Quero Matar Hitler
Uma descrição minuciosa das mais importantes tentativas feitas para assassinar o Führer alemão.
por Júlio César Guedes Antunes
Como principal protagonista do maior conflito militar da história, líder de um império que se estendeu do Atlântico ao Volga, e carrasco de todo um povo europeu, Adolf Hitler permanece como a pessoa mais influente do século XX. Foram muitos, entre aliados e inimigos, que tremeram perante sua espada, e somente uma aliança mundial de proporções nunca vistas conseguiu detê-lo. Contudo, alguns poucos tentaram fazer o que parecia impossível, e acabar com a tirania nazista eliminando a pedra fundamental do regime: o próprio Führer.Assassinar Hitler, não foi, ao contrário do que muitos pensam, uma idéia solitária dos conspiradores liderados por Claus von Stauffenberg; na verdade, muitos antes dele – e mesmo depois – tentaram matar o líder alemão e por um fim ao nazismo. É o que nos relata Quero Matar Hitler (400 páginas, 45 reais), do historiador inglês Roger Moorhouse. O autor, que é fluente em alemão, é perito em história moderna da Alemanha, e começou sua carreira como pesquisador para o renomado historiador Norman Davies. Esta é sua primeira obra solo, na qual ele mostra toda sua habilidade para descrever e, mais importante, contextualizar historicamente cada tentativa de assassinato.
Hitler era tido por um modesto número de pessoas como uma grande ameaça mesmo antes de chegar ao poder em janeiro de 1933. Obviamente, uma vez que suas políticas foram postas em prática, seus opositores cresceram em número e organizaram-se. Poder-se-ia pensar que Hitler somente se tornaria alvo para assassinos após iniciar a Segunda Guerra Mundial e levar a Alemanha para uma potencial destruição, mas Moorhouse deixa claro que tais intenções tiveram seu nascimento junto com o próprio Terceiro Reich.
Num estado policial, todavia, conspirações sérias tomam tempo para se formar, e é curioso notar que os primeiros pretensos assassinos de Hitler não faziam parte de círculos de conspiradores, sendo assim, planejadores solitários. Nesta categoria encaixam-se o estudante católico suíço Maurice Bavaud e o comunista alemão Georg Elser. Houve, entretanto, uma diferença fundamental entre os dois: Bavaud era um fatalista, um pistoleiro que queria abater Hitler a tiros durante um desfile, presumivelmente ciente das grandes chances dele mesmo ser morto logo em seguida; já Elser optou por um método mais calculista, plantando uma bomba-relógio atrás do palanque onde Hitler faria um discurso. O mais impressionante é que ambos chegaram muito próximo de seu objetivo – Elser especialmente – tendo agido completamente sem ajuda alheia. É revelador, portanto, observar a fragilidade do esquema de segurança do Partido Nazista até então.
Sendo um regime tão centralista e autoritário, é chocante constatar quanto amadorismo Nacional-Socialismo exibiu em seus esquemas de segurança até os primeiros anos da guerra. A SS, cuja Liebstandarte Adolf Hitler deveria proteger a vida do Führer a qualquer custo, tinha em seus quadros diversos homens com pouco ou nenhum treinamento real em segurança, atuando mais como dissuasão psicológica do que proteção efetiva. Com o passar dos anos, a disputa de egos dentro da guarda negra culminou na criação de diversas agências de segurança, que às vezes sobrepunham suas jurisdições, mais atrapalhando-se do que cooperando para proteger Hitler.
A inaptidão da SS fica evidente ao considerarmos o caso de Canaris e o Abwehr. Desde 1935, o Almirante Wilhelm Canaris chefiava o Abwehr (agência de inteligência alemã), mesmo sendo um decidido opositor do regime. Sob a tutela de Canaris, uma importante rede de conspiração se formou, sendo chefiada pelo seu nº2, Hans Oster. Em 1938, durante a Crise dos Sudetos, tal conspiração quase culminou num golpe de estado, que somente não aconteceu devido à concordância anglo-francesa aos termos de Hitler na Conferência de Munique. Embora tenham falhado naquele ano, Oster e seus conspiradores mantiveram-se ativos até sua captura, já no avançado ano de 1944. Até então, a SS nada descobrira da teia de resistentes ativa bem debaixo de seu nariz.A guerra e a ocupação de nações vizinhas também deram origem a tenazes grupos de resistência, que tramaram o assassínio do Führer alemão. Pouco depois de sua derrota militar, os poloneses fizeram sua primeira tentativa de matar Hitler, quando este esteve em Varsóvia para o desfile da vitória em outubro de 1939. O submundo polonês tornou-se a rede de resistência mais organizada da Europa, e executou uma série de assassinatos de dirigentes nazistas que gerou medo profundo entre os ocupantes alemães – eles se referiam à Polônia como “ninho de víboras”.
O grande inimigo da Alemanha Nazista, a União Soviética, também entrou para o rol de pretensos assassinos, logo que teve início a Operação Barbarossa em junho de 1941. O serviço secreto de Stalin, o NKVD, já era bastante experiente nas chamadas “operações molhadas” – assassinatos internacionais – quando assinalou Hitler como alvo prioritário. Suas tentativas foram muitas, e de natureza diversa: desde o uso de um pistoleiro em um café bávaro, passando pelo contato de uma atriz russa radicada em Berlim, até um ataque ao Wehrwolf, o quartel-general de Hitler em Vinnitsa, na Ucrânia. Até mesmo os britânicos fizeram planos para matar Hitler em 1944, mas acabaram desistindo pela mesma razão que os soviéticos: a esta altura, Hitler mais os ajudava, com sua ininterrupta interferência na estratégia alemã, do que prejudicava.
Tem de ser dito, porém, que o capítulo mais significativo do livro de Moorhouse é aquele sobre a conspiração e as tentativas de assassinato protagonizadas pelo Exército Alemão. As elaboradas e desesperadas tentativas envolveram um grande número de altos-oficiais, ideologicamente liderados pelo Coronel Henning von Tresckow. O próprio Tresckow chegou muito perto de seu objetivo em 1943, quando conseguiu plantar explosivos dentro de garrafas de licor no Focke-Wulf Kondor de Hitler. Os homens de Tresckow também tentaram o primeiro ataque suicida com um homem-bomba na história. Contudo, somente com a chegada de Stauffenberg ao grupo de conspiradores é que a maior e mais coordenada tentativa de assassinato aconteceu, em 20 de julho de 1944. A falha do assassinato desencadeou uma série vingativa de execuções e prisões, que efetivamente destruiu a resistência alemã ao poder nazista.
Moorhouse abre seus capítulos com uma contextualização de cada época e situação, fazendo com que o leitor se sinta bastante à vontade quando ele inicia a descrição da conspiração em si. O estilo de escrita também é leve e descomplicado, pois não exige do leitor conhecimentos prévios do assunto. Pela primeira vez, o mercado brasileiro recebe um livro que reúne as tentativas de assassinato do ditador nazista, narrando cada uma com perfeição e clareza didática. Quero Matar Hitler é uma obra altamente recomendada.
Contudo, devo aqui fazer uma ressalva à edição brasileira: o resultado final da tradução não pode ser descrito como nada menos do que vergonhoso. Fica claro que a tradutora não tem a menor intimidade com temática da Segunda Guerra Mundial, e erros como a utilização de “Grupamento Central do Exército” ao invés de “Grupo de Exércitos Centro” e “Sexto Batalhão” ao invés de “Sexto Exército” (em Stalingrado) são constantes. O número desses erros é muito grande, e por vezes eles conseguem desviar a atenção do leitor. É uma pena ver uma obra tão interessante receber um tratamento tão pobre. Fica a recomendação de uma segunda edição, revisada, o quanto antes.
O estrago da bomba de Georg Elser na cervejaria de Munique: Hitler escapou por pouco.
Veja também:
>>Livro: Mussolini e a Ascensão do Fascismo
>>Livro: O Zoológico de Varsóvia
>>A discoteca de Hitler
>>Fui o guarda-costas de Hitler
>>A guerra de Hitler contra a América
Comente aqui!
1 comentários:
É , Júlio , impressionante o despreparo dos tradutores de obras militares...Dá raiva,mesmo...
Postar um comentário