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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Livro: Mussolini e a Ascensão do Fascismo

Mussolini e a Ascensão do Fascismo

A cadeia de eventos que permitiu a ascensão dos fascistas ao poder é analisada em um livro da editora Agir.

por Júlio César Guedes Antunes

Analisar a origem de um acontecimento tão importante para a história como a Segunda Guerra Mundial é analisar além dos fatos mais óbvios: o desejo de Hitler pela Polônia, a política apaziguadora de Chamberlain, o jogo duplo de Stalin. Analisando mais a fundo, temos que buscar a origem dos regimes de extrema-direita que afloraram em diversos países europeus durante a as décadas de 1920 e 30, que tornaram-se rivais dos regimes democráticos e adicionaram um componente muito volátil na caldeira européia. Voltar e analisar essas origens nos remete inevitavelmente ao primeiro: o fascismo italiano.

Como o primeiro dos déspotas destes regimes, Benito Mussolini, “Il Duce”, gabou-se por vinte anos de ter tomado o poder através da força, pela revolução, materializada em sua altamente propagandeada “Marcha sobre Roma”. Mussolini, contudo, foi trazido ao poder por vias inteiramente legais – foi convidado pelo rei Vittorio Emanuele III para formar um novo governo, com o posto de Primeiro-Ministro – em 30 de outubro de 1922. A raiz de sua retórica, entretanto, necessitava ser afagada com essa versão distorcida dos acontecimentos.

Em um livro conciso e objetivo, é o que nos conta o historiador inglês Donald Sassoon, autor de Mussolini e a Ascensão do Fascismo (200 páginas, 30 reais). Sassoon utiliza um estilo de escrita extremamente enxuto e científico, aproximando-se muito da linguagem acadêmica. Ele apresenta um retrato político da Itália nas décadas anteriores à era fascista, desde sua tardia unificação em 1870, quando Piemonte forçou a união de diversas províncias peninsulares sem muita identidade comum, até os conturbados anos que seguiram à “vitória mutilada” na Primeira Guerra Mundial.

A Itália nasceu no último terço do século XIX, fruto da unificação de territórios com população de maioria rural e sem consciência política. Seus novos governantes tentaram colocar a nova nação entre o seleto clube das potências européias, mas tendo chegado atrasados no processo imperialista, suas aventuras coloniais eram de pouca valia. Nada ajudou o fato da Itália ter sido a única nação européia a ter sido derrotada por forças africanas, na Batalha de Adowa, em 1 de março de 1896. A Alemanha, que nasceu no mesmo período e compartilhou das dificuldades coloniais, teve nos prussianos uma força impávida que moveu a nação na direção da industrialização maciça, o que os piemonteses também tiveram dificuldade em repetir.

Dessa forma, a Itália tornou-se “a última das grandes potências”, status que muitos políticos e intelectuais italianos tentaram modificar. O liberal Giovanni Giolitti, cinco vezes Primeiro-Ministro, foi considerado o político mais influente da Itália pré-fascismo, mas teve que lutar contra um número de facções políticas contrárias, além de um sistema clientelista do qual ele mesmo era complacente. Nas palavras do autor: “enquanto na Inglaterra o Primeiro-Ministro tinha poder por ser o líder do maior partido político, na Itália ele o tinha por poder distribuir favores”. A cisão entre católicos e socialistas nunca permitiu uma união da esquerda no país, o que abriu espaço direto para um movimento unificado de direita.

Assim, quando deu-se início a Primeira Guerra Mundial em 1914, as facções intervencionista e isolacionista iniciaram uma acalorada discussão sobre a atitude que a Itália deveria tomar. Eventualmente, o país entrou na guerra em 1915, mas o desempenho fraco no campo de batalha contra os austríacos e alemães marcou o despreparo e falta de união nacional dos italianos. Após o desastre na Batalha de Caporetto, em outubro de 1917, o General Luigi Cadorna foi substituído como Chefe de Estado-Maior Geral pelo General Armando Diaz, que reorganizou o Exército e infligiu uma decisiva derrota aos austríacos na Batalha de Vittorio Veneto, em novembro de 1918.

O triunfo militar, todavia, não traduziu-se nos ganhos esperados pelos italianos. As reivindicações na costa da Dalmácia e a possessão da cidade de Fiume não foram atendidas pelo Tratado de Versalhes, gerando uma insatisfação que abalou as estruturas do governo vigente. O poeta e veterano de guerra Gabriele D’Annunzio, junto com um grupo de milicianos nacionalistas, tomou o controle da cidade em 1919 e estabeleceu um governo autônomo. A aventura de D’Annunzio provaria ser uma das fontes inspiradoras de um então obscuro jornalista, Benito Mussolini, que encabeçava um movimento – não ainda um partido – sem uma identidade definida: o “Fascio di Combattimento”.

A crescente influência dos socialistas – no esteio da Revolução Russa – preocupava as elites industriais do Vale do Pó, pois organizavam greves e protestos da massa trabalhadora. Com o governo fragmentado e corrupto, os industriais recorreram ao violento grupo de fascistas que atacava os escritórios e concentrações de socialistas na região. A crescente violência dos fascistas não encontrava resistência por parte da polícia e do estado, que por vezes eram-lhes complacentes.

A corrupção generalizada do estado italiano em 1921, descrita por Sassoon num capítulo particularmente intrigante, inevitavelmente faz-nos lembrar da nossa atual situação, de uma maneira às vezes assustadora. A obra examina nicho a nicho a sociedade italiana e sua participação no cenário político calamitoso que culminou na nomeação de Mussolini pelo rei em 30 de outubro de 1922. Seria o começo de um governo que se tornaria uma ditadura cinco anos depois, colocaria a Itália no cenário internacional e que somente seria derrubado após três anos de desastroso envolvimento na Segunda Guerra Mundial.

O livro de Sassoon representa, para o nosso restrito mercado editorial, uma referência importante para compreender a complexa mecânica que culminou na ascensão do fascismo na Itália, e a transformação de Mussolini em um ícone que inspiraria Adolf Hitler em sua corrida para tomar o poder.

Il Duce no ápice de sua popularidade, na década de 1930.

Veja também:
>>A Itália declara: "Guerra!"
>>Militaria: Ordine della Corona D'Italia
>>Filmes: Fascistas em Marte
>>Hino da Brigata Sassari
>>Livro: O Zoológico de Varsóvia

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