Livro: O Outro Lado da Colina
O Outro Lado da Colina
A história militar da Segunda Guerra Mundial sob os olhos dos generais alemães - uma obra clássica.
por Júlio César Guedes Antunes
Nenhum relato de evento histórico pode ser tão prejudicado pela parcialidade quanto o relato de um confronto militar, e esta regra se aplica com feroz precisão no caso do maior de todos os conflitos humanos: a Segunda Guerra Mundial. Desde que começou-se a escrever história militar, os historiadores dessa vertente dividem-se em duas classes: os que participaram do ato em si, e os que pesquisaram a documentação original e testemunhos gerados pelo conflito.Quanto à Segunda Guerra Mundial, historiadores clássicos como Kenneth Macksey, Vassily Grossman e Cornelius Ryan encaixam-se na primeira categoria; já Antony Beevor, Stephen Ambrose e David Glanz são representantes da outra categoria. Poderia-se esperar que o relato de um historiador que esteve presente nas fileiras dos exércitos e conferiu a ação em primeira mão pudesse fornecer um retrato mais fiel dos acontecimentos; contudo, o sentimento patriótico, por menor que seja, e a escolha de uma palavra em detrimento de outra, pode mudar todo o cenário de uma batalha. Todavia, podemos concordar que o fator de maior peso nessa balança é justamente o desconhecimento do que se passa “no outro lado da colina”, ou seja, nas mentes e nas ações do inimigo.
Sir Basil Liddell Hart, um veterano da Primeira Guerra Mundial e proeminente correspondente de guerra, teve uma oportunidade única de explorar este campo desconhecido, ao conseguir autorização do alto-comando inglês para entrevistar os oficiais generais alemães que estavam sob sua custódia ao fim das hostilidades em 1945. Desta forma, o livro O Outro Lado da Colina (“The Other Side of the Hill”) apresenta uma coletânea de testemunhos destes homens, com suas lembranças ainda intactas e não afetadas por considerações que inevitavelmente apareceriam nos anos do pós-guerra.
O livro se faz uma obra clássica da historiografia militar, tendo sido publicado inicialmente em 1948. O autor monta uma narrativa cronológica que começa no período transitório do poder na Alemanha, entre 1932 e 1933, época em que Hitler ascendeu ao poder. Nas palavras dos generais, fica patente a personalidade e herança do militar prussiano, que obedece ao estado e vê no protesto uma atitude incabível com sua posição. Contudo, Liddell Hart mostra-se surpreso ao perceber que, ao contrário do que pensava, nenhum daqueles homens era o fanático e inflexível guerreiro que esperava. A relação de Hitler com seus generais era mais complicada e difícil do que se imaginava. Se por um lado, eles fizeram vista grossa aos atos criminosos levados a cabo nos territórios ocupados, fica óbvio que a escala de atrocidades teria sido muito maior se tais ordens criminosas não tivessem sido ignoradas ou modificadas por eles próprios.
Liddell Hart foi capaz de traçar um relato de toda a guerra, graças à pluralidade das personalidades por ele entrevistadas. O Marechal-de-Campo Gerd von Rundstedt, comandante do Grupo de Exércitos A durante a invasão da França e Bélgica em 1940, relata que apenas obedeceu a ordens superiores quando parou seus tanques nos arredores do porto belga de Dunquerque, o que acabou permitindo a fuga do exército inglês pelo Canal da Mancha. Rundstedt, que era o comandante militar da área, fora julgado o responsável pela ordem (juntamente com Hitler) durante o decorrer da guerra pelos Aliados, mas o livro revela, através dele próprio e do General Walter Warlimont (chefe de operações no Quartel-General Supremo), que a ordem de parada viera de Hitler, e não de Rundstedt. O Führer pretendia, ao deixar os ingleses escaparem, tentar uma aproximação com o governo de Londres, e preparar o terreno para as negociações de paz. Warlimont também relata que o Marechal Hermann Goering assegurara a Hitler que sua Força Aérea poderia, sozinha, dar cabo dos ingleses no porto, não havendo assim necessidade de envolver os tanques na luta.
Os tanques, que passaram a ser as peças principais no campo de batalha na Segunda Guerra Mundial, desempenharam papel fundamental para a assombrosa vitória alemã sobre a França em 1940. Liddell Hart entrevistou o criador da doutrina alemã de uso de tanques, General Heinz Guderian. Guderian, desde meados da década de 1930, advogava o uso tático dos tanques como pontas-de-lança, ao invés de escoltas de infantaria. Ao coordenar os tanques com a aviação de ataque, e utilizar tal combinação no arrojado plano ofensivo concebido pelo Marechal-de-Campo Erich von Manstein, os alemães obtiveram um resultado impressionantemente positivo sobre franceses e ingleses, deixando-os sem possibilidade de reação. Guderian explica no livro de forma ágil e compreensiva os passos que levaram à rápida conquista da França.
A relação de Hitler com a Inglaterra e a relutância dele em tentar uma invasão pelo Canal sempre foi alvo de discussão por historiadores militares nos últimos 60 anos. Em O Outro Lado da Colina, Rundstedt explica os pormenores da planejada invasão, batizada de “Operação Leão Marinho”, que nunca tornou-se realidade. Tal relato joga luz sobre a então perene dúvida da real existência do plano.
Os alemães foram inovadores nos primeiros anos da guerra, não somente no uso de tanques e aviação de ataque, mas também introduzindo o uso de paraquedistas de combate. O homem responsável pela criação de tal força, tão bem sucedida na captura da fortaleza belga de Eben-Emael em 1940, General Kurt Student, dá a Liddell Hart um esclarecimento que modifica, sob certos aspectos, a visão geral da Operação Mercúrio, a invasão aeroterrestre da ilha de Creta, então sob posse dos ingleses, em maio de 1941. A altíssima taxa de baixas entre os paraquedistas convenceu Hitler a nunca mais usá-los em saltos ofensivos, convencido de que tais tropas haviam perdido sua capacidade de surpresa. Como provaria a importância dos massivos saltos de paraquedistas Aliados no Dia-D em 1944, Hitler estava errado. E Kurt Student explica que, ao visitar o campo de batalha de Creta logo após os combates, descobriu que os ingleses haviam capturado um manual de operações dos paraquedistas alemães na Holanda em 1940, sabendo de antemão como eles saltariam e a melhor forma de liquidá-los antes de chegarem ao solo. Daí a razão de tantas baixas.As clássicas manobras de tanques nos combates do Norte da África são explicadas Wilhelm Ritter von Thoma, vice-comandante do Marechal Erwin Rommel. Thoma deixa patente as extremas dificuldades que os alemães enfrentaram com o alongamento das linhas de suprimento, e a insuficiência de meios para impor uma vitória decisiva aos ingleses naquele teatro de operações. Por outro lado, Thoma explica as pouco ortodoxas táticas que Rommel utilizou no deserto para ludibriar os ingleses, obtendo vitórias apelando para o psicológico ao invés da força bruta.
Entretanto, a questão principal a ser tratada na obra não poderia deixar de ser as relações da Alemanha com a União Soviética, e o que levou as duas potências a entrar em guerra entre si. De acordo com Rundstedt e o General Günther Blumentritt, Hitler insistira nas intenções russas de atacar a Alemanha ainda em 1941. Seu ataque seria, assim, uma ofensiva preventiva. Rundstedt, contudo, disse que encontrou pouca ou nenhuma evidência de preparativos russos para uma ofensiva, quando seu Grupo de Exércitos Sul invadiu a região da Ucrânia. O plano de Hitler, aceito com muita relutância pelo Alto-Comando, previa a destruição do exército soviético a oeste do rio Dnieper, em operações de cerco utilizando tanques. Quando esse objetivo mostrou-se impossível de ser cumprido, ele seguiu o erro de Napoleão e ordenou uma penetração mais profunda no território russo. Guderian também volta à cena neste ponto, relatando que fez tudo ao seu alcance para convencer Hitler a cancelar sua ordem de desviar os tanques do eixo de ataque de Moscou para a Ucrânia. De acordo com Guderian, tivessem os tanques continuado em sua ofensiva original, Moscou poderia ter sido atingida em setembro, e não em fins de novembro, já com o inverno a pleno. A insistência de Hitler em não recuar suas tropas para formar uma linha defensiva durante o inverno possibilitou aos soviéticos montar uma ofensiva que desmontou todo o centro das posições alemãs, impossibilitando a retomada dos ataques naquele setor em 1942.
Como única saída, Hitler somente pôde continuar com a ofensiva no setor sul, avançando através do rio Don contra Stalingrado. O Marechal Ewald von Kleist e o General Blumentritt explicam que a situação da ofensiva alemã no sul da União Soviética em 1942 já parecia condenada ao fracasso desde o início. Kleist relata a dificuldade extrema na obtenção de suprimentos, e Blumentritt conta que a dualidade de objetivos foi o que causou o fracasso e possibilitou os russos de realizarem o cerco do 6º Exército alemão em Stalingrado.
Com as derrotas somando-se e a perspectiva de ver a Alemanha destroçada pelo esforço conjunto dos Aliados, alguns generais alemães iniciaram um complô para assassinar Hitler. O atentado contra sua vida em 20 de julho de 1944, contudo, falhou. Os Aliados já haviam desembarcado na França, e Rundstedt e Blumentritt falam sobre a inevitável derrota que se estabelecia naquela frente, enquanto Hitler emitia constantes ordens de não-recuo. À medida que o terreno sob controle alemão diminuía, as atitudes do Führer iam se tornando cada vez mais irrealistas, como a ordem de realizar um ataque durante o inverno contra as posições americanas na floresta das Ardenas. O General Hasso von Manteuffel, exímio comandante de tanques, explica que Hitler esperava que seus exércitos conseguissem repetir os feitos de 1940, mas com efetivos extremamente debilitados e contra inimigos muito mais preparados. Manteuffel, ele mesmo um dos comandantes da operação, relata as dificuldades da movimentação de tanques na neve, e a falta crônica de combustível que paralisou o ataque alemão.
Por fim, Liddell Hart dedica todo um capítulo às considerações que Manteuffel faz da pessoa de Hitler. Manteuffel fora promovido ao generalato durante a guerra, e era um dos poucos generais que Hitler pedia por conselhos e escutava opiniões. Ele conferenciara com Hitler mais do que qualquer outro general no ano de 1944. Manteuffel descreve Hitler como um homem de personalidade marcante, que podia facilmente influenciar aqueles que se aproximavam dele. Assim ele explica que muitos generais iam ao seu encontro para protestar contra alguma ordem, mas ele acabava por convencê-los do seu ponto de vista. Hitler também era, de acordo com Manteuffel, obcecado por números. Constantemente recorria às tabelas de produção das fábricas de armamento para calcular a força de seus exércitos, mas como o próprio Manteuffel disse “não levava em consideração que tais efetivos ainda deviam ser levados à linha de frente”.
O Outro Lado da Colina permanece uma obra de grande importância para o estudo da Segunda Guerra Mundial. Historiadores têm concordado que o livro é uma referência clássica, colocando reservas apenas na forma em que Liddell Hart aparenta querer aumentar sua importância na criação da doutrina de uso de tanques cunhada por Heinz Guderian. Salvaguardando tais sugestões de Liddell Hart, a obra é de validade inquestionável.
Veja também:
>>Livro: Quero Matar Hitler
>>Livro: Mussolini e a Ascensão do Fascismo
>>Livro: O Zoológico de Varsóvia
>>Livro: As Benevolentes
>>Livro: A Espada da Honra





0 comentários:
Postar um comentário