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sexta-feira, 12 de março de 2010

Veteranos fazem emocionada peregrinação a Iwo Jima


Veteranos fazem emocionada peregrinação a Iwo Jima


Jerry Yellin passou a maior parte da vida tentando esquecer o cheiro de morte da ilha de Iwo Jima 65 anos atrás.

Yellin foi um piloto de caça P-51 que tinha feito 22 anos algumas semanas antes de tocar o solo da ilha em 7 de março de 1945, em meio a uma das mais sangrentas batalhas da campanha do Pacífico na Segunda Guerra Mundial.

De um lado, havia montes e montes e montes de corpos de soldados japoneses sendo empurrados com escavadeiras em valas comuns. E logo atrás da área do nosso esquadrão estava o necrotério dos fuzileiros, onde eles deitavam os cadáveres, checavam seus dog tags e coletavam impressões digitais para identificação”, lembra-se Yellin, um aposentado de 87 anos que vive em Vero Beach, Florida.

Eu vivi com aquelas memórias por toda a vida e é algo que nunca quero rever”.

Mesmo assim, Yellin esteve de volta à ilha pela primeira vez desde 1945 para uma celebração do 65º aniversário da batalha. Cerca de 22.000 soldados japoneses morreram defendendo a ilha – junto com mais de 6.000 americanos – numa batalha que ficou imortalizada na icônica foto do hasteamento da bandeira norte-americana no topo do Monte Suribachi, o vulcão dormente da ilha.

Os americanos dominaram a ilha em 26 de março de 1945, marcando o mais significativo avanço militar do país na estratégia de “salto pelas ilhas” para chegar ao Japão. Mas a batalha provou-se mais longa e letal do que os planejadores anteciparam, consumindo muitos recursos militares americanos. Os EUA abandonaram seu plano de invadir o Japão e recorreram à bomba atômica para encerrar a guerra.

Desde 1995, associações japonesas e americanas de Iwo Jima se encontram na ilha, agora conhecida como Iwo To, para celebrar os 35 dias de luta com uma “Reunião de Honra”.

Yellin e muitos outros veteranos fizeram uma longa viagem para Iwo Jima partindo de Guam em 3 março com a empresa Military Tours. “Cada um tinha sua razão para estar lá, mas todos foram embora unidos através do compartilhamento da experiência que somente alguns podem entender”, disse Cyril O’Brien, correspondente dos fuzileiros que cobriu originalmente a batalha.

De certa forma, é um alívio saber que algo que aconteceu a tanto tempo é provavelmente o que considero um dos momentos mais enobrecedores das nossas vidas. Eu sou escritor, então vir aqui desta vez, e olhar para o terreno vendo esta colina, este penhasco, esse bosque, abre toda uma nova página na minha memória”, disse ele.

O’Brien, um repórter aposentado que está trabalhando num livro sobre suas experiências como correspondente de guerra, já voltou a Iwo Jima para as reuniões quatro vezes. Mas o sentimento de admiração nunca diminui quando tem a primeira visão da ilha no avião, confessou.

Quando nos aproximamos de Iwo Jima e vemos o Suribachi, você se espantaria com o que acontece. Tudo se torna silencioso e solene como quando se entra numa catedral. Pode-se dizer que a ilha cativou todo mundo, a ilha os traz de volta à sua juventude. O primeiro momento é sempre muito emocionante. Sempre é”, disse.

Para Yellin, foi uma longa jornada de volta ao campo de batalha onde, como um jovem aviador, ele deixou para trás 11 camaradas, o que gerou anos de amargura e preconceito racial. Yellin se lembra de passar sobre a bandeira toda vez que ele e seus colegas voavam uma missão de apoio aos fuzileiros no solo, que tinham a formidável tarefa de tomar a ilha de uma força militar em sua última resistência.

Eu nunca pensei nas pessoas no solo como pessoas. Você pode odiar tanto alguém que não os enxerga como pessoas”, ele disse. “Eu não tinha nenhuma vontade de voltar ao Japão. Porque diabos você visitaria o lugar onde moravam seus inimigos? Quem quer visitar o povo contra quem você lutou e odiou?

A mudança começou em 1988, quando seu filho casou-se com uma japonesa cujo pai foi um piloto da Força Aérea do Exército Imperial, que também voou missões em Iwo Jima. Os futuros sogros do filho de Yellin se opunham ao casamento, até que os homens se conheceram e compartilharam suas experiências em Iwo Jima.

Eu o odiava e ele me odiava. Nos encontramos pela primeira vez três dias antes do casamento. E ele disse: ‘Qualquer homem que voou um P-51 contra os japoneses e viveu deve ser um bravo, e eu quero que o sangue desse homem flua pelas veias dos meus netos.’ Então, meu filho casou-se, começou a ter filhos e minha vida expandiu-se. Eu vi que seres humanos foram mortos na guerra, e eles eram boas pessoas, pessoas brilhantes, que agora são minha família”.

Através do casamento, os antigos inimigos fizeram as pazes, um processo que Yellin documentou em seu livro “Of War & Weddings”. Mas ele nunca tinha considerado visitar Iwo Jima até receber o convite para celebrar seus camaradas caídos – 11 em combate e 5 em treinamento – do 78º Esquadrão de Caças na Reunião de Honra.

Quando soube dos planos, o neto de 18 anos de Yellin mostrou interesse em ver o lugar no qual os avôs tinham se combatido.

Eu não queria reviver aquilo tudo, mas já que eu tenho um neto japonês e porque ele queria ir, eu tive que vir”, disse Yellin. “E estou feliz, satisfeito, emocionado em ter vindo. Chorei a maior parte do dia, desde o momento que chegamos. Muitas memórias voltaram, e nos fizemos um memorial para meus 16 amigos. Foi como fechar um ciclo”.

Fonte: CNN World, 8 de março de 2010.


Veja também:
>>Jerry Yellin honrado por livro sobre a guerra
>>North American P-51 Mustang
>>Artigo de Jerry Yellin na final do MWSA
>>Ben Nicks: A mais longa missão da Segunda Guerra
>>Boeing B-29 Superfortress
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2 comentários:

Luís Carlos Jr. disse...

Reportagem muito boa, esta.

Anonymous disse...

Achei tão interessante e inusitada a trajetória desses ex-combatentes que não resisti e chamei minha esposa para ver também.
Excelente !