Culto à Carga sobrevive no Pacífico Sul
Na base de um vulcão sagrado num canto isolado do Pacífico Sul, jovens tocam o hino nacional americano em flautas de bambu.Todo mês de fevereiro eles desfilam em velhos uniformes do Exército Americano com armas de madeira. Outros ficam sem camisa, com as letras “USA” pintadas em vermelho brilhante pelo corpo.
Perto dali, uma grande bandeira americana tremula ao vento presa no mastro principal da aldeia.
Este é o coração da terra de John Frum na ilha de Tanna, no arquipélago de Vanuatu. Os nativos de Sulphur Bay veneram uma figura mística que, acreditam, um dia os trará riqueza e felicidade.
Tempos de turbulência
“John é nosso deus”, declara o chefe do vilarejo Isaac Wan, que bate com os punhos no solo para enfatizar suas palavras. “Um dia ele voltará”, ele diz.Os crentes estão convencidos de que John Frum era um americano. O nome pode ter vindo dos soldados da Segunda Guerra, que se apresentavam como “Jon from America”.
Os devotos dizem que o espírito de um místico homem branco apareceu pela primeira vez para os anciãos da tribo na década de 30. Ele os urgiu a rebelar-se contra os ensinamentos agressivos dos missionários cristãos e a influência dos mestres coloniais ingleses e franceses em Vanuatu. A aparição disse aos nativos para fazer tudo que pudessem para reter suas próprias tradições.
O antropólogo Ralph Reganvalu disse que a seita é um “movimento de preservação cultural” que nasceu durante uma época de turbulência.
“Houve todo um período na história conhecido com Lei de Tanna, onde os missionários impunham uma série de regras sobre o que o povo não deveria fazer, e o movimento emergiu devido a esta opressão”, ele diz.
Homenagem aos EUA
A Segunda Guerra Mundial e a chegada de tropas americanas a Vanuatu foi um momento decisivo para o movimento. Eles agora tinham um nome para sua guia espiritual. Ele era John Frum.Os nativos acreditam que seu messias foi o responsável pela generosa entrega de muitos presentes do Exército Americano. Eles ficaram estupefatos pelos carregamentos militares de tanques, armas, refrigeradores, comida e remédios.
O dia de John Frum é comemorado anualmente em 15 de fevereiro, e culto celebrou seus 50 anos de existência oficial em 2007. Também comemora o dia em que a bandeira americana foi levantada na aldeia pela primeira vez.
Através dessa homenagem aos EUA, os nativos acreditam que seu salvador etéreo seja encorajado a retornar.
“É um pouco esquisito, mas me dá um sentimento bastante patriótico”, diz Marty Meth, um executivo aposentado de Nova York que viajou até Tanna para ver as festividades.
“É muito bom ver que os americanos são bem-vindos aqui, já que em muitos lugares do mundo não somos bem-quistos atualmente”, ele acrescenta.
Esperando com esperança
Sulphur Bay fica à sombra do Monte Yasur, um vulcão ativo cujo rugido pode ser escutado de muito longe. Muitos seguidores de John Frum acreditam que seu espírito vive nas profundezas do vulcão. De tempo em tempo o vulcão ruge.Observar e escutar na borda da cratera é tão excitante quando assustador. Um som gutural é seguido por uma explosão de rochas que voam alto para o céu. Essas agitações são um lembrete constante aos nativos de que o espírito de John Frum permanece potente como sempre.
Cerca de 20% da população de 30.000 pessoas em Tanna segue os ensinamentos de um dos últimos “cultos às cargas” no mundo. Outros moradores mal conseguem disfarçar sua insatisfação com isso.
Um trabalhador da juventude cristã disse que o culto é “infantil”. “São como bebês brincando com jogos”, ele insiste. “Aquelas pessoas se prendem a um sonho que nunca se realizará”, ele disse.Essa opinião foi levada a Rutha, que é esposa do filho do Chefe Isaac. Ela foi concisa. “Não me importo com o que eles pensam”, disse sem nenhum sinal de insatisfação. “John é nosso Jesus e ele voltará”.
O Movimento John Frum ainda tenta incentivar outra entrega de carga de seu deus americano sobrenatural. Nesse meio tempo, seus discípulos continuam esperando esperançosamente.
Fonte: BBC News, 17 de fevereiro de 2007.
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