oliver Reed, também impecável) como governador da Líbia, com ordens expressas para pacificar o território a todo custo. A trama gira em torno dos esforços de Mukhtar para expulsar os italianos e as medidas de Graziani para acabar com a resistência. Têm-se um duelo (quase pessoal) entre dois personagens extremamente carismáticos, rodeado por um cenário belíssimo e um elenco de apoio bastante competente.

O diretor sírio-americano Moustapha Akkad conseguiu do ditador líbio Muammar Kadafi 35 milhões de dólares para a produção, assim como permissão para filmar no país. Isso foi visto por muitos com maus olhos, e a empreitada ficou com a pecha de peça propagandística (não nos esqueçamos que na época Kadafi estava bastante relacionado ao terrorismo internacional). Guardadas as devidas proporções, o filme tem sim um forte sentimentalismo para com a causa árabe, mas é mais um retrato do colonialismo europeu do que uma indulgência ao islamismo. Afinal, os italianos agiram diferente na Líbia do que fizeram ingleses, franceses, espanhóis e portugueses em suas próprias colônias?

Akkad tomou extremo cuidado com a ambientação de sua história: os uniformes italianos estão
fielmente retratados, e milhões foram gastos na construção de réplicas de veículos militares como os carros blindados Lancia I.Z. e tanques Fiat 3000, somente para destruí-los nas cenas de batalha, que adquirem um aspecto vívido com tamanho preciosismo. As cenas de batalha, convém ressaltar, são um dos pontos altos do filme. Desde uma perseguição em deserto aberto a uma renhida batalha de montanha, o espectador percebe a grandiosidade das filmagens, e é imerso na guerra. A trilha sonora também é digna de menção, ficando a cargo de Maurice Jarre, que já havia mostrado excelência em Lawrence da Arábia. Uma bela regravação da Giovanezza, hino da era fascista, dá o tom para as cenas com o exército italiano.

Rodolfo Graziani, o homem escolhido para “pacificar” a Líbia, é um general em busca de glórias, especialista em guerras de colônia e disposto a utilizar todos os meios disponíveis para atingir seu objetivo. Reed tira todo o proveito desse personagem, e resulta numa figura cinematográfica fantástica. Seu Graziani exala a “superioridade” que os povos europeus sentiam sobre os africanos, e está longe da errônea imagem de velho incompetente que ganhou na campanha do deserto em 1940. Durante um diálogo com o Duque de Aosta, ele diz: “Um dia na memória de Roma vale mais para mim do que uma geração na memória da Líbia”. As tropas da MVSN, sob suas ordens, levam a cabo ações de repressão com cruel eficiência. Isso, Leão do Deserto tem de sobra: exibição da violência como ela é. Nada de truques de câmera para esconder execuções, nada de tiros secos atingindo pessoas. As balas trespassam os corpos e sangue jorra do outro lado; pescoços são quebrados nas forcas e crianças choram a perda dos parentes. Em uma cena, tanques italianos passam com as esteiras por cima de rebeldes árabes, e membros são esmagados em frente à câmera. Esse aspecto talvez tenha prevalecido devido à direção de Akkad, que se distancia um pouco do conservadorismo da escola americana.

Anthony Quinn, como já dito, entrega uma de suas melhores performances (se não a melhor) interpretando Omar Mukhtar. Sempre sereno e ponderado, o personagem de Quinn age como verdadeiro líder. É professor do Corão e estrategista militar, fazendo uso de seu conhecimento do terreno e táticas de fustigamento para castigar os italianos por sua permanência no país. A captura de Omar Mukhtar se torna prioridade máxima para Graziani, que se enfurece a cada tentativa frustrada de encontrá-lo.

O elenco de apoio tem nomes de respeito como Irene Papas no papel de Mabrouka, uma mulher árabe que vê sua família ser destroçada pelos camisas-negras; o veterano ator inglês Sir John Gielgud como Sharif el-Gariani, um líder líbio que colabora com o governo de Roma; Raf Vallone como Coronel Diodiece, um militar que preza pelo bom-convívio com a liderança líbia, e é conhecido como “o homem que faz amizades com um aperto de mão”; Sky Dumont interpreta Amedeo, Duque de Aosta, que é enviado à colônia junto com Graziani; Gastone Moschin e Adolfo Lastretti interpretram Tomelli e Sarsani, dois cruéis oficiais da MVSN.

Mas a maior surpresa entre o elenco de apoio é com certeza Rod Steiger, que interpreta ninguém menos que Il Duce Benito Mussolini. Num papel pequeno mas valoroso, Steiger dá um show ao interpretar controladamente Mussolini, sem explosões de ódio e com o humor típico do personagem. Um auxílio valoroso para a composição desse papel foi conseguido quando o diretor Akkad encontrou o antigo barbeiro de Mussolini, que deu a Steiger dicas preciosas sobre seus trejeitos e ainda fez um “corte de cabelo” igual ao que fazia no Duce.

A trama desenvolve-se com Graziani ordenando a prisão de milhares de pessoas em campos de concentração próximos à costa (o filme faz uso de filmagens aéreas dos verdadeiros campos, feitas na década de 30) e propondo a construção da segunda “Muralha de Adriano”, uma cerca de arame farpado ao longo de toda a fronteira da Líbia com o Egito (de onde Mukhtar recebia suprimentos), fortificação que permaneceu montada até a Segunda Guerra Mundial. Sem suprimentos, os homens de Omar Mukhtar entram em dificuldades e são finalmente emboscados pelos italianos.

A parte final da película se desenrola num importante diálogo a sós entre Mukhtar (já prisioneiro) e Graziani, bem como o julgamento e condenação do líder rebelde, culminando num final comovente e emocionante. Uma frase proferida pelo personagem de Quinn diz muito sobre ideal árabe em batalha: “Nunca nos renderemos; ou vencemos, ou morremos. Teremos a próxima geração para lutar, e após a próxima, a próxima. E quanto a mim, viverei mais através do meu enforcamento.” Este é o mesmo ideal que ainda move os palestinos em sua luta contra Israel ou os iraquianos contra a ocupação americana.

O filme foi proibido na Itália, por ser “ofensivo à memória do Exército”, sendo liberado somente há alguns anos. Nos países ocidentais em que foi exibido, passou despercebido pelas bilheterias, gerando prejuízo para o estúdio. Há de se entender que Leão do Deserto foi lançado no mesmo ano que Caçadores da Arca Perdida e em plena mania de Star Wars. O público não estava animado em assistir um drama clássico colonial. Essa reputação, no entanto, foi perdida com o passar do tempo, e o filme é hoje amplamente aclamado pela crítica. Agora é esperar para ver se alguma distribuidora finalmente trará este clássico para as prateleiras do Brasil. Vale a pena conferir.

Making-Of

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Sir Harold Alexander

Sir Harold Alexander
Marechal-de-Campo
(1891 - 1969)

Harold Rupert Leofric George Alexander nasceu em Londres no dia 10 de dezembro de 1891, filho do quarto Lord Caledon. Recebendo sua educação em Harrow e Sandhurst, ele juntou-se à Guarda Irlandesa como segundo-tenente, passando a maior parte da Primeira Guerra Mundial com este regimento, ascendendo ao comando do 2º Batalhão em 1917. Em 1918 ele deixou seu batalhão para tomar o comando temporário da 4ª Brigada de Guardas, enquanto em 1919 foi enviado à Polônia com a Comissão Aliada de Rendição, no comando do Landeswehr do Báltico.

Alexander retornou ao seu regimento como oficial-comandante do 1º Batalhão. Uma indicação para o estado-maior se seguiu, e em 1932 ele foi promovido para comandar a Brigada Nowshera na pacificação do norte Índia. Seis anos depois, já um major-general, ele tomou o comando da 1ª Divisão na Grã-Bretanha, acompanhando-a até a França como parte da Força Expedicionária Britânica em 1940. Na luta pelo perímetro de Dunquerque, ele passou a comandar o I Corpo. Foi lá que Alexander fez sua reputação: Churchill impressionou-se com sua atmosfera de tranqüilidade no comando quando ao redor o caos completo reinava.

Em dezembro de 1940 ele foi novamente promovido, a tenente-general, e feito comandante do Comando do Sul das ilhas britânicas, onde permaneceu por 18 meses antes de sua partida para o Extremo Oriente. Lá recebeu o comando do Exército de Burma. Em longo prazo, Alexander nada poderia ter feito para evitar a perda de Burma para as mais bem treinadas e equipadas tropas japonesas. No entanto, durante seu comando ele foi salvo das conseqüências de algumas de suas decisões somente pela competência de alguns de seus comandantes subordinados, como William Slim. Em três meses, suas forças haviam recuado para a Índia. Entretanto, a mal-sucedida campanha em nada afetou sua reputação junto a Churchill.

Em julho de 1942, Alexander assumiu o comando do 1º Exército, que fora escalado para a invasão da África do Norte Francesa, mas na conjuntura de eventos que se seguiu à demissão de Claude Auchinleck, ele foi feito comandante-em-chefe do Oriente Médio. No rastro dos sucessos Aliados em empurrar os alemães e italianos para dentro da Tunísia, Alexander assumiu o comando do 18º Grupo de Exércitos, formado pelo 1º e 8º Exércitos, e promovido ao grau completo de general. Ao mesmo tempo, ele se tornou Representante do Supremo Comandante Aliado para o Teatro de Operações do Mediterrâneo.

Para a invasão da Sicília, o 18º Grupo de Exércitos foi dividido e substituído no inventário pelo 15º Grupo de Exércitos Anglo-Americano. Alexander novamente tomou o comando, fazendo dele o comandante de campo na Sicília e Itália. Em novembro de 1944, suas responsabilidades cresceram novamente quando ele foi designado Supremo Comandante Aliado do Mediterrâneo e promovido a Marechal-de-Campo.

Ele deixou o comando em novembro de 1945. Elevado à nobreza como Visconde Alexander de
Túnis, ele passou seis anos como Governador Geral do Canadá, antes de se tornar Ministro da Defesa no último mandato de Churchill em 1951. Alexander não era um homem da política, e pediu demissão do cargo em outubro de 1954.

O comando do I Corpo por Alexander em Dunquerque impressionou tanto a Churchill que garantiu sua carreira pelo resto do conflito. O peso da desaprovação que se seguiu à desastrosa derrota em Burma não recaiu sobre ele, como comandante, mas sobre seus subordinados, embora muitas das mais infelizes decisões, como segurar Rangoon frente à terrível superioridade inimiga, tenham sido tomadas pessoalmente por ele. Como Comandante Aliado na Sicília, e novamente na Itália, Alexander falhou em exercer “força” sobre seus reconhecidamente teimosos subordinados, como Montgomery e os americanos Mark Clark e George Patton.

Basil Liddel Hart mais tarde comentou que Alexander era “um líder nato, não um líder feito. Ele ganhava a confiança dos homens no primeiro olhar... no entanto era introspectivo a ponto de prejudicar seus próprios poderes.” Ele seguiu dizendo que Alexander era, embora altamente inteligente, em certa dose preguiçoso: os sucesso chegavam tão rapidamente e facilmente que ele nunca teve que se exaltar em momento algum. O Almirante Andrew Cunningham, que serviu com Alexander no Mediterrâneo, foi menos complacente e, caracteristicamente causticante, achava que Alexander era “um peso-morto... não era talhado para ser um Comandante Supremo. Ele não tinha opiniões próprias que não estava preparado para mudar... nenhum conhecimento do mar e pouquíssimo conhecimento do ar.”

Essa dureza era balanceada com comentários favoráveis. Churchill disse: “Os planos adotados por Alexander na Batalha de El Alamein serão julgados pela história como modelo de arte militar.” Um comentarista militar disse que ele era “o melhor produto da tradição inglesa do soldado-aristocrata.”

Alexander era um apreciador da observação de pássaros, bem como da pintura em tela. Certa vez o indagaram: “Seus quadros são lindos, porque não organiza exposições e tenta vendê-los?” O Marechal respondeu: “Sinto vergonha dos meus vícios.” Lord Alexander de Túnis faleceu de uma perfuração na aorta em 16 de junho de 1969, 77 anos. Seu funeral foi realizado 24 de junho na capela de St. George no Castelo de Windsor.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Mario Visintini

Mario Visintini
Capitano
(1913 - 1941)

Mario Visintini nasceu em Parenzo d‘Istria, 26 de abril de 1913. Ao completar seu ensino superior, ele tentou ingressar na Accademia Aeronautica, mas foi reprovado nos exames médicos. Decidido, ele freqüentou um curso de piloto civil num Caproni Ca.100 em Taliedo, perto de Milão, em junho de 1936. A licença civil permitiu-lhe juntar-se à Regia Aeronautica com “Allievo Ufficiale Pilota di Complemento” (Cadete). Ele obteve suas “asas” militares em Grottaglie, setembro de 1937, e foi enviado para a 91ª Squadriglia, 10º Gruppo do 4º Stormo, em Gorizia, onde treinou no Fiat CR.30 e Fiat CR.32.

Em novembro de 1937 Visintini se voluntariou para servir na Espanha, onde passou a voar junto à 25ª Squadriglia do XVI Gruppo “La Cucaracha”. Ele participou de muitos combates aéreos e derrubou um Polikarpov I-16 em 5 de setembro de 1938, voando o valente biplano Fiat CR.32. Como resultado de seu histórico de combate, Visintini foi comissionado permanentemente na Regia Aeronautica quando retornou à Itália em outubro de 1938. Retornando ao 4º Stormo, se qualificou no Ca.133, CR.42 e no trimotor SM.79. Em janeiro de 1940 foi promovido a Tenente.

Em 5 de abril, ele foi transferido para a 413ª Squadriglia na AOI (Africa Orientale Italiana). Um pouco antes da declaração de guerra italiana, Visintini passou para a 412ª Squadriglia, voando o Fiat CR.42 na Eritréia. Essa unidade tinha um bom número de pilotos saídos do famoso 4º Stormo. Quatro dias após a declaração de guerra de 10 de junho, unidades da RAF começaram a bombardear alvos na Eritréia, e Visintini conseguiu derrubar um Vickers Wellesley do 14 Squadron, sendo que um segundo Wellesley foi ao chão em 3 de julho.

Infelizmente, nos últimos dias da capitulação italiana no Leste da África, os registros de guerra da 412ª Squadriglia se perderam, tornando extremamente difícil reconstruir todas as 16 vitórias atribuídas a Visintini naquele teatro de operações. É sabido que ele derrubou pelo menos cinco Bristol Bleheims, três Gloster Gladiator e um grande número de Wellesleys. Ele também conseguiu outros sucessos em ataques aos aeródromos de Ghedaref, Gaz Regeb e Agordat, sendo que de acordo com os registros britânicos esses ataques custaram à RAF e à SAAF dezenas de aeronaves destruídas no solo.

Durante o ataque à Gaz Regeb em 12 de dezembro de 1940, o CR.42 pilotado pelo comandante da 412ª Squadriglia, Capitano Antonio Raffi, foi atingido por fogo antiaéreo, sendo forçado a fazer uma aterrissagem de emergência atrás das linhas inimigas. Ao observar a cena, Mario Visintini aterrissou seu caça perto do local da queda, descartou seu pára-quedas e ajudou Raffi a subir a bordo. Em seguida ele voltou à base praticamente no colo do comandante! Após o resgate, outros caças da unidade fizeram vários ataques ao CR.42 de Raffi, para garantir sua completa destruição.

Promovido a Capitano e comandante da 412ª Squadriglia em 16 de janeiro de 1941 graças ao fantástico recorde operacional, e já condecorado com as Medaglie di Bronzo e d’Argento al Valore Militare, Visintini decolou em 11 de fevereiro em meio ao mau tempo. Enquanto procurava por seu ala, Sergente Luigi Baron (que tinha sido forçado a pousar pelo mesmo mau tempo), seu CR.42 saiu de curso e colidiu com o Monte Nefasit, na Eritréia, matando instantaneamente o piloto. No momento de sua prematura morte, Mario Visintini contava com 17 vitórias aéreas individuais (além de 2 compartilhadas e 32 aeronaves destruídas no solo), um número que certamente progrediria muito se sua vida fosse poupada daquele acidente. Talvez se tornasse o maior ás italiano da guerra.

Em honra de sua heróica conduta da campanha, Mario foi condecorado postumamente com a Medaglie d’Oro al Valore Militare. Sua inesperada morte, inegável sucesso e a fascinação nacional que cercava a batalhas no mais distante canto do Império Italiano foram todos fatores que fizeram de Visintini uma lenda em seu próprio tempo. De fato, um dos volumes de “Eroi e Avventure de la Nostra Guerra” publicado em 1942 foi dedicado a ele, com o título de “Il Pilota Solitario”. Seu irmão, Licio Visintini, oficial da Regia Marina junto à Decima MAS, também se tornou herói nacional e perdeu a vida durante um ataque de “torpedos-humanos” contra belonaves inglesas no porto de Gibraltar, em 8 de dezembro de 1942. E como o irmão Mario, também foi condecorado com a Medaglie d’Oro.


Fiat CR.42 de Mario Visintini (412ª Squadriglia Autonoma). Gura, AOI, verão de 1940.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

T-6 Texan faz pouso de emergência em rodovia!

No começo da noite do último domingo, 22 de julho, um North American T-6 Texan fez um pouso de emergência numa rodovia perto do condado de Fond Du Lac, no estado americano de Wisconsin. O piloto, Bill Leff, disse que o motor da aeronave entrou em pane, parando completamente, o que o impediria de atingir o aeroporto mais próximo. A aeronave estava à caminho do famoso Show Aéreo de Oshkosh.

Bill, que voa a 44 anos, agiu rapidamente e escolheu um ponto da rodovia entre os carros, fazendo uma aproximação baixa e tocando o solo sem maiores problemas. Ninguém se machucou. A aeronave teve a ponta da asa direita danificada ao bater contra a proteção da pista. Um carro da patrulha rodoviária filmou todo o incidente:

terça-feira, 24 de julho de 2007

Satoshi Anabuki

Satoshi Anabuki
Sargento-Mestre
(1921 - )

Apesar de ser o maior ás da Força Aérea do Exército Imperial na Segunda Guerra Mundial, Satoshi Anabuki não era bem conhecido do público japonês durante a guerra, um fato igualmente dividido por seus inimigos. No entanto, dentro da Força Aérea, seus resultados ganharam fama notória como o “Florescer da Juventude”.

Filhos de pais camponeses, Satoshi Anabuki nasceu em 1921 no distrito de Kagawa, e logo expressou sua paixão pelo vôo. Ele se juntou ao Programa de Vôo Preparatório do Exército Para a Juventude e entrou para a Academia de Aviação do Exército de Tóquio em abril de 1938. Anabuki recebeu posterior treinamento em Kumagaya e Tachiarai, e quando conseguiu completar os cursos em março de 1941, foi designado para o 3º Chutai do 50º Sentai em Formosa (Taiwan) em julho.

Em 7 de dezembro, o então Cabo Anabuki, aos 19 anos, participou de ataques às Filipinas, e seu primeiro combate se deu na forma de um ataque de perseguição a um Boeing B-17D. Ele conseguiu sua primeira vitória em 22 de dezembro, quando derrubou um Curtiss P-40E do 17º Esquadrão de Caça da USAAF, sobre o Golfo de Lingayen; a aeronave americana havia acabado de metralhar embarcações japonesas. Após a invasão, a principal força do 50º Sentai foi embarcada para Burma, mas o Chutai de Anabuki ficou para trás. Tirando o maior proveito de sua estada prolongada, ele derrubou mais dois P-40s sobre Limai em 9 de fevereiro de 1942, sendo alguns dos últimos caças americanos disponíveis para a proteção das Filipinas na época.

Em abril, Anabuki retornou para o Japão com sua unidade, que finalmente trocou seus obsoletos Nakajima Ki-27 pelos novos Ki-43-I-Hei Hayabusa. Reequipados, voaram de volta para Burma em junho e passaram a operar nas redondezas do campo Mingaladon e nos arredores de Rangoon.

Foi no sudoeste asiático que o “Garoto Maravilha” começou a brilhar. Talvez o melhor exemplo
de suas habilidades tenha ocorrido no dia 24 de dezembro de 1942, quando, após ter sua aeronave danificada por um bombardeio inimigo durante a decolagem, ele foi forçado a combater com os Hurricanes da RAF com o trem de pouso abaixado. Apesar dessa desvantagem, Anabuki conseguiu derrubar três deles – embora a RAF só tenha reconhecido a perda de dois caças, um do 607º e um do 615º Esquadrão. O piloto da última aeronave, C. D. “Chook” Fergusson, foi jogado para fora do cockpit de sua aeronave em chamas quando ela explodiu alguns metros acima de um banco de areia no rio Iwaraji. Embora muito queimado, Fergusson sobreviveu e conseguiu se recuperar dos ferimentos.

Em 26 de janeiro de 1943, Anabuki derrubou seu primeiro Consolidated B-24. Dez meses depois, em 8 de outubro, ele repetiria esse sucesso três vezes, derrubando três Liberators, e mais dois Lightnings que faziam escolta. Um dos bombardeiros foi derrubado quando Anabuki arremessou seu caça contra a parte direita da cauda do B-24, arrancando-a. Embora tenha atingido com essa ação do status de “ás em um dia”, ele foi ferido e forçado a fazer um pouso de emergência em uma praia de Burma, sendo resgatado três dias depois.

A corajosa ação de Anabuki elevou o moral de seu grupamento aéreo, e trouxe para ele uma coleção de premiações: o General Kawabe, comandante do da Força Distrital de Burma, o presenteou com um poema de sua autoria, enquanto o General On San, comandante do Exército de Burma, visitou-o enquanto estava no hospital, cumprimentando-o pelo ato. Embora não ainda totalmente recuperado, Anabuki insistia em retornar ao serviço, mas foi proibido de voar.

Em fevereiro de 1944 ele retornou ao Japão, onde se tornou um valoroso instrutor na Escola de Caças de Akeno. Ele foi promovido a Sargento-Mestre em outubro, e enquanto realizava a perigosa tarefa de trasladar os novos caças Nakajima Ki-84 Hayate para as Filipinas, entrou em diversos combates com Hellcats da Marinha Americana, conseguindo derrubar seis deles. Anabuki então passou a voar missões de defesa territorial do Japão, adicionando um B-29 Superfortress ao seu escore antes da rendição de seu país.

O Sargento Anabuki manteve durante a guerra um elaborado diário operacional, no qual ele registrou 173 missões de combate em Burma e 51 vitórias aéreas, das quais 30 foram oficialmente reconhecidas. Historiadores do pós-guerra calculam seu total provável em 39 abates.

Satoshi Anabuki subseqüentemente juntou-se à Força Aérea de Auto-Defesa do Território do Japão na década de 1950 e se tornou piloto de helicópteros. Ainda vivo nos dias de hoje, o velho ás desfruta uma tranqüila aposentadoria.


Nakajima Ki-43 Hayabusa de Satoshi Anabuki (3º Chutai, 50º Sentai). Burma, janeiro de 1943.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Última visita de Hitler ao front

Em 3 de março de 1945, Hitler fez sua última visita a um quartel-general do front, neste caso, no rio Oder. Lá, o assistente Walter Frenz fez uma das últimas fotos coloridas do Führer:

Circulando Hitler, em primeiro plano, estão (da esquerda para a direita):

-General der Artillerie Wilhelm Berlin, comandante do CI Corpo de Exército;
-Generaloberst Robert Ritter von Greim, comandante do Luftlotte 6;
-General der Flakartillerie Job Odebrecht, comandante do II Flak Korps;
-General der Infanterie Theodor Busse, comandante do 9º Exército.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

A Conquista da Somalilândia Britânica - Parte 3

No dia 13, enquanto a RAF era reforçada por 11 Vickers Wellesley do 223 Squadron de Aden, os ataques italianos na Colina Negra e na Maçaneta recomeçaram e a XV Brigada começou a infiltrar-se nas posições indianas e ao longo do Passo de Mirgo em direção à estrada entre os Rodésios e o KAR. À noite os italianos emboscaram uma companhia do Black Watch que escoltava uma coluna de suprimentos pela estrada, dispersando os caminhões e ameaçando isolar a posição dos Rodésios. O KAR foi incapaz de restaurar a situação e seu comandante foi substituído.

A II Brigada de Lorenzini, no entanto, continuou a fazer lento progresso em sua marcha para o norte e a XV Brigada falhou em aproveitar sua vantagem com infiltrações agressivas no dia 14. A XIV Brigada, após sofrer pesadas baixas nos três dias de ataque aos pontos fortes rodesianos, foi mandada para a reserva e substituída pela descansada XIII Brigada. Após doze horas de preparação de artilharia, a Brigada atacou a Observação ao entardecer com pouco sucesso. A luta também continuava no Passo de Jerato. As aeronaves italianas continuavam a bombardear os britânicos em Tug Argan – notadamente a recuada Colina do Castelo – e seus veículos na estrada de Berbera.

Enquanto isso, o pequeno grupo de italianos – que fazia parte da coluna de Bertello – continuava as escaramuças contra os Punjabis no sul, no Passo de Sheikh. A coluna exploratória de Passerone estava também encontrando dificuldades na costa, pois embora o caminho para Berbera estivesse desimpedido, a trilha se provou intransitável para os veículos italianos, e a coluna era constantemente bombardeada pela RAF e pela Royal Navy, que incluía o HMS Kimberley, HMS Auckland, HMS Carlisle, HMS Ceres e HMAS Hobart. A coluna “esquerda” de Bertoldi estava sendo bombardeada pela RAF em Zeila e destacou a LXX Brigada para ajudar De Simone em Tug Argan.

Ainda convencido de que seria necessário atacar diretamente a estrada para Berbera pelo meio da posição de Tug Argan ao invés de contorná-la, De Simone ordenou novo ataque à Colina da Observação no dia 15. Ao mesmo tempo, Nasi despachou novas instruções, dizendo que se o ataque falhasse, a ofensiva deveria parar até que a coluna do centro pudesse ser reorganizada e reforçada.

Embora mais tarde na campanha do leste africano a inteligência britânica conseguisse quebrar os
códigos italianos e ler suas mensagens muitas vezes antes que chegassem aos próprios comandantes de campo, este não era o caso em Tug Argan. Abalado pela emboscada à sua coluna de suprimentos na estrada e pela infiltração da XV Brigada, e convencido de que era uma questão de horas até que a posição de Tug Argan fosse completamente envolvida, Goodwin-Austen requisitou aprovação para recuar. Do contrário, disse ele no dia 14: “Seria uma luta até o fim e a destruição de todo o meu comando”. No Egito, o General Henry Maitland “Jumbo” Wilson, comandante na ausência de Wavell, autorizou a evacuação.

Na tarde de 15 de agosto De Simone desfechou seu ataque final contra os Rodésios na Colina da Observação. Às 19:00h a colina estava nas mãos dos italianos e os defensores tentavam se render ou fugir em desordem. A II Brigada de Lorenzini, incapaz de achar uma trilha que o levasse atrás do flanco inglês, finalmente se viu em posição de atacar as dispersas posições dos Punjabis. Goodwin-Austen autorizara a retirada para o escurecer e o 3º/15º Punjab, 1º Rodésia do Norte e quase todo o 2º King’s African Rifles desengajou e fugiu para Berbera, com sua retaguarda sendo coberta pelo 2º Black Watch e o restante do KAR.

Em 16 de agosto, ao invés de prosseguir à frente e explorar sua suada vitória, De Simone preferiu cautela. Suas brigadas estavam na seguinte situação:

• II Brigada: pronta para começar o avanço para Laferug a partir das antigas posições indianas no flanco direito inglês;
• XIII Brigada: reagrupando-se em preparação para o avanço na estrada até Laferug;
• XV Brigada: testando os pontos altos, agora livres de inimigos, ao largo da estrada para Berbera;
• XIV Brigada: na reserva;
• LXX Brigada: chegando da coluna de Bertoldi.

Nenhum progresso foi feito naquele dia ao longo da estrada para Berbera, no Passo de Jerato, mais ao sul no Passo de Sheikh, ou na trilha costeira onde o Generale Passerone chgou à aldeia de Bulhar, parando seu avanço devido à falta de água. Embora as forças terrestres de Nasi fossem incapazes de interferir na retirada britânica, a Regia Aeronautica transferiu mais aeronaves para Diredawa e jogou-as em cima de Berbera. Ao atacar, encontraram fogo antiaéreo e caças em patrulha, incluindo dois caças franceses alocados no 8 Squadron de Aden. Sabe-se que um SM.79 Sparviero foi derrubado.

Na dia 17, a força aérea italiana continuou seus ataques enquanto cinco Bleheims atacavam o campo de Hargeisa. De Simone finalmente começou sua perseguição, liderando a descansada LXX Brigada, reforçada com veículos blindados. Seguindo ao norte pela estrada encontraram a retaguarda Black Watch em combate pesado. Em Berbera, a Royal Navy apressadamente evacuava as tropas britânicas para a segurança em Aden. Na escuridão, e com pouca pressão inimiga, a última retaguarda inglesa fugiu para o porto e embarcou na manhã do dia 18 de agosto.

Naquele dia Bleheims bombardearam os italianos em Laferug, com um dos bombardeiros interceptado e derrubado. Cinco Wellesleys de Aden decolaram numa longa e perigosa missão em Adis Abeba, onde surpreenderam e destruíram cinco aeronaves italianas no chão. SM.79s escoltados por CR.42s também atacaram Berbera duas vezes naquele dia, mas não haviam alvos importantes.

No dia seguinte, 19 de agosto, os italianos entraram em Berbera e tomaram o porto, concluindo a conquista da primeira colônia britânica pelo Eixo na Segunda Guerra Mundial.

Conclusão

O difícil terreno da Somalilândia Britânica favoreceu os defensores, que apesar de superados imensamente em números, conseguiram boas posições defensivas. A eficiência do sistema de retirada inglês também se fez sentir no saldo de baixas da campanha. O resultado pode ser claramente visto:

• Baixas Britânicas: 38 mortos, 102 feridos e 120 desaparecidos;
• Baixas Italianas: 465 mortos, 1.530 feridos e 34 desaparecidos.

O Generale De Simone foi nomeado governador militar da Somalilândia Britânica e comandou o território durante a ofensiva britânica do ano seguinte. Apesar da vitória, a AOI continuou isolada do restante das colônias italianas e seus suprimentos diminuíam a cada dia. Somente alguns Savoia-Marchetti SM.82s conseguiam levar suprimentos para Adis Abeba, fazendo vôos noturnos clandestinos sobre o Sudão.

A importância da campanha da Somalilândia Britânica, além do fato de adicionar peso ao
“período negro” do Império Britânico em 1940, é que ela foi a única campanha em que os italianos venceram sozinhos, mostrando a qualidade e iniciativa do Duque Amedeo de Aosta e do Generale Guglielmo Nasi, que atacaram de imediato e com recursos bem mais parcos do que os disponíveis para Rodolfo Graziani na Líbia, por exemplo.

Do outro lado da mesa, Churchill criticou pesadamente Wavell pela rápida derrota na Somalilândia. Quando viu a pequena quantidade de baixas, Churchill insistiu que o território havia sido abandonado sem luta. No que Wavell respondeu: “Uma sangrenta conta de açougue não é sinal de um bom comandante”. Ao ler essa resposta, Churchill enfureceu-se de maneira nunca vista por seus acessores.

Mapa da campanha, mostrando o curso das colunas italianas.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

A Conquista da Somalilândia Britânica - Parte 2

O Avanço Italiano

A ofensiva terrestre foi acompanhada de um aumento da atividade aérea. No dia da invasão, três Savoia-Marchetti SM.81s atacaram Berbera; um foi danificado por um Gladiator do 94 Squadron. No próximo dia dois dos quatro Gladiators em Berbera foram movidos para a pista avançada de Laferug, enquanto um par de SM.79s do 44º Gruppo foram para Diredawa.

Em 5 de agosto os Bleheims do 8 Squadron fustigaram o movimento italiano na estrada a oeste de Hargeisa; um foi derrubado por um Fiat CR.32 da 410ª Squadriglia. Enquanto isso, no mesmo dia, os italianos transferiram dois SM.79s e três Ca.133s para Diredawa e atacaram Berbera, Aden, Burao e Zeila. Esta última cidade foi capturada sem resistência no mesmo dia pela coluna de Bertoldi, que de longe estabelecera o passo mais acelerado das três colunas invasoras, e acabou selando a fronteira entre as Somalilândias Francesa e Britânica. Com a captura de Zeila, a indefesa trilha costeira estava aberta para os dois batalhões da coluna exploratória de Passerone.

No dia 6 a coluna de Bertello atingiu Odweina. Embora o Passo de Sheikh estivesse sendo defendido pelo solitário 1º/2º Punjab, somente um pequeno grupo de Dubats foi despachado para a trilha Burao-Berbera e contra a posição indiana. A maior parte da coluna de Bertello convergiu em direção ao centro do avanço italiano para ameaçar o flanco das defesas ingleses em Tug Argan. Ao mesmo tempo, a coluna central de De Simone encontrou um destacamento de Rodésios e companhias do Camel Corps protegendo Hargeisa. Os defensores foram capazes de destruir alguns veículos italianos antes de recuar para Tug Argan. Tendo avançado cerca de 80 km sem enfrentar oposição séria, De Simone parou em Hargeisa para reagrupar antes de tomar a dianteira contra a principal posição inimiga.

De Simone continuou a reagrupar-se no dia seguinte, enquanto em Zeila, Passerone recebeu ordens de começar seu avanço pela trilha costeira até Berbera. Devido ao controle britânico do litoral da Somalilândia, não havia possibilidade de embarcar os batalhões de Passerone e capturar o porto. As perspectivas italianas no ar eram melhores. Com Hargeisa segura nas mãos de De Simone, dois CR.32s e dois CR.42s foram movidos para o campo de pouso lá. Desse ponto, podiam fazer patrulhas constantes sobre o campo de batalha e dominar o espaço aéreo entre Hargeisa e Berbera.

No dia seguinte, 8 de agosto, dois CR.32s e um CR.42 atacaram Berbera, onde conseguiram surpreender os dois Gladiators no solo e destruir ambos antes que pudessem decolar. Quando a notícia chegou aos Gladiators avançados no campo de Laferug, ambos foram evacuados para Aden. A partir daí, todas as aeronaves britânicas tinham que voar a partir do outro lado do Golfo de Aden, acrescentando cerca de 600 km em cada viagem. A crescente distância do front tornou difícil para a RAF intervir contra os SM.81s, SM.79s e Ca.133s que continuamente atacavam Berbera e as defesas inglesas. Enquanto as aeronaves cruzavam o céu em suas missões, a coluna de De Simone, constantemente apressada por Nasi, completou o reagrupamento e lentamente começou o avanço sobre Tug Argan.

As forças terrestres italianas continuaram a fazer lento progresso no dia 9. No ar, três caças de
Hargeisa atacaram Berbera mas um foi danificado pela antiaérea do HMAS Hobart. Mais aeronaves italianas foram transferidas para Diredawa e mais caças foram transferidos para o campo capturado de Hargeisa. Ambos os lados realizaram ataques aéreos nas cercanias de Tug Argan; um Bleheim foi danificado por um CR.42 e dois outros Bleheims foram destruídos após colidirem em pleno ar.

Em 10 de agosto o Major General A. R. Goodwin-Austen chegou à Berbera para assumir o comando das forças britânicas. Sua designação foi feita pelo General Sir Archibald Wavell, Comandante em Chefe do Oriente Médio. Wavell, que havia partido para Londres em 4 de agosto, ordenara que reforços fossem despachados imediatamente para a Somalilândia Britânica: um batalhão de infantaria, uma bateria de artilharia, e sapadores indianos; um regimento de artilharia de campo e dois canhões antitanque de 2 libras do Oriente Médio; e um regimento de cavalaria mecanizada da 4ª Divisão Indiana, também do Oriente Médio. Dado o tamanho dessas forças adicionais, a Somalilândia requereria um comandante de alta patente, e Goodwin-Austen, em rota para o Quênia, supriu a demanda. No final das contas, ele foi o único elemento desses reforços que realmente chegou à Somalilândia. Outros reforços designados por Wavell incluíam duas armas antiaéreas da 23ª Bateria da Brigada de Hong Kong e Singapura, Royal Artillery (para a defesa de Berbera) e o 2º Black Watch, todos de Aden. Estes conseguiram chegar. O 2º Black Watch começou a zarpar para Berbera em 6 de agosto, mas levou três dias para completar a viagem, e finalmente chegou à uma posição de reserva atrás de Tug Argan no mesmo dia em que Goodwin-Austen desembarcou em Berbera. Substituídos pelo Black Watch, o 3º/15º Punjab se moveu para a reserva. A chegada do General inglês também coincidiu com a chegada de De Simone a Tug Argan.

No dia seguinte, 11 de agosto, os italianos finalmente começaram a testar as posições inglesas.

A Batalha de Tug Argan

Geograficamente conhecida como a “Falha de Tug Argan”, logo após o “tug” (um curso d’água que quase sempre está seco e poeirento) que corre em frente à abertura entre a planície de Assa e as numerosas colinas mais ao norte, este foi o local escolhido pelos ingleses para fazer a defesa. Lá, a estrada para o norte por Hargeisa vira para leste, cruzando o tug, e então corre por entre as cabanas e a pista de pouso de Laferug a uns 30 km adiante, seguindo depois por mais 50 km para o norte até Berbera por terreno plano e indefensável.

O flanco direito britânico era defendido por três companhias do 3º/15º Punjab espalhados por uma linha norte-sul de pontos fortes frente ao oeste, através de terreno difícil alguns quilômetros acima do ponto principal onde a estrada cruza o tug.

À esquerda (sul da posição britânica) existia uma falha entre os indianos e os Rodésios, que ocupavam a frente principal em Tug Argan. Junto com alguns metralhadores do Camel Corps, o batalhão fragilmente defendia uma linha de 8 km seguindo a curva de Tug Argan, de frente ao oeste e o sul. Os pontos fortes rodesianos eram localizados numa série de colinas: a Colina Negra no norte, depois na Colina da Maçaneta, Colina do Moinho, e a Colina da Observação no sul. Havia também a Colina do Castelo, posicionada atrás e entre o Moinho e a Observação. A estrada para Laferug e Berbera cruzava essa parte do front sobre o tug e a Observação. Todos os quatro canhões da 1º Bateria Leve da África Oriental estavam com os Rodésios, dois na Maçaneta e dois no Moinho.

Ao leste, na esquerda, atrás dos Rodésios e seus metralhadores e artilheiros, ficava outra falha, depois um destacamento indiano encarando o sul, outra falha, depois o 2º KAR (King’s African Rifles) na Colina do Bloco, também ao sul, cobrindo o Passo de Mirgo com a estrada para Berbera correndo logo à sua retaguarda.

Ainda mais longe na esquerda inglesa havia outra falha, essa com 8 km de comprimento, entre o KAR no Bloco e o restante de seus colegas que defendiam a extrema esquerda da linha, no Passo de Jerato.

Atrás dessa tortuosa linha de defesa ficava o quartel-general do recém-chegado Goodwin-Austen com o 2º Black Watch na reserva atrás, perto do abandonado campo de Laferug.

A posição britânica em Tug Argan, embora fazendo o melhor uso possível das colinas, terreno acidentado, e o curso seco do tug, estava muito estendida para o número de tropas disponível, sem profundidade e vulnerável à penetração. Sendo assim, somente a Falha em si estava protegida e não havia como impedir que os mais numerosos italianos enviassem unidades ao redor dos flancos para envolver toda a posição. Mas nenhum outro ponto da Somalilândia Britânica permitia que tropas tão pouco numerosas tivessem esperança de deter o avanço italiano.

Os italianos, no entanto, sofriam de uma desvantagem que eles não reconheceram a princípio. Seus mapas haviam sido confeccionados com base em mapas ingleses pouco confiáveis datados de 1926. Eles não mostravam corretamente o caminho da estrada principal e a disposição do terreno ao redor da posição defensiva. Esse erro cartográfico dificultou muito o controle da batalha por De Simone.

As brigadas italianas começaram a atingir as posições britânicas no dia 10 de agosto, vindo em fila pela estrada, espalhando-se gradualmente e assumindo posições. Da estrada principal a XIV Brigada encarava os Rodésios, estacionados nas colinas, do outro lado do tug. A II Brigada de Lorenzini, trazida da reserva, ocupou o flanco esquerdo italiano e começou a mover-se para o norte para tentar um flanqueamento das posições inimigas. A XV Brigada posicionou-se à direita (leste) da estrada, virada para o norte em direção aos Punjabis, enquanto a XIII Brigada e os veículos blindados permaneciam na reserva. Mais longe ao leste, a maior parte da coluna da direita do Generale Bertello (que havia se desviado para auxiliar De Simone) aproximou-se da posição do KAR defendendo o Passo de Jerato.

Na manhã de 11 de agosto das 7:30h às 8:00h, bombardeiros SM.81 atacaram as posições
indianas (conhecidas pelos italianos como Monte Dameir) e a pista de Laferug. Um dos SM.81 foi derrubado por fogo terrestre. Quando o bombardeio acabou, a preparação de artilharia teve início, indo até o meio dia. Às 12:30h a XV Brigada começou seu avanço contra os Punjabis e a XIV Brigada atacou as posições dos Rodésios nas Colinas da Observação e Maçaneta. Com dificuldade, os ataques foram repelidos, enquanto Lorenzini continuava a avançar para o norte.

A brigada de Lorenzini continuou no dia 12 sua marcha através do acidentado terreno enquanto a XIV Brigada renovava o ataque à posição rodesiana ao norte, desta vez contra a Colina Negra, da Maçaneta e do Moinho. Os Bleheims da RAF tentaram apoiar os defensores, mas sofreram danos e perderam aeronaves com diversos tripulantes mortos e feridos. Às 16:00h, as posições inglesas no Moinho estavam sendo destruídas. Os dois canhões na colina foram destruídos por seus operadores e os defensores abandonaram o Moinho ao escurecer. Os dois últimos canhões restantes somente tinham sete tiros cada.

CONTINUA...

terça-feira, 17 de julho de 2007

A Conquista da Somalilândia Britânica - Parte 1

A Conquista da Somalilândia Britânica

A narrativa de como os italianos expulsaram os ingleses de uma colônia do Império Britânico na África, num dos episódios mais desconhecidos da Segunda Guerra Mundial.

Em seguida à invasão alemã da França em maio de 1940, a Royal Navy, antecipando a entrada da Itália na guerra, despachou o cruzador antiaéreo “Carlisle”, três corvetas e uma divisão de destróieres do Egito para o Mar Vermelho, protegendo aquela passagem para os navios Aliados até que um sistema de comboios pudesse ser organizado.

Em 10 de junho Mussolini declarou guerra, abrindo um novo teatro de operações na AOI (Africa Orientale Italiana) – composta da Eritréia, Abissínia, e Somalilândia Italiana – e as águas adjacentes do Mar Vermelho, Golfo de Aden e Oceano Índico. Neste império colonial os italianos tinham aproximadamente 280 mil tropas com mais 50 mil de reserva. Apesar desse impressionante poderio humano, as forças italianas eram compostas majoritariamente de tropas nativas com equipamento, treinamento e moral defasados. Da mesma forma, a quantidade de velhos aviões da Regia Aeronautica na AOI (aproximadamente 350 aparelhos), era mais impressionante que sua real qualidade, e os navios de guerra italianos baseados no Mar Vermelho (incluindo oito submarinos, sete destróieres, duas escoltas e cinco lanchas torpedeiras), embora fortes em números, sofriam de escassez de combustível e falhas mecânicas. Ainda assim, no papel essa força conjunta representava uma séria ameaça aos pífios recursos Aliados no Sudão, Somalilândia Francesa, Somalilândia Britânica, Quênia, e a vital rota de suprimentos para o Egito, o Canal de Suez, sem falar do Mediterrâneo.

Os generais italianos, no entanto, superestimavam a força de seus inimigos franceses e ingleses. Da perspectiva de Adis Abeba, capital da AOI, as forças italianas estavam cercadas e isoladas de reforços e suprimentos. Particularmente, parecia que os portos de Djibouti na Somalilândia Francesa e Berbera, na vizinha Somalilândia Britânica, ofereciam excelentes pontos de apoio para expedições Aliadas contra Adis Abeba pela rota mais rápida e direta. Portanto os italianos alocaram proporções significativas de suas melhores unidades e escassos suprimentos para desencadear ofensivas contra esses portos, limpar as entraves costeiras e, como bônus, tomar as praias ao longo das rotas mercantes Aliadas.

Preliminares

Em setembro de 1939, as forças na Somalilândia Britânica eram compostas de uma companhia de infantaria de Nyasaland, o Somaliland Camel Corps (parcialmente mecanizado), com cerca de 500 tropas nativas (mais tarde reforçados por 17 oficiais e 20 oficiais não-comissionados provenientes da Rodésia do Sul) sob o comando do Coronel A. R. Charter. Havia também uma pequena força policial. O 1º Batalhão do Regimento da Rodésia do Norte partiu de Mombasa em 11 de maio de 1940 a bordo do navio “Karanja” e chegou à Berbera em 15 de maio, fazendo com que as defesas, quando da declaração de guerra de 10 de junho, somassem 1.500 homens. Estes eram apoiados pelas seguintes aeronaves, baseadas do outro lado do Golfo de Aden, sob o comando do Vice Marechal-do-Ar George Ranald McFarlane Reid:

• 8 Squadron: (Squadron Leader D. S. Radford) bombardeiros Bristol Bleheim I e Vickers Vincent;
• 94 Squadron: (Squadron Leader W. T. F. Wightman) caças Gloster Gladiator;
• 203 Squadron: (Wing Commander J. R. S. Streatfield) caças de longo alcance Bristol Bleheim IV.

O 39 Squadron com Bleheim Is chegou da Índia pouco depois.

No começo de 1939 a França quadruplicara sua guarnição na Somalilândia Francesa. Em junho de 1940, sob o General Le Gentilhomme, havia 7 mil homens em sete batalhões de infantaria senegalesa e somali, três baterias de canhões de campanha, quatro baterias antiaéreas, uma companhia de tanques leves, quatro companhias de milícia, dois pelotões de camelos e uma variedade de aeronaves:

• Quatro Potez 631 (reconhecimento e bombardeio);
• Onze Potez TOE (biplanos de cooperação com o exército);
• Três Morane-Saulnier MS.406 (caças);
• Dois Potez 29 (transporte e ligação).

No dia em que a AOI se tornou um teatro de guerra, as operações aéreas começaram. O
governador (Vice-Rei) da AOI, Duque Amedeo de Aosta, mesmo sendo contra a guerra, decidiu que usaria seus limitados suprimentos da melhor maneira possível, atacando o inimigo. O primeiro raid italiano contra Aden foi feito por três bombardeiros, um dos quais abortou após a decolagem e outro caiu no retorno. Outro ataque foi lançado contra Aden em 12 de junho e os ingleses reagiram com um ataque ao porto de Assab no mesmo dia. Berbera foi atacada pela primeira vez em 14 de junho e ataques esporádicos continuaram a atingir o porto durante junho e julho. No dia seguinte, os primeiros Blehiem Is do 11 Squadron começaram a reforçar Aden vindos de Singapura via Índia. Ao mesmo tempo, forças terrestres italianas começaram a se concentrar para invadir a Somalilândia Francesa.

De acordo com os planos de guerra Aliados, as fracas forças inglesas no Sudão, Quênia e Somalilândia Britânica permaneceriam na defensiva enquanto as relativamente fortes forças francesas em Djibouti lançariam um ataque pela linha férrea contra Adis Abeba, justo como temido pelos italianos. Sendo assim, um batalhão francês seria posicionado na Somalilândia Britânica para proteger o Passo de Jirreh, que oferecia uma porta de acesso a Berbera e Djibouti.

Em 18 de junho os italianos atacaram antes que a ofensiva francesa pudesse começar, mas em dois dias a luta chegou a um impasse e os atacantes recuaram. Em 21 e 22 de junho os italianos lançaram um relativamente grande ataque aéreo contra Djibouti, matando 23 pessoas e perdendo três bombardeiros.

Em Sedan, 22 de junho, um armistício foi assinado entre franceses e alemães. Dois dias depois um documento similar foi assinado também com os italianos. Entre os termos do cessar-fogo estava o uso da ferrovia de Adis Abeba para a Somalilândia Francesa e o acesso livre ao porto de Djibouti.

Uma trégua frágil reinou na fronteira da Somalilândia Francesa do fim de junho até o meio de julho. O General Le Gentilhomme, que apoiava o nascente movimento da França Livre de De Gaulle, recusou-se a permitir a entrada dos italianos na colônia, e seu batalhão continuou a proteger o Passo de Jirreh. Em 23 de julho, um comandante substituto, o General Germain, chegou de Vichy e Le Gentilhomme, incapaz de proteger Djibouti, escapou para a Somalilândia Britânica e foi se juntar à De Gaulle. Também escaparam para território inglês algumas centenas de refugiados abissínios treinados e armados pelos franceses; após cruzarem a fronteira, eles foram desarmados e suas armas destruídas pelos ingleses. Cinco dias após a fuga de Le Gentilhomme, o batalhão francês evacuou o Passo de Jirreh e foi substituído por um pequeno destacamento do Somaliland Camel Corps.

A Somalilândia Francesa foi definitivamente neutralizada, graças aos eventos na Europa, mas a Regia Marina foi mal-sucedida em controlar o Mar Vermelho. Navios da Royal Navy – baseados em Aden e controlados pelo Almirante Ralph Leatham, Comandante em Chefe das Índias Orientais – conseguiu sobrepujar seus oponentes quase instantaneamente, em parte devido a informações de espionagem. Quatro dos oito submarinos italianos foram perdidos em junho, e embora um cargueiro e uma corveta tenham sido afundados, o tráfego marítimo Aliado passou incólume do Mar Vermelho para o Egito. Da mesma forma, somente um navio de suprimentos chegou à Somalilândia Italiana durante a campanha – um cargueiro japonês com pneus (depois provados inadequados) e combustível (que não pôde ser desembarcado e posteriormente teve de ser queimado para evitar captura). O domínio inglês dos mares também permitiu um acréscimo de suas forças terrestres no “Chifre da África” e teve grande significado durante a campanha na Somalilândia Britânica.

Em 27 de julho o Comando Supremo Italiano marcou para 3 de agosto a data para a invasão da Somalilândia Britânica.

Planos e Preparações

O 3º Batalhão do 15º Regimento Punjab (indiano) zarpou de Aden para Berbera em 1 de julho de 1940 e no mesmo dia o 2º Batalhão “Black Watch” começou a deixar o Egito para Aden. A 1ª Bateria Leve da África Oriental com quatro canhões de 3,7 polegadas, formada no Quênia no início da guerra, chegou à Berbera em 10 de julho. No começo de agosto o Brigadeiro Arthur Chater, comandante das defesas da colônia, também tinha à sua disposição o 2º Batalhão do King’s African Rifles e o 1º Batalhão do 2º Regimento Punjab.

Com quatro batalhões, o Camel Corps, e quatro canhões, a longa fronteira com a AOI se provava impossível de defender. O porto de Berbera era de extrema importância, mas não oferecia terreno para a defesa de um perímetro. A “linha de defesa” de Chater tomaria proveito do montanhoso terreno da Somalilândia: inacessível para transporte mecanizado, paralelo à costa e cerca de 80 quilômetros continente adentro. Colunas inimigas avançando na direção de Berbera teriam três opções:

• Cruzar o Passo de Jirreh ao norte, avançar por Zeila (na costa), e então virar para o sul por uma trilha até Berbera;
• Seguir a estrada principal de Hargeisa através do Passo em Tug Argan até Berbera;
• Avançar para Burao no sul e então sobre o Passo de Sheikh na trilha do sul até Berbera.

O 3º/15º Punjab foi inicialmente posto como reserva em Berbera. No norte, um destacamento do Camel Corps e um pequeno número de Punjabis guardavam o Passo de Jirreh e a rota para Zeila, no litoral. No sul, o 1º/2º Punjab guardava o Passo de Sheikh na trilha de Burao para Berbera. No centro, Chater dispôs a infantaria da Rodésia do Norte e o King’s African Rifles em Tug Argan, na principal estrada para Berbera, e uma companhia de Rodésios e o Camel Corps protegendo uma posição fortificada em Hargeisa. O restante do Camel Corps, a polícia, e várias unidades irregulares patrulhavam as passagens de fronteira.

Generale Guglielmo Nasi, Comandante do Setor Leste da AOI, embora dispondo de recursos consideravelmente maiores que seu inimigo, se preocupava com os batalhões de Chater e superestimava as forças britânicas. Ele também inflava os armamentos inimigos, estimando cerca de 24 peças de artilharia de campo, 8 canhões antitanque e quase 50 peças antiaéreas e armas automáticas. Após estudar o terreno e as disposições das forças inimigas, Nasi dividiu suas unidades em três colunas principais e uma reserva:

• No norte, a coluna da “esquerda”, comandada pelo Generale Bertoldi tinha o Passo de Jirreh e Zeila como seus objetivos. Esta coluna incluía oito batalhões de infantaria (dos quais dois eram CCNN “Camisas Negras” coloniais e um de metralhadoras da divisão “Granatieri di Savoia”) e quatro baterias de artilharia organizados na LXX e XVII Brigadas Coloniais;
• Também no norte, mas sob comando separado, estava a coluna “exploratória” do Generale Passerone com dois batalhões de infantaria e uma sessão de artilharia. Após a captura de Zeila, esta coluna deveria seguir a costa em direção à Berbera;
• No sul, a coluna da “direita” do Generale Bertello deveria marchar para Odweina, continuar até Burao, forçar o Passo de Sheikh e seguir até Berbera. Esta coluna incluía um batalhão, dois grupos irregulares “Dubat” e uma bateria de artilharia;
• Como o Brigadeiro Chater, Nasi dispôs o grosso de suas forças para tomar proveito da estrada principal para Hargeisa, Tug Argan e Berbera. Para tal, ele concentrou na coluna do “centro” comandada pelo Generale Carlo De Simone a reforçada Divisione “Harar” com as XIII Brigada Colonial (Generale Nam), XIV Brigada Colonial (Generale Tosti) e XV Brigada Colonial (Colonello Graziosi), totalizando 11 batalhões de infantaria, 14 baterias de artilharia, meia companhia de tanques médios M-11/39, um esquadrão de tanques leves L-3/35 e alguns carros blindados;
• Na reserva atrás da coluna central estava a II Brigada Colonial do Colonello Lorenzini com quatro batalhões de infantaria e duas baterias de artilharia.

As forças atacantes totalizavam 26 batalhões de infantaria e 21 baterias de artilharia, totalizando
cerca de 30 mil tropas nativas e 4.800 italianos.

Para apoiar a ofensiva, a Regia Aeronautica concentrou seu poder em pistas perto de Diredawa para missões de apoio terrestre, interditando a estrada principal para Berbera e o porto da cidade, assim como destruindo os aeródromos avançados da RAF em Berbera e Laferug, atrás de Tug Argan.

Em 3 de agosto de 1940 os italianos cruzaram a fronteira da Somalilândia Britânica.

CONTINUA...

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Nota de Falecimento: Josef Dörries

Josef Dörries
(07/06/1923 - 09/07/2007)

Faleceu no último dia 9 de julho em Adlkofen, Bavária, aos 84 anos, o ganhador da Cruz do Cavaleiro e veterano do Afrika Korps Josef Dörries.

Dörries nasceu em Saarwellingen, e em 1941 voluntariou-se para o Exército Alemão aos 18 anos. Foi destacado para uma companhia de metralhadoras do 87º Regimento de Infantaria. Em julho de 1942, foi transferido para o 115º Regimento, e embarcado para a África. Participou do avanço Egito adentro e foi ferido na Batalha de El Alamein. Após passar por diversos hospitais, retorna ao 87º Regimento e é enviado à Rússia.

Em março de 1944, Dörries segurou bravamente as posições de sua unidade em combate pesado próximo à Berezina, conseguindo deter um possível cerco russo e destruindo tanques em combate corporal. Por essas atitudes de bravura, em 5 de abril de 1944 ele foi condecorado com a Cruz do Cavaleiro, recebendo também uma promoção a oficial não-comissionado.

Depois da guerra Josef Dörries serviu na polícia bávara de 1947 a 1956, voltando ao Exército naquele ano e se aposentando em 1975. Desfrutou de uma aposentadoria tranqüila no sul da Alemanha até seu falecimento. Deixa esposa e três filhos.

domingo, 15 de julho de 2007

Job Odebrecht

Job Odebrecht
General der Flakartillerie
(1892 - 1982)

Job Wilhelm Odebrecht foi um oficial de carreira no mínimo espantosa. Passou por todos os ramos das forças armadas alemãs, começando na Marinha, passando pelo Exército e Polícia, coroando sua vida militar na Luftwaffe. Nascido em Koblenz, na Renânia, região do sudoeste da Alemanha, em 25 de fevereiro de 1892, Odebrecht freqüentou o treinamento básico na Escola Naval de Mürwik e foi posto como Seekadett a bordo do navio-escola Hertha em 19 de maio de 1909. Em 1 de abril de 1910 voltou para Mürwik para completar o treinamento de infantaria, torpedos e artilharia naval, sendo promovido a Leutnant zur See em 19 de setembro de 1912. O jovem oficial Odebrecht foi então enviado à África Oriental Alemã em 29 de abril de 1913, servindo como observador no navio Möwe.

Quando a guerra estourou na Europa em 1914, as forças alemãs na África Oriental se viram em má situação. Isoladas de suas outras colônias e da metrópole, enfrentavam os belgas no Congo. Sob a liderança geral de Paul von Lettow-Vorbeck, Odebrecht passou a comandar uma unidade de vigilância equivalente a uma companhia. Em 1 de novembro de 1915, os alemães conseguiram colocar em funcionamento dois pequenos vapores, armando-os com canhões retirados do SMS Königsberg, e Odebrecht recebeu o comando de um deles, o Hedwig von Wissmann.

Como comandante do pequeno barco de guerra, Odebrecht com freqüência conduzia patrulhas desembarcando no lado belga do Lago Tanganica. Disfarçado de africano, ele desafiava as linhas inimigas, obtendo dados de inteligência e escapando sem ser percebido. Em 9 de fevereiro de 1916, o Hedwig von Wissmann envolveu-se num combate fluvial com duas canhoneiras inglesas, Fifi e Mimi. Por um fenômeno atmosférico bizarro, as imagens dos barcos foram projetadas em lugares adversos, resultando em trocas de tiros entre os britânicos. Após sofrerem diversas avarias por fogo amigo mútuo, os britânicos conseguiram um tiro certeiro no barco alemão, matando alguns tripulantes e forçando o restante a abandoná-lo. Os sobreviventes foram recolhidos da água e Odebrecht foi convidado pelos ingleses para o jantar. Poucos dias depois foi entregue aos belgas.

Transferido para a Bélgica, Odebrecht permaneceu em cativeiro até 4 de julho de 1919, quando conseguiu fugir para a Suíça. Lá, permaneceu oculto por quatro dias, até ser encontrado e posteriormente entregue à Alemanha em 22 de setembro. Odebrecht foi dispensado da Marinha em 29 de janeiro de 1920. Ele entrou temporariamente no Exército, onde serviu novamente sob as ordens de Lettow-Vorbeck na 9ª Brigada do Reichswehr, sendo dispensado em 30 de setembro de 1920.

Em seguida, ele entrou para a Polícia (Polizei), onde foi promovido a Hauptmann em 20 de
novembro. Na força policial, Odebrecht galgou diversos postos durante os anos 20 e início dos 30, exercendo funções no Departamento de Criminalística, Inspetoria-Geral de Berlim e instrutor na Escola Policial de Sensburg. Ele foi finalmente destacado para o Batalhão de Flak (defesa antiaérea) de Brandenburgo em 4 de julho de 1935.

Com a oficialização da Luftwaffe naquele ano, Odebrecht foi transferido para suas fileiras em 1 de agosto, com a patente de Major. Foi promovido a Oberstleutnant um mês depois. Ele passou a comandar um batalhão antiaéreo em Königsberg, onde permaneceu por dois anos. Em 1 de outubro de 1937 ele recebeu o comando do 37º Regimento de Flak em Münster e foi promovido a Oberst. A promoção para Generalmajor veio em 1 de junho de 1939, enquanto Odebrecht comandava o 8º Regimento de Flak em Viena.

Quando a Segunda Guerra estourou em setembro de 1939, Odebrecht estava à frente do 5º Comando de Defesa Aérea (Luftverteidigungs-Kommando) em Frankfurt, onde permaneceu até outubro de 1940, quando recebeu o 6º Comando de Defesa Aérea em Hannover. Em 1 de junho de 1941 ele foi promovido a Generalleutnant e três meses depois, o 6º Comando foi transformado na 6ª Divisão de Flak, com responsabilidade de defesa da Holanda, Bélgica e norte da França. Odebrecht continuou no comando, com seu QG em Bruxelas. Em abril de 1942, a 6ª Divisão de Flak foi enviada para apoiar o Grupo de Exércitos Norte, na URSS.

Após a contra-ofensiva russa no inverno 1941-42, o exército precisava desesperadamente de recompletamentos. Uma das soluções foi criar divisões de infantaria com pessoal da Luftwaffe, mas Hermann Goering resistia em entregá-las ao comando do Exército. Sendo assim, a primeira destas, a “Divisão Meindl” foi posta em ação no front sob o comando de Job Odebrecht em outubro de 1942. No dia 20 daquele mês, ele foi condecorado com a Cruz Alemã em Ouro, e em 16 de novembro, foi nomeado para o comando do recém-criado III Luftwaffe Feldkorps. A promoção para General der Flakartillerie veio em 1 de dezembro de 1942.

Em 15 de novembro de 1943, Odebrecht assume o comando do II Flak Korps, unidade que conduz com habilidade durante o recuo diante as ofensivas russas de 1944. Por essa prova de competência, em 5 de setembro daquele ano, Odebrecht foi condecorado com a Cruz do Cavaleiro da Cruz de Ferro. Nada, no entanto, podia parar a avalanche vermelha que avançava para a Alemanha, e o II Flak Korps fez sua última defesa no rio Oder, em apoio ao 9º Exército Alemão.

Odebrecht se rendeu aos Aliados em 8 de maio de 1945, sendo rapidamente libertado, já em 1 de abril de 1946. Viveu uma aposentadoria tranqüila na cidade de Bad Homburg, região de Hesse, no sudoeste alemão. Dono de uma singular carreira militar, Job Odebrecht viveu até os 90 anos de idade, vindo a falecer em 20 de novembro de 1982.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Vídeo: Hitler visita a Finlândia

Encontrei um noticário alemão de 1942, mostrando todo o traçado da visita que Hitler fez à Mannerheim no aniversário de 75 anos do Marechal. Inicia-se com o Führer deixando o QG de Fedor von Bock, sua viagem no Kondor, a inspeção da guarda finlandesa e o (demorado) aperto de mãos com Mannerheim. Tudo com legendas em inglês:


quarta-feira, 11 de julho de 2007

Eino Ilmari Juutilainen

Eino Ilmari Juutilainen
Oficial Especialista
(1914 - 1999)

Eino Ilmari “Illu” Juutilainen nasceu em Lieksa, no leste da Finlândia (então ainda parte da Rússia) em 21 de fevereiro de 1914. Em 1935 ele se alistou na Força Aérea, e em 1 de maio de 1937 foi designado para a Estação Aérea Nº 5 como Sargento piloto de reconhecimento. Ele subseqüentemente recebeu treinamento para os caças e foi alocado no 3º vôo do LeLv (Lentolaivue) 24, que estava equipado com o Fokker D.XXI, em 3 de março de 1939.

Depois de meses de tensões crescentes entre URSS e Finlândia, em 30 de novembro de 1939 irrompeu a Guerra de Inverno, com os exércitos russos invadindo o Istmo da Karélia, no sudeste finlandês. Em seus primeiro combate, em 19 de dezembro, “Illu” Juutilainen derrubou um bombardeiro Tupolev SB2. No último dia do ano, enquanto voava o Fokker de matrícula FR-106, ele obteve uma vitória sobre um Polikarpov I-16 e recebeu uma promoção, sendo que 25 dias depois foi novamente promovido, desta vez ao grau de Sargento Mestre. Durante a Guerra de Inverno ele voou 115 missões. Juutilainen recebeu sua última promoção, a Oficial Especialista, em 1 de março de 1941.

Com o ataque alemão à União Soviética, em que os finlandeses permitiram que os alemães atravessassem seu território para montar a ofensiva ártica, os russos resolveram bombardear Helsinque em represália. Sendo assim, a Guerra de Continuação começou em 25 de junho de 1941, e encontrou Juutilainen no comando de um Brewster Buffalo (matrícula BW-364) junto ao 3/LeLv 24. Em seu primeiro combate nessa nova guerra, em 9 de julho, ele conseguiu derrubar dois biplanos Polikarpov I-15, sendo que em 12 de agosto ele conseguiu sua primeira vitória “tripla” levando ao chão três I-153 durante uma única missão. Ele conseguiu outra “tripla” em 26 de setembro. Em 26 de abril de 1942, Illu se tornou o 56º soldado a ser condecorado com a Cruz de Mannerheim 2ª Classe, por suas 20 vitórias aéreas. Em 18 de agosto daquele ano ele conseguiu sua terceira “tripla”. Na época em que ele foi designado para o 1/LeLv 34, em 8 de fevereiro de 1943, seu total de vitórias somava 36 abates, todas menos duas sendo conseguidas à bordo de um Brewster ao longo de 181 missões.

Em sua nova unidade, Juutilainen inicialmente recebeu o Messerschmitt Me 109G-2 matrícula
MT-212 (embora esta aeronave tenha sido perdida quando o Oficial Especialista Oiva Tuominen fez um pouso forçado após derrubar um Petlyakov Pe-2 em 2 de junho de 1943). Illu em seguida recebeu o Me 109 MT-222 como substituto, e conseguiu outra vitória “tripla” três dias depois. Voando o MT-217, em 10 de julho outras três vitórias entraram para a contagem do maior ás da Força Aérea Finlandesa. Em 27 de outubro Juutilainen derrubou três Lavochkin La-5, enquanto em 6 de março de 1944 caíram mais dois bombardeiros Pe-2 e um caça Yakovlev Yak-9.

Em 30 de maio de 1944 Juutilainen recebeu um novo Messerschmitt, o MT-426, e dez dias depois novamente derrubou mais três aeronaves numa única surtida, mais um Ilyushin Il-2 em outra missão naquele mesmo dia. Em 20 de julho Illu derrubou mais cinco aeronaves em três missões, e no dia 26 do mesmo mês mais três soviéticos foram ao chão. Por conseguir o total de 75 vitórias, em 28 de julho Juutilainen foi condecorado pela segunda vez com a Cruz de Mannerheim 2ª Classe. Illu foi pioneiro em receber a comenda pela segunda vez, juntamente com o segundo maior ás da Finlândia: Capitão Hans Wind. Somente mais dois soldados receberiam a Cruz de Mannerheim pela segunda vez, sendo eles o Major-General Aaro Olavi Pajari e o Coronel Martti Johannes Aho.

Em 30 de junho, voando o MT-457, Juutilainen igualou o recorde de Jorma Sarvanto derrubando seis aeronaves numa mesma missão, sendo elas dois Yakovlev Yak-9, dois Bell P-39, um Lavochkin La-5 e um Ilyushin Il-2. No dia seguinte ele derrubou três aeronaves em duas missões e repetiu o feito em 5 de julho numa única missão. Por diversas vezes Illu rejeitou a promoção a oficial comissionado, temendo ser proibido de voar.

Sob pesado ataque da URSS, a Finlândia procurou a paz em separado, assinando um armistício em 4 de setembro de 1944. Apenas 24 horas antes Juutilainen conseguira sua última vitória, um transportador Lisunov Li-2 (cópia soviética do Douglas C-47), elevando seu total a 94 vitórias em 437 missões – a mais alta pontuação não-alemã conseguida na Europa (devido à disputa das reais pontuações de ases japoneses como Nishizawa, Sugita e Iwamoto, muitas vezes Juutilainen é considerado o maior ás não-alemão da história). Illu terminou os combates sem nunca ter perdido um ala, e o mais extraordinário: sem nunca ter sido atingido por projéteis de aeronaves inimigas.

Em 16 de maio de 1947 Juutilainen pediu dispensa da Força Aérea e recebeu pensão completa. Ele comprou um De Havilland Tiger Moth e se tornou atração freqüente em diversos shows aéreos, até sua aposentadoria uma década depois. Em 1997, o velho ás voou pela última vez a bordo de um Boeing F/A-18 Hornet da Força Aérea Finlandesa. Eino Ilmari Juutilainen faleceu no dia de seu 87º aniversário, em 21 de fevereiro de 1999.


Fokker D.XXI de "Illu" Juutilainen (3/LeLv 24). Finlândia, março de 1940.

terça-feira, 10 de julho de 2007

"Chefe" Nimitz


Essa curiosa foto foi tirada em 16 de outubro de 1947. No evento, o Chefe Indígena Fred Ettawagaski concede ao Almirante de Esquadra Chester Nimitz o título de "Chefe Honorário" da Fundação Indígena Ottawa de Michigan. O nome indígena de Nimitz é "Be-lea-nage", que quer dizer "O Vencedor". Após receber o cocar, o Almirante fez uma saudação de guerra indígena.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Chester Nimitz

Chester Nimitz
Almirante de Esquadra
(1885 - 1966)

Chester William Nimitz nasceu em Fredericksburg, Texas, em 24 de fevereiro de 1885. Após sua primeira tentativa de entrar em West Point, Nimitz decidiu ingressar na Academia Naval quando tinha 15 anos, graduando-se em 1905. Ele começou sua carreira naval de forma pouco promissora, sofrendo de enjôo em sua primeira viagem. Ele também conseguiu encalhar seu segundo comando, o destróier Decatur, e recebeu uma reprimenda oficial por isso. Ainda assim, durante a Primeira Guerra Mundial, Nimitz já havia ascendido ao posto de chefe de estado-maior do comandante da divisão de submarinos da Esquadra do Atlântico. No período entre-guerras, Nimitz graduou-se na Academia de Guerra Naval, serviu num grande número de naus-capitais e lecionou ciência naval na Universidade da Califórnia. O ataque japonês a Pearl Harbor o encontrou no comando do Departamento de Navegação.

O então Contra-Almirante Nimitz foi seriamente considerado em 1940 para o comando da Esquadra do Pacífico. Sendo assim, quando o governo Roosevelt decidiu fazer do Almirante Husband Kimmel o bode expiatório do ataque surpresa, a escolha para substituí-lo naturalmente recaiu sobre Nimitz. Ele chegou a Pearl Harbor no dia de Natal de 1941, e enquanto inspecionava o porto, ele pôde ver pequenos barcos coletando corpos que subiam à superfície desprendendo-se dos navios destroçados no fundo. Por ato do Congresso, Nimitz saltou a patente de Vice-Almirante e foi promovido diretamente para Almirante (4 estrelas).

O Comandante-em-Chefe da Esquadra do Pacífico era responsável por uma imensa área. Em violação ao princípio de unidade de comando, o Pacífico foi dividido em dois teatros. Douglas MacArthur foi designado comandante do Sul do Pacífico, que abrangia a Austrália, Filipinas, Ilhas Salomão, Nova Guiné, Arquipélago de Bismark, Bornéo, e todas as Índias Orientais Holandesas, exceto Sumatra. Nimitz comandava tudo mais no Pacífico, exceto as águas costeiras das Américas Central e do Sul. Essa vasta área recebeu a designação de Área Oceânica do Pacífico. Além disso, Nimitz retinha o comando da Esquadra.

O Almirante Nimitz enfrentou o desafio de reconstruir sua desmoralizada esquadra e proteger os interesses americanos no Pacífico com grande habilidade. O braço aéreo da esquadra, assim como a força submarina, permaneceram intactos após Pearl Harbor. Para restaurar o moral e manter os japoneses sob ataque, Nimitz ordenou guerra submarina irrestrita contra o Japão. Ele também reorganizou a frota de superfície em forças-tarefa centradas em porta-aviões rápidos. Com o apoio do Almirante King, ele começou o planejamento de ações ofensivas envolvendo ataques de navios-aeródromos. Nessa altura, a maioria dos comandantes navais acreditava que era muito arriscado para porta-aviões atacar bases terrestres pesadamente defendidas. O alto-comandante dos porta-aviões, William Halsey, apoiou Nimitz e ofereceu-se para liderar os primeiros ataques. Os ataques subseqüentes pouco conseguiram em termos estratégicos, mas foram importantes em elevar o moral, obter experiência e desenvolver táticas.

Baseando-se em relatórios da inteligência, Nimitz empregou seus escassos porta-aviões para
interceptar os japoneses na Batalha do Mar de Coral em maio de 1942. Antes da batalha, ele secretamente observou que “devido à superioridade de nosso pessoal e equipamento” os Estados Unidos poderiam arriscar-se a lutar contra os japoneses ainda que enfrentando condições desfavoráveis. Essa visão se provou por demais sangrenta. Ainda assim, o empate obtido na batalha foi uma brilhante vitória da propaganda e marcou o primeiro bloqueio no expansionismo japonês.

Os bem-treinados times de inteligência de Nimitz previram outro ataque japonês contra a Ilha de Midway. Ele estava decidido a parar esse ataque, mas a Esquadra estava em terrível falta de porta-aviões. Quando o duramente danificado Yorktown chegou a Pearl Harbor em 22 de maio, Nimitz e seu time de técnicos especialistas foram à doca seca para inspecionar a embarcação. A melhor estimativa apresentada para o conserto era de 90 dias. Nimitz simplesmente retrucou: “Quero esse navio pronto em três dias.” Na manhã do dia 29, o Yorktown zarpou para juntar-se às forças que interceptaram os japoneses na decisiva Batalha de Midway.

Nimitz supervisionou a campanha das Ilhas Salomão no fim de 1942 e início de 1943. Após isso, um rápido crescimento da força naval americana permitiu a realização de ofensivas em escala muito maior. Nimitz aprovou a estratégia de “salto pelas ilhas” que deixava para trás muitas fortalezas japonesas, forçando-as a definhar durante o inexorável avanço até o próprio Japão. Através de toda a guerra, Nimitz continuou com sua agressiva liderança, como ilustrado pelo ataque através do Pacífico Central. Enquanto a batalha pelas Ilhas Gilbert acontecia, os estrategistas americanos consideravam o próximo passo: a invasão das Ilhas Marschall. O planejador-chefe de Nimitz sugeriu um audacioso estratagema: um ataque contra o Atol de Kwajalein, no centro da cadeia de ilhas. Ele concordou. Citando os aparentemente enormes riscos, o General Holland Smith e os Almirantes Kelly Turner e Raymond Spruance discordaram veementemente. Após a acalorada reunião de 14 de dezembro de 1943, Nimitz confrontou seus subordinados. Todos disseram que Kwajalein seria um desastre. Dirigindo seus comentários a Turner, ele respondeu: “Será desse jeito. Se vocês não querem fazê-lo, o Departamento achará alguém que queira.” A discussão acabou ali.

A bem-sucedida captura das Ilhas Gilbert e Marschall demonstrou como operações com porta-aviões rápidos podem apoiar operações de desembarque em movimentos de larga escala. Nimitz então voltou sua atenção ao ataque às Marianas para conseguir uma base de bombardeiros, que atacariam o Japão. Palau e as Filipinas se seguiram. Nimitz era favorável ao abandono das Filipinas em favor da invasão de Taiwan, mas a influência política de MacArthur, que prometera “voltar” quando fugiu em 1942, persuadiu Roosevelt a contrariar seu plano e ordenar a invasão das Filipinas. Em 19 de dezembro de 1944, Nimitz foi promovido a Almirante de Esquadra, patente equivalente à de MacArthur. Os dois líderes haviam cooperado no passado e continuaram a cooperar até o fim da guerra.

Nimitz terminou a guerra como um comandante bastante popular e respeitado. Ele sucedeu o Almirante Ernest King como Chefe de Operações Navais por um período de dois anos que terminou com sua aposentadoria em 15 de dezembro de 1947. Durante o Julgamento de Nuremberg, Nimitz foi em defesa do Almirante Karl Doenitz, advogando seu apoio à prática de guerra submarina irrestrita, admitindo também ter feito uso dela. É creditado a esse testemunho o fato de Doenitz somente ter sido sentenciado a dez anos de prisão.

Após sofrer um ataque cardíaco seguido de pneumonia em fins de 1965, Chester Nimitz faleceu em San Francisco, no dia 20 de fevereiro de 1966, aos 80 anos. Ele é hoje homenageado pela a classe de super porta-aviões nucleares norte-americanos, que leva seu nome.

domingo, 8 de julho de 2007

Filmes: El Alamein

El Alamein (El Alamein - La Linea Del Fuoco) Itália, 2002 - 117 min.

Direção:
Enzo Monteleone

Roteiro: Enzo Monteleone
Elenco: Paolo Briguglia, Pierfrancesco Favino, Emilio Solfrizzi, Thomas Trabacchi, Luciano Scarpa, Silvio Orlando, Roberto Citran

por Júlio César Guedes Antunes

Nos anos recentes tivemos a oportunidade de observar um certo “renascimento” do cinema histórico em países pelo mundo todo. Isso foi movido em certa dose pelo amadurecimento psicológico em relação ao tema tratado, bem como para realizar uma correção de inverdades históricas. Encaixa-se muito bem nessa definição a produção italiana El Alamein – La Linea Del Fuoco (Itália, 2002). Lançada no aniversário de 60 anos da batalha, e realizada com pequeno orçamento e recursos governamentais, a produção é um exemplo de que se pode fazer muito com pouco.

O erro a ser abordado aqui é o velho chavão que reza a covardia dos soldados italianos diante dos ingleses. Pura conversa fiada. A Batalha de El Alamein, assim como toda a campanha do Eixo no deserto africano, teve participação primordial dos italianos, bem mais numerosos que seus aliados alemães. E o desfecho dessa batalha só não foi mais desastroso por causa da feroz resistência italiana. Infelizmente, pela propaganda inglesa e o desprezo dos nazistas, essa verdade ficou escondida dos livros de história e das telas de cinema por seis décadas. El Alamein é o primeiro filme italiano a mostrar seus soldados como realmente eram; como viam e lutaram naquele horrível cenário.

O filme é visto pela perspectiva do Soldado Serra (Paolo Briguglia), um voluntário universitário de Palermo, que se alista para a África e é designado para a 17ª Divisão de Infantaria “Pavia”, parte do X Corpo d’Armata (Corpo de Exército), que estava posicionado no extremo sul da linha de frente, próximo à depressão de El-Qattara. Serra chega e se apresenta ao oficial em comando, o Tenente Fiore (Emilio Solfrizzi), que o envia para o pelotão do Sargento Rizzo (Pierfrancesco Favino). A chegada de Serra é um retrato das péssimas condições de logística e suprimento do Exército Italiano na frente: Fiore pede por dez novos recrutas, mas somente um é enviado.

Já nesse começo, o espectador passa a compartilhar da vida daqueles soldados, ao ouvir o relato de que muitos dos homens ali estão na África há mais de dois anos, já tendo ganhado o repatriamento, mas permanecendo por falta de meios para voltar à Itália. Outro aspecto interessante é a crônica falta de água, sendo que Serra chega ao posto de comando com um galão de dois litros de “água boa” e é aconselhado a não deixar que lhe roubem-na.

Ao encontrar-se com Rizzo, Serra é apresentado aos seus únicos soldados restantes, o Cabo De
Vita (Thomas Trabacchi) e o Soldado Spagna (Luciano Scarpa), retratos perfeitos de combatentes de longa data, experimentados e apáticos às esperanças de vitória espalhadas pela propaganda italiana da época. Lá se vive dia após dia, é apenas uma espera infinita por um inimigo que não se consegue ver, sob um clima extremamente hostil e sem suprimentos adequados. Os soldados se atêm a uma estranha regra de “três milagres”: um homem teria direito a três milagres para salvar sua vida, após usar os três, estaria contando somente com a sorte para permanecer vivo.

O diretor Enzo Monteleone demonstra competência com um elenco muito bem escolhido: o jovem Briguglia realmente transparece ingenuidade em personagem, enquanto Solfrizzi e Favino demonstram força e experiência em seus papéis de líderes. Favino é considerado por muitos o melhor ator italiano da atualidade, e poderá ser visto no próximo ano na continuação da obra de C. S. Lewis As Crônicas de Nárnia – O Príncipe Caspian, no papel de Lord Glozelle. Não há aqui, no entanto, soldados “caubóis” como nos filmes de John Wayne. Fiore é um oficial preocupado com o bem-estar de seus homens e admirado por eles, enquanto Rizzo age como líder inabalável ante o dever, mas tem lágrimas nos olhos ao se despedir de um amigo mortalmente ferido. Os diálogos também são muito bem confeccionados, pois situam o espectador na realidade e no tempo; sabe-se, por exemplo, que enquanto os soldados do Eixo estão a 1.000 km de suas bases de abastecimento e só recebem parca comida, os ingleses estão próximos de seus quartéis em Alexandria e Cairo, trocam de turno a cada 15 dias para descanso e recebem uma variedade de alimentos de qualidade.

A incoerência da guerra é mostrada quando um comboio de caminhões de transporte se desvia da rota correta e acaba chegando às posições da “Pavia”. Há muito sem receber nada, Fiore se surpreende ao ver que um dos caminhões está carregado com latas de polimento para sapatos, que seriam usadas na “parada da vitória em Alexandria”. O mais surpreendente, porém, é o conteúdo do outro caminhão: o cavalo puro-sangue de Mussolini, que o mesmo usaria para desfilar na parada. Fiore ordena que o cavalo seja desembarcado para que sirva de alimento para suas tropas famintas, mas ao apontar sua arma para o animal, declina da idéia.

Temos aqui um eficiente uso de efeitos visuais, tanto nas cenas de batalha quanto na retratação da imensa coluna de soldados retirada. A computação gráfica é sutil, e essa qualidade gratifica o espectador com um ambiente agradável e crível. Mesmo com o baixo orçamento, os combates se saem bem em tela. A barragem de artilharia inglesa antes do avanço dos tanques confere com a realidade histórica. Mesmo os veículos blindados nada aparentam de falsos, como no caso dos velhos filmes com “Shermans alemães”. Aliás, o realismo do equipamento usado em cena é um dos pontos altos de El Alamein. Os uniformes têm as patentes e camuflagens corretas, e as armas, caminhões, carros também estão muito bem caracterizados. Destaques para a Moto Guzzi usada pelos Bersaglieri e o carro de comando Fiat 508C, belíssimo.

Após a batalha, dá-se início à retirada. Sem veículos de qualquer sorte, Fiore lidera seus homens numa marcha a pé até um posto na retaguarda, através do deserto impávido. Por eles passa uma coluna de veículos alemães que, apesar das súplicas, não pára para resgatá-los. Um dos alemães até mesmo zomba deles, gritando “Italianos, vão morrer aqui!” Outra cena interessante é a que aparece personagem do General (Silvio Orlando), onde este cava uma sepultura para seu ordenança, recentemente morto. Fiore oferece ajuda, mas o General recusa. Quando lhe é perguntado seu nome, o General simplesmente diz: “Isso não importa mais.” Após completar o sepultamento, o General se suicida. Uma coisa interessante que notei foi a patente do personagem. As três estrelas em seu ombro indicam Generale d’Armata, mas não consegui averiguar nenhum general dessa patente que houvesse falecido na batalha ou imediatamente após. O personagem é então meramente ficcional.

A conclusão do filme é bastante tocante, mas sem apelar para o sensacionalismo barato. Não há
nada forçado para levar o espectador a se identificar com a dor dos personagens, o sentimento simplesmente surge ao decorrer da narrativa. El Alamein é um bom começo para tentar-se mudar uma injustiça histórica de grande magnitude. O filme foi muito bem recebido pela crítica e nas bilheterias na Itália, e ganhou três prêmios David di Donatello, considerado o “Oscar italiano”.

Ainda não lançado no Brasil, El Alamein permanece um testemunho único ao valor do soldado italiano na Segunda Guerra Mundial. O filme transmite uma mensagem simples, de que a estratégia geral prejudicou o soldado no front. É como o que está escrito no cemitério italiano de El Alamein: “Mancò la fortuna, non il valore” (“Faltou sorte, não coragem”).

Trailer

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Julius Ringel

Julius Ringel
General der Gebirgstruppe
(1889 - 1967)

Julius Ringel nasceu em Völkermarkt, na montanhosa região de Kärnten, Áustria, em 16 de novembro de 1889. Tornou-se oficial cadete no Exército Imperial Austro-Húngaro em agosto de 1909, e foi comissionado Leutnant em novembro de 1910. Apenas alguns dias antes da irrupção da Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914, ele foi promovido a Oberleutnant, e a promoção a Hauptmann veio em 8 de julho de 1917.

Após ser condecorado por serviço em combate com o Tiroler Kaiser-Jäger durante a guerra, Ringel ascendeu gradualmente às altas patentes no Exército Austríaco do pós-guerra, chegando a Major em 15 de maio de 1921 e Oberstleutnant em 15 de dezembro de 1932. Dois anos depois ele foi apontado chefe de estado-maior da 5ª (Gebirgs) Brigada de Montanha. Ringel foi um oficial extremamente condecorado, inclusive recebendo da Bulgária a Cruz da Ordem de São Alexandre com Espadas, no grau de Grande Oficial. Após o “Anschluss”, a anexação da Áustria pela Alemanha, ele teve sua patente confirmada pela Wehrmacht em 1938, e foi designado para a chefia de estado-maior da 3ª Divisão de Montanha.

Em setembro de 1939 foi transferido das tropas de montanha para a infantaria de linha, quando foi promovido a Oberst e recebeu a chefia de estado-maior da 268ª Divisão de Infantaria Bávara. Um mês depois recebeu seu próprio comando, o 266º Regimento de Infantaria. Em abril de 1940 ele retornou às tropas de montanha, juntando-se à recém-formada 5ª Divisão de Montanha em Salzburg. Ao contrário de Ringel, a grande maioria dos soldados era, de fato, bávara. Em 1 de novembro ele foi promovido a Generalmajor e recebeu o comando da divisão.

Após intensivo treinamento nos Alpes Bávaros, onde se tornou parte do 2º Exército na defesa territorial alemã, em março de 1941 a divisão foi transferida para os Bálcãs. Lá, teve papel importante na ruptura das defesas gregas da Linha Metaxas, após quatro dias de luta intensiva e repulsão de numerosos contra-ataques. Logo após, os homens de Ringel foram designados para uma das jogadas mais arriscadas da guerra: a invasão da ilha de Creta.

Uma vez mais as tropas de montanha de Ringel participaram de forma insubstituível, vindo em
auxílio dos já cambaleantes pára-quedistas durante a luta pelo aeródromo de Maleme, o ponto de virada de toda a batalha. Muitos dos soldados montanheses foram mortos quando um comboio de barcos de pesca que os levava à Creta foi interceptado pela Royal Navy. Um desembarque posterior, sob fogo cerrado, em aeronaves de transporte Ju 52 no aeródromo de Maleme foi bem-sucedido, seguindo-se a perseguição das forças britânicas pelos Fallschirmjäger e Gebirgsjäger ao longo de toda a ilha, com os inimigos restantes se rendendo em 31 de maio de 1941. Em 13 de junho Ringel foi condecorado com a Cruz do Cavaleiro, e se tornou comandante militar provisório de Creta. Nessa época, também, ele ganhou das tropas o apelido de “Papa”, nome concedido somente aos comandantes mais adorados pelos soldados.

Após um descanso como tropas de ocupação na Noruega de setembro de 1941 a janeiro de 1942, Ringel e seus homens foram enviados ao front leste, para ajudar a conter a contra-ofensiva soviética de inverno. A divisão foi anexada ao 18º Exército, no Grupo de Exércitos Norte, entre o Lago Ladoga e Novgorod, no setor de Leningrado. As tropas de Ringel tomaram parte na captura de mais de 33.000 prisioneiros no Bolsão de Volkov, antes de serem empregados como “brigada de incêndio” em vários pontos críticos dos fronts de Leningrado e da Finlândia. Durante os 20 meses de combate no front norte da URSS, a 5ª Divisão de Montanha ganhou invejável reputação de firmeza na defesa e eficiência no ataque. Em reconhecimento aos feitos de sua divisão, Ringel foi promovido a Generalleutnant em 1 de dezembro de 1942.

Em meados de 1943 a divisão foi transferida para o front italiano, tomando parte na defesa da Linha Gustav como parte do 10º Exército. Em 25 de outubro de 1943, “Papa” Ringel foi condecorado com as Folhas de Carvalho da Cruz do Cavaleiro. Seus homens tomaram as posições da 305ª Divisão de Infantaria pouco antes do começo da Primeira Batalha de Cassino em janeiro de 1944, e logo depois alguns elementos foram enviados para conter o desembarque Aliado em Anzio, antes que toda a 5ª Divisão de Montanha fosse retirada para ajudar na defesa da Linha Gótica. Ringel foi designado comandante do LXIX Corpo de Montanha em abril de 1944, sendo movido rapidamente para o comando do XVIII Corpo de Montanha em junho, quando foi promovido a General der Gebirgstruppe. Ele deixou o front para se tornar comandante do XVI Distrito Militar em Salzburg no fim de julho daquele ano.

Em fevereiro de 1945 uma das formações específicas montadas para defender o território austríaco do avanço do Exército Vermelho recebeu o título de “Korps Ringel”, ajudando a organizar a defesa da região de Steiermark. Em luta desesperada, os diversos grupos de batalha formados por Ringel conseguiram – ainda que temporariamente – parar o avanço soviético. Apesar da absoluta superioridade numérica inimiga, os determinados soldados de montanha de Ringel seguraram cada palmo de território, e aquelas colinas permaneceram em mãos alemãs até o último dia da guerra na Europa. Embora tenha sido eclipsado pela propaganda alemã em favor de Eduard Dietl, Julius Ringel se mostrou um comandante de montanha extremamente hábil na Grécia, Rússia, Itália e Áustria, podendo ser considerando até mesmo superior à Raposa da Neve.

Após a guerra, Ringel aposentou-se. Em 1956 publicou um relato de suas experiências de guerra, chamado Hurra die Gams. Julius Ringel faleceu em Gmain, na Bavária em 10 de fevereiro de 1967, anos 77 anos de idade.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Piaggio P.108

ORIGEM E DESENVOLVIMENTO

A origem do Piaggio P.108 remonta a um requisito do Ministério do Ar italiano em 1937, por um "bombardeiro rápido para operações diurnas e noturnas, com grande raio de ação". Participaram da competição pelo contrato da aeronave a C.R.D.A. (“Cantieri Riuniti dell'Adriatico” ou simplesmente “Cant”) e a Piaggio de Pisa. Essa última tinha em seu time o engenheiro Giovanni Casiraghi, supervisor técnico com importante experiência nos Estados Unidos.

Casiraghi optou por um monoplano de asa baixa, quadrimotor, com trem de pouso retrátil e cabine para dois pilotos. O protótipo foi completado nas instalações em Finale Ligure em novembro de 1939, realizando seu primeiro vôo no dia 24 do mesmo mês, sob o comando de Nicolò Lana. A excelência da aeronave foi logo notada: podia carregar 3.500 kg de bombas. Seu armamento era composto de 8 metralhadoras de 12,7 mm, tinha tripulação de 7 homens e voava a uma velocidade de 430 km/h. Seguiu-se uma série de vôos de teste. Infelizmente em um desses vôos a aeronave se acidentou, ficando seriamente danificada e desacelerando o seu desenvolvimento.

O segundo exemplar foi finalizado em Pontedera em setembro de 1940 e a entrega do primeiro
protótipo para testes com a Regia Aeronautica aconteceu em outubro do mesmo ano. Os testes da fábrica e da força aérea continuaram em paralelo e, alguns meses depois outros dois protótipos foram entregues. Em 1 de junho de 1941 foi constituída em Pisa a 274ª Squadriglia Bombardamento a Grande Raggio (Bombardeio de Grande Raio), subordinada à 3ª Squadra Aerea e comandada pelo Capitano Bruno Mussolini, filho do Duce. Essa unidade seria a primeira a operar o Piaggio P.108 mas, durante sua formação, nenhuma aeronave estava disponível. Durante a espera pela entrega das aeronaves, os pilotos treinavam vôo por instrumentos e seus comandantes, o Tenente Colonello Gori Castellani e o Capitano Mussolini visitaram unidades alemãs que operavam o quadrimotor germânico Focke-Wulf Fw 200 Kondor patrulhando o Atlântico Norte a partir de Bordeaux.

TREINAMENTO

Em 19 de julho de 1941, receberam a primeira aeronave. Porém, em 7 de agosto, durante um vôo de treino, o bombardeiro se acidentou durante o pouso, causando a morte de Bruno Mussolini. Em sua memória, a 274ª Squadriglia passou a ser chamada "Squadriglia Mussolini". Em 12 de agosto foi recebido mais um exemplar do P.108, que recebeu imensa carga de vôos para treinar bem todos os pilotos. Ao mesmo tempo foi notada uma série de pequenos problemas na aeronave. Nos meses que se seguiram, prosseguiram paralelamente as atividades de treinamento e as aplicações dos melhoramentos implementados pela fábrica.

Em 2 de março de 1942 três exemplares voaram em formação para Roma, por ocasião do 19º aniversário da fundação da Regia Aeronautica. À medida que se aproximava a hora da entrada em operação da Squadriglia Mussolini, todos, dos pilotos aos mecânicos e engenheiros da Piaggio, intensificaram seus esforços visando resolver todos os pequenos problemas revelados durante o período dos treinos. Restaram, infelizmente, alguns problemas nos motores Piaggio P.XII RC35 de 1.500 hp.

EM OPERAÇÃO

As operações da Squadriglia Mussolini e do Piaggio P.108 começaram em 9 de junho de 1942, com dois bombardeiros realizando um ataque à Malta. Seguiram-se outras ofensivas bem-sucedidas e, em 26 de junho, as aeronaves reunidas no aeródromo de Decimomannu, na Sardenha, se alinharam na pista para realizar pela primeira vez uma missão para a qual foram especificamente desenhadas: um bombardeio estratégico a longa distância. Decolaram dois dias depois em direção a Gibraltar. As decolagens aconteceram por volta das 21:00h mas, devido a problemas nos motores, um dos cinco bombardeiros teve de retornar à base. Os outros quatro efetuaram o bombardeio sofrendo apenas pequenos danos devido ao fogo inimigo, mas dois deles foram obrigados a aterrissar na Espanha devido a consumo irregular de combustível, sendo, portanto, perdidos. A razão de consumo de combustível foi recalculada mas, em 3 de julho, em mais uma missão a Gibraltar, o único Piaggio P.108 enviado foi perdido da mesma maneira. Seguiu-se um período de mais treinamento e refinamento de homens e máquinas.

Em 24 de setembro de 1942 foram reiniciadas as operações contra Gibraltar, mas os dois
bombardeiros enviados tiveram de retornar devido a mau funcionamento. Seguiram-se duas outras missões de bombardeio contra Gibraltar, e em 28 de outubro, foram iniciadas missões de reconhecimento no Mediterrâneo Ocidental devido aos desembarques Aliados no Norte da África (Operação Torch). A partir de 11 de novembro de 1942 começou uma série de missões de bombardeio contra portos e aeroportos anglo-americanos na Argélia, que totalizaram sete incursões ainda em 1942.

O ano de 1943 começou com os P.108s realizando as mesmas missões na Argélia. Em seu livro de memórias, o General George Patton descreve um ataque de “quadrimotores do Eixo” à sua base na Argélia, descrição que somente se encaixa no P.108. A última aconteceu em 20 de janeiro, quando dois bombardeiros atacaram Oran. Para um período de descanso de pessoal e aeronaves, o grupo foi enviado a Siena, depois a Guidonia e Foligno. Com a invasão aliada da Sicília começou a última fase operacional do Piaggio P.108, realizando missões contra forças americanas e britânicas na ilha. Quatro missões foram efetuadas, a última em 22 de julho. Após o armistício e 8 de setembro, as aeronaves restantes foram capturadas pelos alemães, mas um dos bombardeiros fugiu e conseguiu chegar às linhas Aliadas no sul da Itália. No total, os Piaggio P.108s realizaram 29 missões de combate com 11 aeronaves perdidas e outras duas destruídas em treinamento. Sempre evidente estava a coragem e valor das tripulações, levando suas máquinas ao limite.

CONCLUSÃO

A sem dúvida bela aeronave fora colocada em ação sem o período adequado de testes. Seus pequenos defeitos, em conjunto, impuseram grande limitação ao modelo. Mas o Piaggio P.108 gozava de clara superioridade tecnológica em relação a seus irmãos bombardeiros italianos, pois fora construído com lições aprendidas nos EUA. Teria um papel de destaque na guerra se estivesse disponível em maiores números, pois apenas cerca de 40 exemplares foram construídos. Apesar de todos os revezes apresentados, o Piaggio P.108 entrou para a história como o único bombardeiro estratégico usado operacionalmente pelo Eixo.

DADOS TÉCNICOS

Tripulação: 6 ou 7
Comprimento: 22.30m
Envergadura: 32.00m
Altura: 6.00m
Área alar: 135.0m²
Peso vazio: 17.325kg
Peso máximo de decolagem: 29.885kg
Motores: 4× Piaggio P.XII RC.35, 1.120 kW (1.500 hp) cada
Velocidade Máxima: 430km/h
Alcance: 3.520 km
Teto operacional: 8.500m
Armamento: 5x metralhadoras 12.7mm Breda-SAFAT, 2x metralhadoras 7.7mm Breda-SAFAT, 3.500 kg de bombas

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Filmes: Patton - Rebelde ou Herói?

Patton - Rebelde ou Herói? (Patton)
EUA, 1970 - 170 min.

Direção: Franklin J. Schaffner
Roteiro: Edmund H. North
Elenco: George C. Scott, Karl Malden, Michael Bates, Morgan Paull, Richard Münch, Jack Gwillim, Edward Binns, John Doucette

por Júlio César G. Antunes


“Rommel, seu grande bastardo, eu li seu livro!” Com essa sonora frase proferida no auge da vitória em sua primeira grande batalha no norte da África, George C. Scott deixa claro a que vem Patton (EUA, 1970): exibir o retrato de um guerreiro; brilhante, louco, religioso, apaixonado pelo combate. Um homem de inúmeras facetas, todas ela regidas por uma: a vontade intrínseca de lutar.

Lançado no aniversário de 25 anos do fim da Segunda Guerra, e também do ano de falecimento do General, o filme dirigido por Franklin J. Schaffner conta um pouco da trajetória de George S. Patton, Jr. durante o maior conflito do século XX, e como ele por pouco não conseguiu “cumprir seu destino” por conta de seus desregrados discursos. A interpretação do personagem-título por George C. Scott é uma das mais brilhantes da história do cinema. Em raríssimas ocasiões um ator conseguiu incorporar tão bem um personagem histórico tão conturbado. Inegavelmente fantásticas entonações e trejeitos, a “energia” inata, e o palavreado viral (com as devidas proporções permitidas pelo cinema dos anos 60) demonstram em tela todo o cuidado que Scott teve ao preparar seu personagem. A caracterização do General no filme também é impecável, o uniforme sempre em perfeitas condições, o uso orgulhoso de condecorações e seu famoso capacete lustrado com as estrelas de oficial-general, estão sempre presentes e à medida que a película avança temos a ilusão de ver o próprio Patton que conhecemos pelos livros vivo na tela. Isso já fica patente na primeira cena, com o discurso à frente da imensa bandeira americana.

O filme não é uma glorificação da guerra, como alguns insistem em dizer. Ele mostra a guerra da perspectiva de Patton, ou seja, de um empreendimento que não encontra paralelos nas atividades humanas. E para retratar a guerra dessa maneira, Schaffner utiliza-se de um recurso que traz beleza a cada cena: o uso de lentes grande-angulares. Dessa forma, qualquer apreciador dos bons filmes de guerra encontra aqui um cenário raro de grandes colunas de tanques e caminhões de suprimento, cruzando terrenos que vão desde o deserto africano, passando pela bela Sicília e o interior da França.

O outro único grande personagem do filme é o também General Omar Bradley (Karl Malden)
que aqui é representado como o exato oposto de Patton: um militar por profissão, que está ali unicamente pelo dever, calmo, sem aspirações pessoais. Chega a ser um tanto “soft” demais, mas Bradley realmente completava Patton com um planejamento detalhado, enquanto o último ditava ordens operacionais diretamente no campo de batalha. Quem conhece um pouco mais a fundo o Alto-Comando na Segunda Guerra irá gostar de ver algumas “presenças ilustres”, como Harold Alexander, Arthur Coningham, Lucian C. Truscott, Erwin Rommel, Alfred Jodl (cujo intérprete guarda incrível semelhança com Erich von Manstein), Arthur Tedder, Walter Bedell Smith e, claro, Bernard Law Montgomery.

Um dos (muitos) pontos altos do filme é a rivalidade entre Patton e Monty pela conquista de Messina, na Sicília. Não é necessário retratar aqui o ego insuflado do general inglês, e ele faz de tudo para conseguir que Patton desembarque o mais longe possível do objetivo final, e que lhe sirva meramente como proteção de flanco. Diante dessa situação, e mesmo contra ordens vindas diretamente de Eisenhower, Patton consegue se livrar do renhido combate que ocupa Montgomery e rumar noroeste para Palermo. Um dos melhores diálogos do filme surge aqui, quando Patton desfila pelas ruas da cidade e um soldado vem lhe entregar uma mensagem de Alexander, proibindo-o de tomar Palermo, no que ele responde: “Pergunte se quer que devolva.” Simplesmente genial.

A cena em que tropas inglesas entram em parada pelas ruas de Messina também é digna de nota: quando a banda pára de tocar subitamente, um surpreso Montgomery acorre à frente para ver o que aconteceu. Eis que ele se depara com a praça cheia de tanques americanos, já devidamente perfilados, e Patton e seu estado-maior do outro lado, em posição de sentido para “receber” o colega inglês. Está clara nessa cena a satisfação de Patton por ter vencido Monty na conquista da Sicília, ainda exprimida por seu ácido sarcasmo: “Até me barbeei no caso de você querer me beijar.” É logo após a vitória na ilha que ocorre um dos eventos que mais marcaram negativamente a carreira de Patton. Ao visitar um hospital de campanha, o General se depara com um soldado que sofre de stress de combate. Ao ver que, ao lado de homens visivelmente feridos em combate, este se apresenta com “feridas invisíveis”, Patton o chama de amarelo e covarde, esbofeteando-lhe com suas luvas. Quando a notícia chega a Eisenhower, este ordena que Patton peça desculpas imediatamente a todos os presentes e a todo o 7º Exército.

Mas eis que a narrativa se transporta para a França, e Patton é posto no “comando” do famoso exército fictício que invadiria a Europa por Calais. Ele, claro, odeia a tarefa e por muito pouco não é mandado de volta aos EUA. Esta parte do filme mostra o que seria o ponto mais baixo de sua carreira militar, retratado até mesmo pelo recuo de seu cão bull terrier perante os finos latidos de cachorrinho de madame inglês. Desapontado, Patton diz ao animal: “Seu nome não é mais William, é Willy.”

Contudo, a aparentemente insolúvel imobilidade dos exércitos Aliados na Normandia faz com que Bradley (agora seu superior no comando) chame Patton para a França, e o coloque no comando do 3º Exército Americano, uma unidade que deveria romper a linha defensiva alemã e disparar pelo interior francês em direção ao Reich. É então que Patton mostra seu melhor, incentivando os soldados sem parar e até mesmo controlando o tráfego de duas colunas de tanques. O último grande ato bélico mostrado no filme é o resgate dos pára-quedistas sitiados em Bastogne, que ele empreendeu em tempo recorde em dezembro de 1944. O recente sucesso Band of Brothers diz no epílogo de seu capítulo sobre a luta em Bastogne que os pára-quedistas “não precisavam do resgate de Patton”. Ora, achei essa declaração um tanto recheada de soberba. Apesar de o ataque alemão perdido velocidade, Bastogne estava profundamente cercada em todos os lados, e o mal-tempo não permitia a entrega de suprimentos por ar. É óbvio que o resgate era necessário.

As cenas finais ainda mostram o difícil relacionamento de Patton com os aliados soviéticos, e seus polêmicos métodos de administração da Alemanha no imediato pós-guerra, o que acarretou a ele mais problemas com Eisenhower e o governo em Washington.

A impressão que se tem ao assistir Patton é que o conjunto supera as limitações; pouco importa
que os tanques em cena sejam da década de 50, ou que Heinkel He 111s sejam usados como aeronaves de ataque... Essas “falhas técnicas” são perdoadas diante de tanto preciosismo narrativo. É um épico imperdível, que foi merecidamente reconhecido com sete Oscar em 1971: Melhor Filme, Melhor Ator (George C. Scott), Melhor Diretor (Franklin J. Schaffner), Melhor Direção de Arte, Melhor Roteiro, Melhor Som e Melhor Edição.

Trailer


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Patton - Rebelde ou Herói?

domingo, 1 de julho de 2007

Vídeo: Batalha da Inglaterra

Este vídeo é belíssimo. É uma reconstituição feita para um documentário da BBC, mostrando dois Messerschmitts interceptando Spitfires na costa inglesa. Excelente fotografia: