Entrevista com Mihai I
Rei da Romênia

O futuro da Moldávia
-A República da Moldávia, cujo território é basicamente a Bessarábia, é uma entidade que passou a existir como conseqüência direta do Pacto Molotov-Ribbentrop. Podemos dizer que a República da Moldávia é o lugar em que a Segunda Guerra Mundial ainda não terminou: separatismo no Transdniester, instabilidade política, luta por esferas geopolíticas de influência, imensa pobreza, tudo isso é conseqüência da aparição de um estado artificial resultado da ocupação soviética da Bessarábia. Como o senhor vê o futuro dessa entidade?
-É uma questão muito difícil de ser respondida. Eu penso com muita freqüência naquele lugar e naquele povo, e fico emocionado às vezes... E sei muito bem que eles passam por uma situação extremamente difícil, horrível, por lá. Sei muito bem disso. O problema é que não podemos fazer muito a respeito. A única coisa que podemos fazer, e devemos fazer, é ter um bom relacionamento com eles, mesmo com as coisas na atual situação, porque na verdade, cabe ao povo da Bessarábia tentar e fazer algo. Não podemos interferir. Eu notei que a última eleição lá foi um pouco diferente das anteriores. Isso é positivo? Espero que sim. Mas eu penso nas pessoas muito frequentemente, e é muito, muito doloroso.
-O senhor vê a República da Moldávia virando-se para o Oeste ou Leste no futuro?
-Bem, até onde sei, eles querem ser oeste – as pessoas – mas, será que podem? Essa é a grande questão, porque como eu disse, cabe a eles decidir.
-O senhor acha que a União Européia deveria atuar com maior proeminência para trazer a Moldávia mais para perto da Europa?
-Isso seria o normal, o lógico, a fazer. Sim. Mas quão longe eles estão disposto a ir, essa é a questão. Porque ainda é inexplicável para mim, há uma certa fascinação que vem da Rússia. Não quero falar muito disso, mas o povo russo é muito especial, e eles também passaram pelo inferno por 80 anos ou o que quer que seja, mas existe algo de fascinante sobre eles [no ocidente]. Claro, é um país enorme, e muitas vezes os europeus ocidentais não colocam os pés onde devem. Eles deveriam tentar trazer a Bessarábia de volta à Europa. Não porque mudariam fronteiras, mas ela é parte da Europa porque era parte da Europa.
Trazendo a Romênia de volta para a Europa
-Após 1989, o senhor fez esforço substanciais para promover a integração Euro-Atlântica da Romênia, mesmo quando o novo poder em Bucareste tratou-o com hostilidade. O reconhecimento e influência que Sua Majestade desfruta nas chancelarias ocidentais contribuíram largamente para acelerar a adesão da Romênia à União Européia e à OTAN. O senhor é um exemplo eloqüente de que apesar das adversidades da história e do destino, patriotismo e retidão moral sempre vencem no fim, não importa quão longa seja a batalha. Foi um caminho muito grande, marcado por sacrifícios pelo rei, mas agora o rei voltou para casa, mesmo que a casa tenha mudado. Quando o senhor olha para trás, quais são seus sentimentos?
-É difícil colocar isso em palavras. Éramos parte da Europa, sempre fomos, e acho que uma das coisas que fazem parte da minha responsabilidade é tentar levar o país de volta para seu lugar, tanto quanto possível, o que é muito difícil. Não se esqueça que quando voltei para lá, foi depois de 1997, após Emil Constantinescu ser eleito presidente. Agora estamos onde deveríamos estar, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Mas estamos no tipo certo de aliança e nós temos que ficar juntos com o restante dos europeus.
Durante o esforço para conseguir a entrada da Romênia na OTAN, eu o restante da minha família nos envolvemos na luta, e tivemos encontros muito interessantes com militares e políticos, acabou funcionando. Até mesmo me encontrei com líderes militares que não deveria encontrar, porque o acordo ainda não estava selado. Há diversas maneiras de fazer as coisas, e no fim das contas conseguimos. Isso nunca foi dito e nem deveria ser dito, mas o fato é que me encontrei com diversas pessoas e finalmente tudo deu certo. Mas tive que jogar o nosso peso [risadas].
-Num livro publicado em 1992, o senhor afirmou que acredita em milagres. Agora, não importa quanta significância este ano possa ter, ainda há um evento que marcaremos este ano que foi pouco menos que um milagre: a queda do comunismo em 1989. No verão de 1989, muito da Europa Oriental ainda estava sob as garras do totalitarismo. Alguns meses depois, o acampamento “socialista” se desfez como um castelo de areia, culminando no violento levante dos romenos. Duas décadas depois, o senhor acredita que, no caso da Romênia, o milagre foi completo?
-Não, diria que não... Muito foi feito, sim. Mas eu disse uma porção de vezes, mesmo que as pessoas não tenham gostado – que a União Soviética, o sistema, caiu, mas o comunismo não desapareceu. Não. Muito mudou, mas muitas coisas por dentro... Basta cavar um pouquinho e você encontrará aquilo de novo.
Sabe, após 40-50 anos de tudo que passamos, é como uma lenta tortura. Ano após ano, as pessoas recebiam aquela ideologia, e após tantos anos, você começa a pensar que é sua própria ideologia. É uma maneira muito insidiosa de comportamento. Na superfície muita coisa mudou, sim. Mas de vez em quando você encontra pequenos fragmentos do passado que de repente aparecem. E, sabe, com toda a honestidade, não é só no meu país, mas nos outros também.
Veja bem, minha ideia, ou meus sentimentos sobre certas coisas como essa: um fala muito sobre o perdão, que é a coisa cristã correta, moral, de ser fazer. Contudo, há situações diversas. No meu caso, sendo ou não soberano da Romênia, ainda é meu dever proteger o meu país. Você disse antes que eles me trataram mal e tudo mais.
Sim, isso é verdade. Enquanto eu estava fora, e mesmo quando eu voltei. Mas isso é algo pessoal. E, as coisas pessoais você pode perdoar ou não, isso é problema seu.
Mas quando você vê o que algumas pessoas têm feito com o seu país, você pode perdoar isso? Na minha cabeça, como cristão, você não pode. Porque dezenas de milhões de pessoas foram destruídas praticamente, passaram pelo absoluto inferno, e de repente você diz “bem, acabou, vamos esquecer isso”. Você não esquece. Você sabe, o povo judeu, eles tem algo como uma prece, acho que o nome é “Nós lembramos”. E, se nosso povo e outros se lembrarem [dos crimes do comunismo], isso é um modelo positivo e moral de pensamento. Mas eu sei que é muito difícil depois de todos esses anos, porque você perde seu senso de direção.
-Como soberano do Grande Reino da Romênia, com cujo Sua Majestade se identifica, teria agora, sete décadas após os eventos trágicos de 1939, uma mensagem para todos os romenos – dentro e fora de suas fronteiras?
-Se eles querem que as coisas melhorem mais do que estão agora, o que desejo pedir ao povo romeno é que permaneçam juntos, porque algumas pessoas estão tentando separá-los, e assim não conseguiremos chegar onde queremos. Temos que mostrar solidariedade com os próximos, lembrar de que estamos na Europa, e comportar-nos apropriadamente perante os outros. Porque não é bom fazer certas coisas que todos conhecem na Romênia atualmente, e quando os estrangeiros nos criticam dizemos que não é problema deles. Claro que é problema deles, porque somos parte da Europa.
O povo romeno deveria unir-se e acordar, porque ainda temos um longo caminho pela frente. Temos que ficar juntos e avançar juntos, e trazer a Romênia de volta ao seu lugar de honra. Não diria necessariamente onde estava, porque muitas coisas do passado mudaram. Mas essas coisas do passado deveria ser inspiração para o futuro.
Este é meu profundo desejo para o povo romeno: fiquem juntos e pensem no futuro. Não necessariamente um futuro particular, mesmo que isso seja uma boa coisa a se fazer. Tenham em mente que são parte de seu país, e têm que fazer sua parte por ele.
Fonte: Radio Free Europe / Radio Liberty, 31 de agosto de 2009.
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