Entrevista com o Rei Mihai I - Parte 2
Entrevista com Mihai I
Rei da Romênia
Rei da Romênia
Memórias de Churchill e Hitler-O senhor mencionou antes que o Marechal Antonescu era o líder do estado, mas Sua Majestade era oficialmente o chefe de estado, e nessa posição negociou e conheceu muitos protagonistas da guerra. Conheceu alguns deles pessoalmente? Qual sua impressão deles?
-Embora eu fosse o chefe de estado, eu não tinha permissão para fazer nada, porque Antonescu estava lidando com tudo, tomando conta da política e tudo. Então, tais negociações eu não pude conduzir. Não conheci todos os líderes, apenas alguns deles. Conheci o primeiro-ministro Winston Churchill depois da guerra, e também o presidente Harry Truman quando visitei os EUA em 1948.
Churchill era muito educado, mas minha impressão foi que ele não sabia muito sobre nosso país. Num momento estávamos falando sobre uma situação, e então de repente ele dizia algo como “não sabia disso, a Romênia tem uma constituição?” Eu fiquei abismado quando escutei aquilo; não pude continuar e respondi: “Sim, claro, temos uma constituição”. Quero dizer, Churchill era um homem tão inteligente e tinha feito tanto para servir a Grã-Bretanha durante a guerra, mas de certo modo, sobre o resto da Europa... Não que ele não soubesse de nada. Eu não sei, realmente não posso entender como ele chegou àquele ponto.
Outra coisa, ele também não nos reconheceu de verdade quando eles fizeram a Conferência de Yalta [em fevereiro de 1945]. Até onde eu sei, pelo que entendi, eles fizeram uma lista a lápis com esferas de influência, então fomos instantaneamente abandonados, por assim dizer.
-E quanto a Hitler? O senhor o conheceu?
-Hitler, sim, encontrei-o duas vezes. Uma vez, com meu pai, quando voltávamos da Inglaterra e França em 1938. Meu pai teve conversas com ele. Eu não sei o que foi dito porque não falo nada de alemão. Então a segunda vez, quando minha mãe [Rainha Elena] queria voltar para Florença e acertar certas coisas, e falamos com Antonescu, e ele nos deu sua permissão. Mas ele disse que se eu fosse para a Itália teria que encontrar a família real italiana, então eu não poderia ir sem conhecer Mussolini também, e Hitler! [risadas] Então, Antonescu planejou nossa viagem, que deveríamos ir para Florença passando por Berlim! Minha mãe não queria, mas fomos assim mesmo. Foi assim que aconteceu. Almoçamos com Hitler em algum lugar em Berlim. Como eu disse, não falo alemão, mas minha mãe falava um pouco. Pouca coisa saiu desse encontro, apesar de que tínhamos um intérprete.
-Que tipo de impressão o senhor teve de Hitler? Ele te impressionou de alguma maneira extraordinária, ou era apenas uma lenda que fora construída ao redor dele?
-Quando chegamos a um assunto que o interessou, não me lembro ao certo qual, mas quando ele começou... Ele começou a fazer discursos para as pessoas que estavam lá para o almoço... Ele de repente ficou com uma expressão fixa nos olhos, que olhavam para mim com desconforto. Quando ele começou o discurso ele meio que se perdeu, dando voltas e voltas. Foi apenas uma questão de minutos, mas você podia ver pelo rosto dele, que quando era um assunto que ele gostava, ele simplesmente ia e ia... Um pouco constrangedor, contudo.
-Ele era, me desculpe por perguntar isso, Excelência, mas o senhor é alguém que realmente o conheceu. Ele era assustador?
-Não, sabe, estávamos tão separados pela linha de pensamento, que a performance intimidadora de Hitler pouco nos afetou [risadas]. Eu não me impressionei. Muito menos minha mãe.
-O senhor mencionou Mussolini. Também o encontrou?
-Eu me encontrei com Mussolini em Roma por 20 minutos durante a mesma viagem. Ele era, bem, como todos os italianos que conhecemos. Como ele se envolveu tanto com Hitler, é difícil dizer, este é outro problema.
-Em 1940, na Arbitragem de Viena, onde Hitler e Mussolini decidiram separar parte da Transilvânia e dá-la à Hungria, Mussolini chocou os romenos demandando “justiça pela Hungria ferida”. Os romenos se sentiram traídos pelo que viram como um “irmão latino”, ao ponto que o Ministro do Exterior Mihail Manolescu desmaiou quando viu o novo mapa da Romênia.
-Aquilo foi algo que não pudemos entender. O que Mussolini tinha a ver com os húngaros? Por que ele os estava apoiando tanto, e não a nós? Nós éramos uma nação latina como a Itália. Foi uma situação muito difícil de entender.
Ajudando os judeus romenos
-A aliança da Romênia com a Alemanha Nazista foi marcada, além das centenas de milhares de baixas militares romenas, por atos desprezíveis, como o extermínio de judeus da Romênia e Transdniester. Gostaria que nos falasse sobre as ações que Sua Majestade e a Rainha-Mãe tomaram para impedir esses crimes.
-Sabe, Antonescu era uma personalidade muito engraçada de certa maneira. Devo mencionar que ele foi nosso adido militar em Londres antes da guerra. Será que aquele período deixou alguma boa lembrança na cabeça dele? Não posso dizer. Mas ele tinha um certo respeito pela minha mãe. Quando meu pai deixou o país em 1940 [após Antonescu tomar o poder pela força], ele rapidamente disse à minha mãe para voltar [do exílio na Itália]. Ele fez isso. Mas comigo, ele me tratava como uma criança, então eu não podia conduzir muitas discussões com ele, porque era inútil.
O que aconteceu com a situação dos judeus era que sabíamos, éramos muito próximos do rabino-chefe da Romênia, Alexandru Shafran, e graças a ele, sabíamos exatamente quando algo estava sendo preparado contra os judeus. Ele costumava vir e nos visitar, especialmente a minha mãe, e explicava exatamente o que estava acontecendo. Ela então entrava em contato com Antonescu e o Ministério do Exterior, e conseguia realizar algumas coisas. Não tanto quanto se gostaria, mas algo. Ela conseguiu salvar cerca de cem mil judeus da Romênia e Transdnister. Não era tanto quanto ela gostaria, mas já era alguma coisa. E isso se deveu ao respeito de Antonescu pela minha mãe.
Ela conseguiu parar um ato muito selvagem que estava sendo preparado na Bucovina, e então fez com que Antonescu parasse parte da deportação dos judeus da Bucovina e Transdniester. Ela também conseguiu aprovação de Antonescu para mandar diversos trens com comida e roupas para eles. E isso continuou por muito tempo, porque o rabino Shafran costumava vir a cada duas ou três semanas para dizer que algo mais estava sendo preparado contra os judeus, e ela imediatamente avisava Antonescu. Ela até mesmo conseguiu o apoio do patriarca ortodoxo Nicodim. Eu podia fazer pouco pessoalmente, porque Antonescu não me considerava muito importante [risadas].
-E ele estava muito errado no fim das contas...
-O outro Antonescu [Ministro do Exterior Mihai Antonescu] era mais respeitoso para comigo, mas Ion Antonescu, uma vez que decidia o que fazer, não me explicava nada.
-Majestade, o senhor teve alguma pista naquela época de algo terrível estava acontecendo nos territórios ocupados pela Alemanha Nazista? Havia algum rumor de que os nazistas estavam fazendo atos horrendos de assassinato em massa contra os judeus?
-Muito pouco, mas tínhamos nossas fontes. Alguns dos nossos representantes voltando do exterior tinham farejado algo. Mas detalhes de onde e como, não. Sabíamos, contudo, que algo ruim estava acontecendo, mas não pudemos procurar detalhes.
-A Rainha-Mãe foi mais tarde honrada no Memorial do Yad Vashem.
-Sim, isso aconteceu muitos anos depois, porque eles tinham regras rígidas sobre o Yad Vashem, e levou cerca de dois ou três anos para completar a documentação, e ele tinham muitos documentos da SS a respeito da minha mãe.
Há algo mais que eu provavelmente deva mencionar. Antonescu queria que eu fosse visitar as tropas durante a guerra, porque eu também era o comandante do Exército. Então ele queria que eu fosse à Odessa, ao Transdniester e assim por diante. Eu me recusei. Recusei decididamente. Disse a ele: “nem deveríamos estar lá”. Então peguei um avião e voei diretamente para a Criméia. Fiquei dois dias lá vendo as tropas, então voltei. Recusei a colocar meus pés no Transdniester. E até onde eu sei, os russos souberam disso, porque me mencionaram algo mais tarde.
Depondo Antonescu
-O dia 23 de agosto de significado duplo para a Romênia. Por um lado, o Pacto Molotov-Ribbentrop de 1939 foi tremendamente negativo. Por outro, o 23 de agosto de 1944 é positivo. Foi quando Sua Majestade ordenou a prisão de Antonescu e tirou a Romênia da guerra contra os Aliados. Historiadores concordam que sua ação corajosa de fato salvou a Romênia. Poderia nos falar daquele dia, 23 de agosto de 1944?
-A preparação para o 23 de agosto na verdade começou no fim de 1942. Apesar da ditadura de Antonescu, os partidos políticos tradicionais da Romênia – os chamados partidos históricos – foram relegados e não foram abolidos, e tínhamos muito contato com eles na Romênia. Além disso, os partidos e eu mandamos emissários para discutir com os Aliados em Ancara e no Cairo.
Enquanto o tempo passava estávamos ficando ressabiados, porque a situação no front estava fugindo do controle, e dizíamos a eles: “precisamos de ajuda, queremos sair dessa situação, mas não podemos fazer isso sozinhos”. Mais tarde eu fiquei sabendo que todos os apelos que mandávamos para os Estados Unidos e Inglaterra para nos ajudar, eram notificados aos russos. O que não era muito – como devo dizer – não vou dizer nada.
E isso prosseguiu por muito tempo, porque não conseguimos nem mesmo a menor ajuda. Sim, moralmente, talvez, mas isso em nada ajuda quando você está com a corda no pescoço. Então, quando finalmente a situação fugiu completamente do controle após Stalingrado, e os russos já se aproximavam da Bessarábia novamente, nós discutimos com os partidos políticos. Porque os ingleses e americanos viviam insistindo para que trouxéssemos os comunistas e os socialistas para nosso grupo, então fizemos isso.
E então, acidentalmente – é muito intrigante como a história faz as coisas – eu estava em Sinaia [residência real nas montanhas] na época, e então houve uma indiscrição do nosso médico – foi muito esquisito na época, mas foi como aconteceu, dois dias antes de 23 de agosto. Estávamos discutindo o que tínhamos que falar com Antonescu, e que tínhamos que pedi-lo que fizesse um armistício para encerrar a guerra, mas ainda tínhamos que decidir uma data exata. Finalmente decidimos que seria no dia 26 de agosto.
Nosso médico pessoal estava hospedando um dos oficiais de estado-maior de Antonescu na sua casa em Sinaia. O oficial recebeu uma chamada telefônica de Bucareste e, como a casa do médico tinha três telefones, o doutor acidentalmente pegou o telefone e escutou ao acaso uma conversa em que o oficial estava sendo informado que Antonescu estava partindo para o front em alguns dias. Veja como a história aconteceu! Então o médico veio correndo nos avisar: “Vejam, eu escutei que Antonescu irá para o front depois de amanhã!” Então todos entendemos que algo urgente tinha que ser feito. Eu imediatamente voltei para Bucareste e juntei todas as pessoas com as quais conversávamos e as informei.
E foi assim que decidimos agir em 23 de agosto. Decidimos que deveríamos chamá-lo para uma reunião para me explicar como as coisas estavam indo, e que os russos estavam no Dniester. Então tive uma reunião de duas horas com o chefe da minha casa militar, [o futuro primeiro-ministro] General Constantin Sanatescu, e acertamos os detalhes. Se Antonescu recusasse, iríamos prendê-lo.
Então, após muitas discussões, após eu perguntá-lo e pedir para que fizesse algo para encerrar a guerra, o General Sanatescu disse: “Se você não pode fazê-lo, então deixe outra pessoa fazer!”, e Antonescu virou-se para ele e disse, na minha frente: “O quê? Deixar o país nas mãos de uma criança?” Então finalmente, quando ele disse claramente que não se recusava a negociar um armistício, nós tínhamos um código, e eu disse bem alto: “Bem, eu sinto muito, mas não há mais nada que eu possa fazer!” E uma porta se abriu e três sargentos e um capitão entraram e o prenderam. Eles o trancaram numa sala no prédio.
-Qual foi a reação dele? Ele disse algo a alguém?
-Ele voltou-se para o General e disse: “O que é isso?” E então não disse mais nada, o trancamos.
-Existem relatórios que dizem que quando as notícias da prisão de Antonescu chegaram a Berlim, Hitler ordenou seu embaixador em Bucareste, Manfred von Killinger, que prendesse o senhor então. Sua ousada atitude poderia ter tido um fim diferente e doloroso para o senhor. O senhor estava ciente de que era um jogo de rapidez, e o jogador mais rápido ganhava a vantagem?
-Foi realmente muito rápido, porque tínhamos combinado com os comandantes da guarnição de Bucareste, onde tínhamos poucas tropas, e ainda conseguimos trazer soldados de fora da capital, e os instruímos, que caso algo acontecesse comigo, eles assumissem a situação. O que descobri mais tarde foi que Berlim tentou encontrar outro general romeno para controlar a situação em Bucareste e substituir Antonescu, mas não havia tal general. Eles eram todos leais a mim. O embaixador Killinger então veio ao palácio, mas ele não tentou me prender nem nada, apenas disse que eu estava brincando com fogo.
-Excelência, houve quem dissesse na Romênia que Antonescu era muitíssimo popular entre as tropas e no país, enquanto o senhor estava isolado. Mas o próprio fato de que essas tropas escolheram apoiá-lo, e não Antonescu, indica que fez a decisão correta aos olhos da história.
-Isso é, claramente, verdade, porque eu era o Comandante-em-Chefe do Exército, e já tinha tido contato com comandantes de grandes unidades na linha de frente. Ninguém, absolutamente ninguém, tentou libertar Antonescu.
CONTINUA...
Veja também:
>>Entrevista com o Rei Mihai I - Parte 1
>>Entrevista com Ion Dobran - Parte 1, Parte 2
>>Nota de Falecimento: Boris Capbatut
>>Ion Dobran
>>Evento: Dia da Aviação na Romênia 2009





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