Herói de guerra foi destratado por De Gaulle
Herói de guerra foi destratado por De Gaulle
Saltando de paraquedas atrás das linhas inimigas numa missão para treinar partisans franceses, ele foi um herói da Segunda Guerra Mundial.
O Capitão Peter Lake treinou dezenas de Maquis – partisans da zona rural – em sabotagem e guerrilha, sendo condecorado por franceses e ingleses.
Então, quando Lake finalmente foi conhecer o General Charles De Gaulle – líder dos Franceses Livres – ele poderia esperar pelo menos uma calorosa receptiva. O que ele conseguiu uma distinta decepção.
De Gaulle – cujo país tinha somente acabado de ser liberado por pessoas como Lake – questionou o porquê do oficial inglês estar na França e, em termos bastante diretos, disse que “fosse para casa”.
Detalhes desta desfeita bastante gálica foram recentemente revelados em documentos do Arquivo Nacional em Kew, no sudoeste de Londres. Uma descrição do encontro em setembro de 1944, apenas três semanas após a liberação da França, foi escrita por Lake apenas alguns dias depois. Ele descreveu a inquietude dos oficiais franceses, ansiosos por prestar seus respeitos ao General, recém-apontado presidente do governo provisório.
O Sr. Lake e outro oficial inglês decidiram juntar-se aos franceses que visitavam a cidade de Saintes, no sudoeste da França, “com o mesmo objetivo”. Ele observou que seria perfeitamente natural para oficiais Aliados serem apresentados ao General visitando o local.
Mas ao contrário, De Gaulle – agora notório por ser uma pessoa teimosa que em inúmeras vezes entrou em choque com Winston Churchill – desapareceu por trás de portas fechadas com os oficiais franceses para discutir assuntos militares do setor. Lake notou, com apenas um toque de ironia, que “esta não era uma situação que desconhecíamos por completo”.
Cerca de uma hora depois, o General voltou e foi apresentado a Lake, que era conhecido pelo nome de guerra “Jean-Pierre Lenormand” e falava francês fluentemente. Sua breve conversa não começou no mais promissor dos tons, quando De Gaulle disse: “Jean-Pierre, este é um nome francês”.
Ele estava, claro, dizendo o óbvio, já que Lake tinha-o adotado como nome de guerra. Em seguida o General disse: “O que você está fazendo aqui?”, no que Lake respondeu com compostura, que estava numa missão inter-Aliada em Dordogne.
De Gaulle continuou, com ênfase no “o que”: “mas ‘o que’ você está fazendo aqui?”
Lake respondeu: “estou treinando certas tropas para operações especiais”. As notas de Lake descrevem respondendo: “nossas tropas não precisam de treinamento. Você não tem o que fazer aqui”.
“Eu obedeço ordens superiores”, disse Lake.
Após repetir que o oficial “não tinha o que fazer ali”, ele fechou a conversa dizendo: “Não precisamos de você aqui. Só resta a você partir... Você deve ir para casa. Vá, vá logo. Au revoir”.
O sempre educado Lake terminou com um sucinto: “Oui, mon General”.
Escrevendo seu relatório do encontro, o oficial inglês disse: “todo o diálogo se passou muito rapidamente e num de voz que não havia erro. Eu estava tão surpreso que devo confessar que não fui capaz de responder inteligentemente, e acredito que a maioria dos presentes teve a mesma reação”.
O Sr. Lake retornou à Inglaterra no mês seguinte, mas o incidente não afetou sua reputação entre seus oficiais superiores. Um relatório oficial o aponta como “modesto, responsável, mas possui autoridade considerável”, e nota: “seu encontro com De Gaulle mostrou que ele é um bom diplomata, sensato e inteligente”. Ele ganhou muitas medalhas, incluindo a Croix de Guerre francesa.
Lake saltou sobre a França em Dordogne em abril de 1944, para dirigir a guerrilha contra os alemães nos dias anteriores ao Dia-D. Ele imediatamente começou a treinar membros dos Maquis, que inicialmente era composto de veteranos da Guerra Civil Espanhola.
Em relatórios ele lembra-se como, nas primeiras surtidas em solo, os combatentes franceses se “armavam como piratas, comportavam-se como piratas e esperavam que eu fizesse o mesmo”.
Ele organizou uma “escola noturna” para os partisans, ensinando sabotagem e guerrilha, enquanto aproximava-se a invasão. Após os desembarques, a situação tornou-se “muito precária”, já que os alemães ampliaram os ataques à Resistência.
Mas no meio de junho ele executou uma audaciosa operação para destruir o eixo ferroviário principal entre Perigueux e Coutras, explodindo 500 metros de trilhos em 12 pontos. Após a guerra, Lake teve uma bem-sucedida carreira com o serviço consular.
Ele ficou profundamente desapontado com o tratamento recebido de De Gaulle.
Mas alguns anos depois, quando era cônsul no Brasil, os dois se encontraram numa recepção. Desta vez, De Gaulle cumprimentou Lake de maneira extremamente educada, e a desfeita inicial foi perdoada.
O herói faleceu em junho deste ano, aos 94 anos.
Fonte: The Daily Mail, 28 de outubro de 2009.
O Capitão Peter Lake treinou dezenas de Maquis – partisans da zona rural – em sabotagem e guerrilha, sendo condecorado por franceses e ingleses.Então, quando Lake finalmente foi conhecer o General Charles De Gaulle – líder dos Franceses Livres – ele poderia esperar pelo menos uma calorosa receptiva. O que ele conseguiu uma distinta decepção.
De Gaulle – cujo país tinha somente acabado de ser liberado por pessoas como Lake – questionou o porquê do oficial inglês estar na França e, em termos bastante diretos, disse que “fosse para casa”.
Detalhes desta desfeita bastante gálica foram recentemente revelados em documentos do Arquivo Nacional em Kew, no sudoeste de Londres. Uma descrição do encontro em setembro de 1944, apenas três semanas após a liberação da França, foi escrita por Lake apenas alguns dias depois. Ele descreveu a inquietude dos oficiais franceses, ansiosos por prestar seus respeitos ao General, recém-apontado presidente do governo provisório.
O Sr. Lake e outro oficial inglês decidiram juntar-se aos franceses que visitavam a cidade de Saintes, no sudoeste da França, “com o mesmo objetivo”. Ele observou que seria perfeitamente natural para oficiais Aliados serem apresentados ao General visitando o local.
Mas ao contrário, De Gaulle – agora notório por ser uma pessoa teimosa que em inúmeras vezes entrou em choque com Winston Churchill – desapareceu por trás de portas fechadas com os oficiais franceses para discutir assuntos militares do setor. Lake notou, com apenas um toque de ironia, que “esta não era uma situação que desconhecíamos por completo”.
Cerca de uma hora depois, o General voltou e foi apresentado a Lake, que era conhecido pelo nome de guerra “Jean-Pierre Lenormand” e falava francês fluentemente. Sua breve conversa não começou no mais promissor dos tons, quando De Gaulle disse: “Jean-Pierre, este é um nome francês”.
Ele estava, claro, dizendo o óbvio, já que Lake tinha-o adotado como nome de guerra. Em seguida o General disse: “O que você está fazendo aqui?”, no que Lake respondeu com compostura, que estava numa missão inter-Aliada em Dordogne.
De Gaulle continuou, com ênfase no “o que”: “mas ‘o que’ você está fazendo aqui?”
Lake respondeu: “estou treinando certas tropas para operações especiais”. As notas de Lake descrevem respondendo: “nossas tropas não precisam de treinamento. Você não tem o que fazer aqui”.
“Eu obedeço ordens superiores”, disse Lake.
Após repetir que o oficial “não tinha o que fazer ali”, ele fechou a conversa dizendo: “Não precisamos de você aqui. Só resta a você partir... Você deve ir para casa. Vá, vá logo. Au revoir”.
O sempre educado Lake terminou com um sucinto: “Oui, mon General”.Escrevendo seu relatório do encontro, o oficial inglês disse: “todo o diálogo se passou muito rapidamente e num de voz que não havia erro. Eu estava tão surpreso que devo confessar que não fui capaz de responder inteligentemente, e acredito que a maioria dos presentes teve a mesma reação”.
O Sr. Lake retornou à Inglaterra no mês seguinte, mas o incidente não afetou sua reputação entre seus oficiais superiores. Um relatório oficial o aponta como “modesto, responsável, mas possui autoridade considerável”, e nota: “seu encontro com De Gaulle mostrou que ele é um bom diplomata, sensato e inteligente”. Ele ganhou muitas medalhas, incluindo a Croix de Guerre francesa.
Lake saltou sobre a França em Dordogne em abril de 1944, para dirigir a guerrilha contra os alemães nos dias anteriores ao Dia-D. Ele imediatamente começou a treinar membros dos Maquis, que inicialmente era composto de veteranos da Guerra Civil Espanhola.
Em relatórios ele lembra-se como, nas primeiras surtidas em solo, os combatentes franceses se “armavam como piratas, comportavam-se como piratas e esperavam que eu fizesse o mesmo”.
Ele organizou uma “escola noturna” para os partisans, ensinando sabotagem e guerrilha, enquanto aproximava-se a invasão. Após os desembarques, a situação tornou-se “muito precária”, já que os alemães ampliaram os ataques à Resistência.
Mas no meio de junho ele executou uma audaciosa operação para destruir o eixo ferroviário principal entre Perigueux e Coutras, explodindo 500 metros de trilhos em 12 pontos. Após a guerra, Lake teve uma bem-sucedida carreira com o serviço consular.
Ele ficou profundamente desapontado com o tratamento recebido de De Gaulle.
Mas alguns anos depois, quando era cônsul no Brasil, os dois se encontraram numa recepção. Desta vez, De Gaulle cumprimentou Lake de maneira extremamente educada, e a desfeita inicial foi perdoada.
O herói faleceu em junho deste ano, aos 94 anos.
Fonte: The Daily Mail, 28 de outubro de 2009.
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