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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Entrevista com o Rei Mihai I - Parte 1

Entrevista com Mihai I
Rei da Romênia


O ex-soberano da Romênia, Rei Mihai I, é um dos três chefes de estado da Segunda Guerra Mundial ainda vivos (junto com o Rei Simeon da Bulgária e Norodom Sihanouk do Camboja), e o único que se envolveu diretamente no conflito. O repórter Eugen Tomiuc falou com velho monarca de 88 anos em sua residência em Aubonne, na Suíça, sobre o começo da guerra e o impacto do Pacto Molotov-Ribbentrop na Romênia e o restante da Europa Oriental.

-Estamos celebrando o 70º aniversário de dois eventos fatídicos na história européia que também tiveram impacto subseqüente na Romênia. Em 23 de agosto de 1939, a Alemanha Nazista e a União Soviética assinaram um pacto de não-agressão com um protocolo secreto que resultaria, menos de um ano depois, na Romênia perder territórios para a URSS. E em 1 de setembro, como conseqüência direta do pacto, a Alemanha atacou a Polônia, começando assim a Segunda Guerra. Gostaria de perguntar se o senhor se lembra do momento em que soube do começo da guerra – e o que sentiu.
-Naquela época eu ainda estava na escola, e não estava envolvido na administração do estado. Meu pai [Rei Carol II] tomava conta de tudo com seu governo. Claro, sabíamos o que estava acontecendo à nossa volta, mas as implicações – profundas implicações – naquela época, eram difíceis de entender, porque eu estava preocupado com as tarefas escolares. Mas nos sentimos profundamente desapontados por dentro, por assim dizer, pressentindo que algo muito ruim iria acontecer. E finalmente, o que sentíamos foi exatamente o que aconteceu.

-Inglaterra e França declararam guerra à Alemanha em 3 de setembro, e em 17 de setembro a URSS invadiu o leste da Polônia. Os poderes Aliados, no entanto, não declararam guerra à União Soviética, e a Romênia sentiu-se ameaçada pelos dois lados. Esse sentimento de incômodo que descreveu – o instinto de que algo ruim iria acontecer – teve algo a ver com o fato de que mesmo a Romênia tendo estabelecido relações diplomáticas com a União Soviética, a questão da Bessarábia ainda estava pendente?
-Sim, claro. A questão da União Soviética naquela época – nós sempre mantínhamos em mente como algo a ter-se muito cuidado, porque você nunca tinha certeza do que estava por vir. Já tínhamos visto muitas coisas sobre a história [da Romênia e da Rússia]; foi o suficiente para entender que poderíamos estar em apuros mais tarde.

Nós tínhamos o possível perigo dos soviéticos, e por outro lado, os nazistas também estavam trabalhando em algo e nós fomos pegos no meio dos dois. Então há muitas, muitas coisas que as pessoas criticam, mas nós – isso é algo que percebi depois, não na época em si – estávamos enfrentando o perigo no sentido de que tanto com os soviéticos quanto os nazistas, se não fizéssemos os que os dois queriam, poderíamos perder nossa independência. Então é uma situação muito complicada, que só foi totalmente entendida depois de passada. Como você se balanceia e pende para um lado sem entrar na zona de perigo? Esse era o nosso problema.

-Com o benefício de olhar fatos consumados, com Sua Majestade disse, muitos historiadores dizem que se a Romênia tivesse escolhido resistir ao ultimato soviético de 1940 e defender a Bessarábia e a Bucovina do Norte, mesmo que fosse derrotada e perdesse dezenas de milhares de soldados, teria ganhado mais moralmente e mesmo politicamente, como a Finlândia. Por que a Romênia não lutou?
-Esta é uma questão na qual pensamos muito. É bastante óbvio que todos pensávamos nisso, mesmo que depois. Talvez algo devesse ter sido tentado, pelo menos moralmente falando. Agora estávamos enfrentando um colosso – a URSS – e seria bastante possível que se apresentássemos alguma resistência, que talvez fosse moralmente boa, teríamos tido uma invasão, com os russos por todo o país. Não podemos ter certeza, mas você sabe, tem-se que ser muito cuidadoso com certas coisas. Então também é possível que o pensamento do governo e de algumas outras pessoas fosse que seria melhor agüentar a humilhação e tentar manter o restante do país independente. Isso é algo que muitas pessoas no ocidente, claro, não entendiam e não enxergavam nossa real situação.

-Então basicamente a Romênia estava em perigo mortal como nação, poderia desaparecer completamente do mapa, porque a Hungria poderia ter tomado a Transilvânia também?
-Esta poderia ter sido a realidade porque os nazistas estavam de um lado e os soviéticos de outro, e nós certamente tínhamos problemas com os húngaros. Quem sabe o que poderia ter acontecido. Nós tentamos ser tão amigáveis quanto possível com nossos vizinhos, mas algumas vezes você não sabe o que pode acontecer se não for cuidadoso.

-Sim, alguém disse certa vez que o único vizinho amigável da Romênia era o Mar Negro. Em 1941, a Romênia tomou parte da invasão da URSS, inicialmente com a justificativa de liberar a Bessarábia, mas depois manteve a luta junto à Alemanha dentro do território russo e experimentou a catástrofe em Stalingrado. Muitos dizem que os romenos deveriam ter parado no rio Dniester. Isso seria possível em 1941? O que a Romênia pretendia?
-Esta era uma situação muito complicada. Estávamos tentando pelo menos recuperar a Bessarábia e a Bucovina do Norte, e teria sido absolutamente impossível fazermos isso sozinhos. Então quando [o Marechal Ion] Antonescu estava liderando o estado – ele não era chefe de estado, estava liderando o estado – nosso führer... [risadas] Ele decidiu que, provavelmente por um curto período, a única coisa a ser feita era juntar-se aos alemães e recuperar nossos territórios. O problema era, o quão longe deveríamos ir?

Eu me lembro muito bem, algum tempo depois, o Marechal [Carl Gustav Emil] Mannerheim na Finlândia estava, de certa maneira, na mesma situação que nós – ele se juntou à guerra contra os soviéticos, mas parou nas antigas fronteiras finlandesas [após recuperar a Karélia]. E o resultado foi que ele perdeu a mesma parte [a Karélia] de novo para a URSS. Então poderíamos ter estado na mesma situação, de retomar nossos territórios, mas perdê-los de novo pro inimigo, e a situação poderia ser ainda pior. É possível. Em vista do que aconteceu depois, poderia ter sido muito perigoso.

-Mas pelo menos, a atitude romena poderia ter sido apresentada aos grandes poderes não como uma guerra de agressão, mas como uma tentativa justa de recuperar o que havia sido perdido?
-Estou muito triste por ter que dizer isso: os Estados Unidos ainda estava muito longe, enquanto a Grã-Bretanha e a França, baseado em experiências que tive mais tarde, não davam a mínima para nossa parte da Europa. Me lembro muito bem em 1938, meu pai me levou a Londres em uma visita oficial. Eu não estava diretamente envolvido mas me lembro de escutar que ele estava tentando conseguir algum tipo de entendimento do governo britânico para, não exatamente nos salvaguardar, mas pelo menos levantar um pouco de interesse britânico pelo nosso país e pelo que estava acontecendo naquela parte da Europa, mas infelizmente nada aconteceu nesse sentido.

Eu já disse antes, muitos países ocidentais não sabiam ou não se importavam com a história da nossa parte da Europa. Eles não ligavam muito para o que aconteceria se perdêssemos nossa independência e todo o país fosse ocupado ou não – não havia interesse.

-Em 2005, o senhor foi convidado pelo então presidente russo Vladimir Putin para comparecer às celebrações em Moscou, comemorando os 60 anos do fim da Segunda Guerra. O senhor declarou repetidas vezes que as ações soviéticas foram “extremamente horríveis para os romenos” e disse que a Rússia deveria condenar oficialmente o Pacto Molotov-Ribbentrop. Ainda mantém este pensamento?
-Eu já dizia isso muito antes de 2005. E quando fui convidado para ir às celebrações em Moscou, fiquei extremamente surpreso com o fato. Devo dizer, depois de toda a história que divido com a Rússia, eu não acreditava nos meus ouvidos. Mas devo dizer que agora que a União Soviética já é passado, eu gostaria de ver os russos – como direi – um pouco mais honestos e abertos sobre essas coisas. Eles deveriam dizer algo sobre o Pacto Molotov-Ribbentrop para começar. Acho que seria a coisa certa a fazer.

CONTINUA...

Veja também:
>>Entrevista com Ion Dobran - Parte 1, Parte 2
>>Vídeo: Dobran discursa no túmulo de Serbanescu
>>Evento: Dia da Aviação na Romênia 2009
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