Bate-papo com o veterano - Sr. Marko responde

Recebi um total de 142 perguntas para nosso veterano aviador croata, Feldwebel Zeljak Marko. As respostas dão um vislumbre muito interessante da pouca discutida participação da Croácia nos combates na União Soviética. A Sala de Guerra deseja agradecer ao amigo Boris Fabian, que propiciou a oportunidade de realizar a entrevista com o Sr. Marko.
1-Sr. Marko, pode nos contar um pouco como foi seu treinamento na antiga Real Força Aérea Iugoslava? Roberto Silveira, 28, Ribeirão Preto - SP.
Eu terminei a escola de infantaria e me tornei um Sargento, trabalhando no treinamento de jovens soldados. Pouco depois a Força Aérea pediu por pessoal voluntário de outras forças, como infantaria, artilharia, etc. E eu fui pra lá.
2-Durante a Operação Marita o senhor chegou a lutar contra os alemães? Fale-nos um pouco sobre a invasão. Herbert Pascelli, 26, Porto Velho - RO.
Aquilo foi muito rápido, em dez dias estava tudo acabado. Eu estava em um aeroporto em Banja Luka, e de lá vi as batalhas aéreas entre as forças aéreas alemã e iugoslava. A Força Aérea Iugoslava tinha, nessa época, o Bristol Blenheim, Hawker Hurricane, Dornier Do 17, Messerschmitt Me 109 e o Rogozarski IK-3. Tínhamos também uma grande força de hidroaviões.
3-Fale um pouco sobre o treinamento com os instrutores da Luftwaffe. Os croatas tiveram alguma dificuldade? João Augusto Mota, 35, Fortaleza - CE.
Para nós o treinamento com os instrutores alemães foi simples, pois todos já tínhamos experiência militar.
4-Qual a sua opinião sobre o Dornier Do 17? Era um bom bombardeiro? Carlos José Marcondes, 41, Rio de Janeiro - RJ.
O Dornier Do 17 era um bom avião. Não tínhamos nada melhor.
5-Qual era a força da artilharia antiaérea soviética sobre Leningrado e Moscou? Roberto Amarantes, 32, Campo Grande - MS.
A defesa antiaérea mais pesada estava em Moscou. Era impossível voar por lá sem consequências fatais no inverno de 1941. Nós perdemos 7 ou 8 bombardeiros com o Major Grahovac.
6-Que tipo de táticas os aviadores de bombardeio croatas utilizavam para bombardear em grupo, e escapar do fogo antiaéreo? Sílvio Pereira, 23, São Paulo - SP.
Os alemães bombardeavam de 3.000 metros, e isso não era muito eficiente. Nós éramos destemidos – a gente bombardeava de 300 metros; isso dava mais sucesso, mas era mais arriscado. Porém, uma vez quando estávamos bombardeando um depósito em Vyazma as armas antiaéreas soviéticas ficaram inúteis, porque já tinham sido modificadas para defesa de grande altitude.
7-Sr. Marko, entre as missões que o senhor cumpriu, há alguma que sinta que foi especial? O que aconteceu? Marília Almeida Santana, 29, São Paulo - SP.
Costumávamos voar em grupos de 5 ou 6 aviões, mas dessa vez o mal-tempo nos forçou a voar sozinhos. Porém, quando atingimos a linha de frente, o tempo estava claro e o céu inteiramente azul. Três Spitfires russos nos atacaram – dessa vez os russos já tinham aeronaves britânicas – um Spitfire veio contra nós atirando, fazendo um grande furo no meu pára-quedas e matando o mecânico de voo que estava atrás de mim. Eu tive boa sorte e escapei da morte, mas quando o Spitfire começou a subir eu abri fogo com minha metralhadora e o avião começou a soltar fumaça. Claro, nós tivemos que sair correndo daquela loucura e ninguém pôde confirmar minha vitória.
8-Como aconteceu a deserção de sua tripulação para o lado soviético? Que tipo de tratamento os russos lhe deram, quando pousaram? Murilo Santana, 44, Uberlândia - MG.
Eles tomaram a decisão em Königsberg sem meu conhecimento. Enquanto eu estava no barbeiro minha tripulação tirou a agulha da minha arma. Estávamos voando para a linha de frente com pertences pessoais e sem bombas. Quando eu pensei que estávamos indo para nossa base, eu escutei no intercomunicador “Marko, não faça nada idiota, porque nós estamos indo pros russos”. Quando os russos viram o bombardeiro alemão, eles abriram fogo. Eu tinha munição na minha metralhadora, mas não pude disparar porque estávamos indo para o lado soviético. Estava muito baixo para saltar de pára-quedas e meus companheiros tinham cortado o cabo da minha estação de rádio. Nós pousamos 300 quilômetros dentro do território soviético e fomos enviados para a delegacia de polícia local, porque naquela vila não havia tropas do Exército. Eles telefonaram para Moscou e o NKVD veio e nos levou.
9-O senhor foi interrogado pelo chefe do NKVD, Lavrenti Beria. Pode nos dizer como foi essa experiência? Wesley Costa, 19, Vila Velha - ES.
Os agentes disseram a ele que tinham capturado um avião alemão; eu acho que fomos um dos primeiros casos de deserção e ele queria interrogar cada um de nós pessoalmente, especialmente porque eu tinha sido refém da minha tripulação e nunca viria para os soviéticos de boa vontade. Beria me perguntou por que eu não estava com eles, e disse que tudo que eles queriam era o socialismo – tudo para todo mundo. Eu respondi que se seus guardas estavam lá fora do prédio num frio de -20º C, enquanto ele estava numa sala tão aconchegante com poltronas de couro, alguma coisa não estava certa. Beria me disse: “olhe para sua mão – vai ver que todos os dedos são diferentes”.
Eles me respeitaram mais do que os outros, porque aos olhos deles os outros tripulantes eram traidores. Não importava que tivessem vindo para o lado soviético, se tinham feito uma vez, podiam fazer de novo.
10-Fale-nos sobre seu tempo em cativeiro soviético. Que tipo de adversidades o senhor teve que superar? Como foi finalmente poder voltar para casa? Túlio Oliveira Silva, 25, Rio de Janeiro - RJ.
Foi muito difícil, mas acabei me adaptando. Uma vez eu fugi do meu campo de detenção e eles me transferiram para um lugar exótico nos Urais, onde não havia chance para nada. Após isso eu trabalhei numa fábrica de máquinas agrárias e em 1947 eu finalmente estava livre. Quando retornei para a Iugoslávia, eles suspeitaram que eu fosse um espião russo. Após toda essa palhaçada eu trabalhei por toda minha vida para uma agência meteorológica. No ano passado eu publiquei pela primeira a minha história em jornais locais.
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