Entrevista com o General Sergei Kramarenko
Herói da União Soviética
Herói da União Soviética
por Yuri Plutenko
Sergei Makarovich Kramarenko está entre os últimos guerreiros da grande geração de vitoriosos ases na mais terrível guerra da civilização humana. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele voou no 176º Regimento de Caças da Guarda, sob o comando do legendário ás Ivan Kozhedub, derrubando diversas aeronaves da Luftwaffe no caminho até Berlim.Cinco anos depois ele voluntariou-se para defender os céus da Coreia do Norte contra o ataque dos Boeing B-29 norte-americanos. Na super-secreta operação de auxílio soviético aos norte-coreanos – que somente veio a público após a queda União Soviética – Kramarenko voou o caça a jato Mikoyan-Gurevich MiG-15, colecionando mais vitórias e se tornando, em 29 de julho de 1951, o primeiro ás jato-versus-jato da história. O Presidium do Soviete Supremo o condecorou com a Estrela Dourada de Herói da União Soviética em 10 de novembro de 1951. Hoje, o Major-General Kramarenko vive com a família em Moscou.
-Como o senhor se tornou um aviador?
-Eu nasci em abril de 1923, então na minha infância, aviões eram raros. Eu fiquei muitíssimo impressionado na primeira vez que vi um avião. Minha geração sonhava com viagens aéreas. Nossos heróis eram os famosos “falcões” de Stalin: Chkalov, Gromov, e outros. Nosso governo tentou preparar o país para a defesa, e imensas fábricas de aeronaves foram construídas em diversas cidades. Os institutos de pesquisa e desenho aeronáutico de Mikoyan, Lavochkin, Yakovlev e Ilyushin foram fundados. Naturalmente, nosso país precisava de pilotos para o gigantesco número de aviões. Eu ingressei no treinamento num aeroclube no outono de 1940. Meu primeiro voo foi em um Polikarpov U-2, foi inesquecível.
-Como descobriu que a guerra havia começado?
-No fim de março de 1941 eu fui enviado à escola de aviação militar de Borisoglebsk. Eu fiz meu juramento militar em 1 de maio de 1941. A guerra era inevitável. Hitler estava capturando um país após o outro. A derrota da França e outros países europeus confirmaram nossos piores medos.
Na manhã de domingo, 22 de junho de 1941, os pilotos do nosso esquadrão estavam planejando ir nadar em um rio. Mas após o discurso de Molotov pelo rádio, todos os cadetes foram reunidos para um pronunciamento.
Todos queríamos combater o inimigo, e começamos a treinar no Polikarpov I-16. Esse avião era altamente manobrável, no entanto, os caças alemães tinham a vantagem de velocidade e armamento. Então começamos a treinar em um novo caça, o LaGG-3. Esse caça tinha rádios, motor poderoso e sólido armamento. Mas pilotar esse avião não era fácil.
Uma noite fomos acordados por explosões. O aeródromo e a estação ferroviária de Povorino foram iluminados por bombas. No entanto, o principal ataque aéreo dos bombardeiros de mergulho alemães atingiram algumas granjas perto do aeródromo. Foi um golpe de sorte. Não houve perdas entre os pilotos e nossas aeronaves. Evidentemente, os pilotos alemães pensaram que esses galinheiros eram depósitos ou alojamentos. Na manhã seguinte, comemos no café da manhã galinha grelhada pelas bombas alemãs.
-Por favor, fale sobre seu primeiro combate.
-Em janeiro de 1943, nosso regimento recebeu novos aviões chamados Lavochkin La-5. Gostamos muito desse caça e estávamos confiantes que poderíamos superar o caça alemão chamado Messerschmitt Me 109.
Em fevereiro, voamos em um esquadrão como cobertura de nossas tropas atacando no solo. Perto da linha de frente nós vimos alguns Junkers Ju 87, os bombardeiros de mergulho alemães. O comandante do nosso esquadrão nos ordenou o ataque. Eu me atrasei um pouco em acelerar minha aeronave, e fiquei 500 metros para trás do resto do esquadrão.
De repente, eu vi dois aviões cinza e verde, com cruzes negras, 150 metros à minha frente. Um Focke-Wulf Fw 190 e um Junkers Ju 87 tentaram atacar nosso líder. Eu mirei no segundo Focke-Wulf e abri fogo. Nesse momento, vi explosões de meus projéteis no caça alemão: ele abruptamente subiu em uma curva, tentando escapar do meu fogo. Uma das minhas granadas atingiu o cockpit. Então eu vi fogo e uma linha de fumaça na minha frente.
Eu estava sendo alvejado por dois Focke-Wulfs, que estavam 300 metros atrás de mim. Eu instantaneamente fiz uma curva à esquerda e mergulhei.
Os pilotos alemães começaram a me perseguir. Numa altitude de 800 metros eu virei à esquerda. Eu vi um novo clarão de fogo dos aviões alemães. Eles me erraram de novo. Eu repeti minha manobra. Os mergulhos e curvas foram tão eficientes que os ases alemães não conseguiam fechar a mira em mim. Eles abriam fogo e me erraram durante cinco ataques consecutivos.
Após fazer a próxima curva eu repentinamente coloquei meu avião num mergulho quase vertical. Numa altitude de 500 metros eu fiz uma curva de 180 graus e puxei o manche. Meu avião tremeu com a pressão. Eu fiquei colado no assento. Eu saí do mergulho a 30 metros de altura, descendo quase ao nível das árvores, e os dois aviões inimigos pararam de me perseguir.
Como resultado desse momento, eu concluí que nosso Lavochkin e o Focke-Wulf Fw 190 tinham qualidades similares, e quando você vê o inimigo de novo em combate, você sempre pode escapar de ser atingido. Essa conclusão foi confirmada muitas vezes mais tarde.
-De que outros combates aéreos o senhor se lembra?
-Em maio de 1943, nós voamos como escolta de um grupo de bombardeiros Petlyakov Pe-2 que iriam atacar o aeródromo de Bryansk. Nossos Petlyakovs bombardearam a pista com os aviões alemães. As armas antiaéreas alemãs abriram fogo pesado. Uma cápsula atingiu um dos nossos La-5 e eu não vi o piloto saltar – tinha perdido meu amigo Vartan Avetyan.
Abaixo de mim, vi dois Focke-Wulfs. Abri fogo contra o segundo caça; ele virou e despencou do céu. Eu mirei no líder alemão e o atingi. Minhas granadas atingiram esse segundo avião e ele também foi ao chão.
Um dia atacamos um trem de transporte de tropas com 40 vagões. Abrimos fogo de uma distância de 500 metros. Atingimos a locomotiva, e ela envolveu-se em vapor. À baixa altitude, alvejamos os vagões carregados de soldados de Hitler.
No verão de 1943, como o melhor piloto de caça, eu fui enviado a um regimento especial de caçadores aéreos para lutar contra as famosas unidades de caças de Hermann Göring: a “Udet”, “Richthofen” e a 51ª “Mölders”. Essas eram compostas dos melhores ases da Luftwaffe.
Rapidamente recebemos novos caças, os La-5FN, com motores mais poderosos.
Em 19 de março de 1944, nós voamos como cobertura de nossas tropas perto da cidade de Proskurovo. Vimos nove bombardeiros Junkers Ju 88 e seis caças Messerschmitt Me 110. Nosso líder derrubou um dos Junkers, e eu abri fogo contra um Messerschmitt, vendo os impactos das cápsulas.
De repente, vi uma linha de projéteis inimigos diretamente à minha frente. Diversas cápsulas de Messerschmitt atingiram meu motor e a cabine. Meu avião entrou em chamas. A mistura de óleo e gasolina em chamas me queimou a face e as mãos. Eu saltei. Quando cheguei ao solo, soldados alemães da SS me capturaram. Por causa da minha face queimada, o oficial da SS me perguntou: “Você é um tanquista?” Eu respondi: “Não, eu sou piloto”. O oficial da SS queria informações sobre minha unidade, a quantidade de aviões, etc. Eu me recusei a responder. Ele ordenou que seus soldados me executassem.
Eu disse adeus ao céu e à vida, mas de repente um general alemão com dragonas prateadas, junto com um grupo de oficiais, saiu do prédio do quartel-general. Ele me viu e cancelou a ordem do oficial da SS: “Nada de execução, leve-o ao hospital”. No hospital, eu não pude comer nem abrir a boca por causa das queimaduras. Seis dias depois a cidade e o hospital foram liberados pelo Exército Vermelho. Após retornar à minha unidade, eu soube que meus camaradas pensaram que eu havia morrido e pegaram minhas coisas como lembrança. Após o tratamento médico, retornei ao front.
-O senhor acreditava na vitória?
-Sem dúvidas! Eu senti felicidade e orgulho por minha Grande Pátria-Mãe, quando meu novo e melhor caça do mundo La-7 cruzou as fronteiras da Alemanha. Meu coração batia muito rápido. A Alemanha ardia em chamas sob nossos aviões. Eu pude sentir o cheiro dos incêndios mesmo a 4.000 metros de altitude. Foi nossa resposta ao trágico ano de 1941.
Tivemos um jantar especial para comemorar o Dia da Vitória. Então fomos ver o Reichstag, um prédio sombrio e queimado.
Lá, nos encontramos e abraçamos os soldados americanos que lá estavam. Eles gritavam: “Russos – que bom!”
Até hoje, eu ainda tenho o relógio que um desconhecido tenente americano me deu de presente de amizade.
Fonte: Moscow News, 22 de maio de 2008.
Veja também:
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1 comentários:
Essa série já foi exibida no Brasil, na íntegra, pelo National Geographic Channel.
É excelente. Eu mesmo assisti 2 vezes cada episódio.
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