Entrevista com Fritz Langanke
Tanquista da Waffen-SS
Tanquista da Waffen-SS
-Claramente, a pressão aumentava. Como manteve o grupo junto?-Eu tinha que mudar a situação de alguma forma. Nós demos partida no motor, viramos para a direita e atingimos uma cerca, sem ligar para os danos ao nosso sistema de direção e caixa de marchas. Atrás da cerca havia uma plantação na qual podíamos nos esconder. Os aviões metralharam e bombardearam aquela área por um tempo, mas então perderam o interesse e se foram. Logo depois, um soldado veio e nos disse que perto dali, numa casamata numa fazenda, estavam um comandante de um regimento de infantaria e 10 ou 12 oficiais. Eu presumi que eles estavam planejando que ação tomar em seguida para cruzar a estrada Hambye-Roncey e continuar a retirada. Eu disse à minha tripulação que correria até lá para ver como poderíamos nos juntar a esse grupo. Ainda perto do meu tanque, eu recebi uma explosão de fogo de artilharia. Granadas caíram por todos os lados ao meu redor. Eu me joguei no chão e comecei a esgueirar-me em ziguezague. Foi quando me desesperei. Quando recuperei o controle, tive certeza de que minha tripulação não havia me visto. Provavelmente, não existe camaradagem mais próxima e irrestrita do que numa tripulação de tanque que tem que viver e lutar junta, atravessando tempos realmente difíceis. Se eles me vissem engatilhando, aqueles bons rapazes me perguntariam – de forma amistosa, é claro – que tipo de insetos eu estava tentando capturar ou qualquer bobagem do tipo.
-Quando recuperou a compostura, o senhor continuou até a fazenda?
-Cheguei à casamata, prestei continência e reportei-me ao comandante regimental, pedindo ordens. Ele não tinha ordens pra mim, e eu deixei o abrigo. Pelas próximas duas ou três horas, eu estava bastante ocupado. Corri de volta uns 200 ou 300 metros pela estrada procurando veículos de nossa força-tarefa e outros. A maioria dos homens que havia abandonado seus veículos já estava de volta. Encontrei dois Panthers operacionais e um Panzerkampfwagen IV. Com eles fui capaz de mover obstáculos suficientes para que nossos meia-lagartas e veículos de rodas pudessem passar. Formamos uma grande coluna. Eu disse aos que estavam comigo que, quando viesse a noite, poderíamos romper o bloqueio. Eu reportei isso ao comandante regimental e chequei novamente duas ou três vezes. Ele finalmente me disse que não fizesse qualquer barulho e esperasse. Ele iria, sob a cobertura da escuridão, penetrar silenciosamente pelo bloqueio americano com sua infantaria e os desgarrados, sem atirar. Eu achei que ele estivesse brincando comigo, porque isso não fazia sentido.
-Parece que aquele oficial tinha perdido seus nervos.
-Pouco depois do nosso último encontro, alguns paraquedistas veteranos vieram e me disseram: “Pobre de você. Você é o único por aqui que não sabe o que está acontecendo. Aqueles caras não planejam nada. Eles vão se render”. Me senti envergonhado por minha estupidez. Voltei à casamata e disse que partiria com minha coluna às 22h naquela noite, e que fossem para o inferno. Então dois oficiais vieram ao meu tanque. Um deles, um major, era o comandante de um batalhão de canhões de assalto, e o outro era seu ajudante. Eles tinham camuflados dois dos seus veículos em uma trilha próxima. Eles me perguntaram se poderiam se juntar à nossa coluna. Na hora eu já tinha desistido de imaginar porque um oficial daquela patente perguntaria a um líder de pelotão, que nem mesmo era um oficial, se ele poderia se juntar, ao invés de tomar o comando. Eu então levei meu tanque de volta à estrada e abri duas passagens pelas cercas no lado esquerdo, para que flanqueássemos a grande peça de artilharia e outros veículos destruídos na nossa frente. Numa tentativa de mover ou destruir os veículos ao lado da estrada, um dos meus Panthers quebrou a suspensão e teve que ser abandonado.
-Que outras preparações o senhor fez para sua esperada ruptura?
-Eu montei uma formação em marcha. Primeiro meu tanque com granadeiros do lado esquerdo e cerca de 50 ou 60 paraquedistas do lado direito como proteção contra combate próximo e bazucas. Então os dois canhões de assalto, os veículos de rodas de nossa força-tarefa, diversos desgarrados, armas de infantaria auto-propulsada e a unidade móvel de flak. A retaguarda era protegida pelo Panzer IV e meu outro Panther. Estabeleci uma freqüência para nossa comunicação via rádio e às 22h nos começamos. Claro, não havia batedores à nossa frente.
-Os outros três Panthers do seu pelotão já tinham sido destruídos?
-Não. O segundo Panther que tomou parte na ruptura era o único que restava do meu pelotão. O nome de seu comandante era Panzer. Soa tão engraçado! Os outros Panthers ficaram presos no tráfego ou tiveram falhas mecânicas. No lado direito uma fazenda estava em chamas. Na luz ondulante eu pensei ter visto um Sherman no campo ao lado. Disparamos duas vezes e o atingimos, mas ele não se incendiou. Então eu dirigi a toda velocidade pela estrada Hambye-Roncey, onde esperava encontrar pesada resistência americana e, se me lembro corretamente, passamos sobre uma arma antitanque. Eu atirei na trilha que levava à estrada principal do outro lado e então paramos. Passando o cruzamento, eu vi dois Shermans à minha direita, dispostos em ângulos retos, com suas torres passando por cima das cercas. Agora tinha percebido que eram as metralhadoras que tinham atirado nos nossos paraquedistas quando começamos a nos mover, ferindo alguns deles. Tínhamos que ser rápidos para usar o efeito-surpresa, então ordenei que os canhões de assalto viessem ao cruzamento, virassem à direita e destruíssem os dois tanques que estavam com as laterais expostas. Eles hesitaram e começaram a debater. Fiquei enfurecido. Virei minha torre e disse que fossem imediatamente, ou os explodiria. Eles foram, viraram à direita e não tiveram problemas em destruir os tanques americanos. Eu então prossegui à frente.
Do meu lado direito havia um campo aberto com uma cerca tangenciando-o. Ao longo dessa cerca, um número de veículos blindados estava estacionado, em direção à estrada principal. Eu tive sorte. Atingimos o último, provavelmente um carregador de munição, e foi como fogos de artifício numa festa de verão. A munição traçante de cores diferentes foi uma visão espetacular. Toda a área foi iluminada, e eu pude facilmente escolher outros quatro ou seis desses meia-lagartas blindados. Eu não me lembro o número exato. Com tudo isso, um grande número de soldados de infantaria que estavam atrás de nós na estrada norte-sul encorajaram-se e juntaram-se a nós. Eles fizeram isso de maneira não-militar, aos gritos e vivas, atirando para cima. A princípio fiquei pasmo, mas então percebi que foi muito útil. Os americanos pareciam completamente surpresos e mesmo chocados. Eles abandonaram muitos veículos, que foram tomados pelos alemães, e praticamente não houve mais resistência.
Eu avancei mais, e talvez uns 150 metros à minha frente veio um tanque americano na minha direção, da direita vindo para a estrada. Queríamos pará-lo, e então aconteceu aquilo que toda tripulação de tanque teme – você aperta o gatilho e a arma não dispara. Já pensando que era nosso fim, eu me virei e tive um choque ainda maior. Do sul, quatro tanques americanos vinham da estrada que cruzava com a nossa, que vinha de Valtolaine. Eles então deram a volta e desapareceram a toda velocidade. Eu novamente olhei para frente. Aquele tanque vinha tão rápido quando atingiu a estrada que não conseguiu parar a tempo e ficou preso numa vala ao lado. Somente com muito esforço ele conseguiu sair, virar e fugir. Estávamos lá sentados no nosso Panther, não somente ilesos como também sem acreditar no que acontecera.
-Parece que as coisas estavam dando certo para o senhor.
-A coluna que tínhamos formado inicialmente tinha uns 300 homens. Agora já tinha o dobro desse número. Enquanto avançávamos, nosso progresso foi ficando mais fácil devido a um número de veículos Aliados capturados. Alguns desgarrados juntaram-se a nós, enquanto outros se separaram e decidiram seguir caminhos diferentes. Éramos um bando muito misto. Eu achei que combate aconteceria nessa área de interseção, que parecia ser mais do que um mero bloqueio rodoviário. Eu ordenei que o outro Panther tomasse a frente, e fui para a retaguarda. As comunicações por rádio ainda funcionavam, e começamos nossa caminhada sem rumo. Inicialmente atingimos Lengronne, então continuamos para Cacrences, cruzamos o rio Sena e chegamos a Gavray.
-O que encontrou em Gavray?
-Quando chegamos à cidade, estava sob fogo. Aqui nossa coluna se misturou com um número de outros veículos. Do lado de fora da cidade nos continuamos sem perdas e viramos para St. Denis-le-Gast, mas antes de chegar lá deixamos a estrada e fomos em direção à ponte em Baleine. Enquanto nos aproximávamos, nosso movimento quase parou. Eu sai para fora da torre do Panther para checar a razão. Fogo de artilharia, que continuava esporadicamente, ou bombardeio, tinham danificado a ponte, cujos lados estavam parcialmente destruídos. Os motoristas relutavam em atravessá-la. Eu então olhei ao redor, organizei a aproximação da ponte e conduzi cada veículo por ela. Quando nosso tanque cruzou, como o último veículo, somente metade das esteiras encontravam apoio em alguns lugares. No lado sul do rio, sinais táticos de um monte de unidades tinham sido instalados, e a coluna se dissolveu. A maioria agora sabia para onde ir. Minha missão auto-apontada fora encerrada. Já era pleno dia agora, e os primeiros aviões apareceram. Dirigimos-nos a uma trilha que levava a uma colina, e na primeira fazenda com plantações nós paramos. Eu disse à tripulação que agora tiraríamos uma boa soneca após três noites quase completamente sem sono. Fomos para baixo do tanque e nos perdemos do mundo ao redor. Era meio-dia quando acordamos, e estávamos sozinhos.
-O que aconteceu com o outro Panther do seu pelotão, o tanque do comandante Panzer?
-Panzer seguiu com os veículos da Deustchland e chegou ao regimento. Minha tripulação e eu não conseguimos continuar após a travessia do rio, estávamos completamente exaustos. O motorista e o artilheiro caíram no sono diversas vezes durante nossa ruptura, e eu também não tinha mais forças. Quando consegui atravessar todos os veículos pela ponte – que foi uma tarefa bestial, com gritos, xingos e ameaças – minha energia se esgotara. Física e mentalmente eu estava acabado, não dava pra continuar, tínhamos que dormir um pouco. Foi por essa razão que paramos na plantação.
-O que aconteceu quando finalmente acordaram?
-A 100 metros de distância eu vi outro Panther do lado direito da trilha que vinha até nós. Do lado esquerdo outra trilha cruzava com a nossa. Por lá, os americanos devem ter subido a colina, porque o Panther estava destruído. Tinha um buraco na torre.
-Esse Panther tinha sido destruído antes do senhor ir dormir?
-Não sei, mas não posso acreditar que os americanos já estavam lá quando chegamos à fazenda. Eu andei através do campo pela esquerda e encontrei alguns soldados alemães. Eles me disseram que já havia diversas tropas americanas no vale, e já conseguíamos ouvi-los também. Voltei e então tivemos uma tarde muito tensa. O céu estava cheio de aviões. Eu corria uns 50 ou 100 metros à frente, olhava a direção do voo de vários grupos de aeronaves, dava o sinal quando era favorável para nos movermos, e então o tanque se movia para essa nova posição. Algumas horas depois, pouco antes de escurecer, encontramos uma coluna de suprimentos da nossa divisão, e então pudemos reabastecer com um pouco de combustível. Nessa área os americanos deviam estar presentes, porque não havia aviões sobrevoando. Tínhamos perdido um conjunto de rodas devido ao fogo de artilharia, e os inimigos tinham danificado diversos elos das esteiras. Com uma carga de 1 kg de explosivos conseguimos explodir a parte danificada e por sorte não danificar o restante da esteira e da suspensão. Durante a noite perdemos completamente nossa direção. Pela manhã chegamos a Beauchamps. Então encontramos um sinal rodoviário que dizia que estávamos a somente 15 km de Granville. Isso deu-nos de volta nossa orientação. Viramos e observamos ao redor de Villedieu-les-Poêles, evitamos colunas americanas diversas vezes nas estradas ao sul dessa cidade, viramos para o norte, então para leste e nos reportamos de volta ao nosso regimento na noite de 31 de julho para 1 de agosto, na área de Percy. O comandante regimental já tinha escutado sobre nossa ação e estava bastante feliz em nos ver, ainda mais porque agora ele tinha mais um tanque operacional. Antes da noite passar já estávamos a caminho de outro bloqueio rodoviário.
Por suas ações, que garantiram que centenas de soldados e seu equipamento conseguissem escapar do Bolsão de Roncey, Fritz Langanke foi recomendado para a Cruz do Cavaleiro em 7 de agosto de 1944. Ele recebeu a condecoração em 27 de agosto de 1944.
Fonte: World War II Magazine, novembro de 2003.
Veja também:
>>Entrevista com Fritz Langanke - Parte 1
>>Entrevista com Adolf Galland - Parte 1 , Parte 2
>>Entrevista com Ion Dobran - Parte 1, Parte 2
>>Entrevista com James Edmundson - Parte 1 , Parte 2
>>Entrevista com o Rei Mihai I - Parte 1, Parte 2, Parte 3
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