A história do explorador do deserto Laszlo Almasy

Durante a Segunda Guerra Mundial, o explorador do deserto Laszlo Almasy contrabandeou agentes alemães por todo o Saara, numa jornada épica por trás das linhas inimigas. Agora a verdadeira história do homem mostrado em “O Paciente Inglês” vem a público.
Na infância, o filho de um nobre húngaro frequentemente ficava olhando o horizonte em seu local de nascimento, um castelo na atual região de Burgenland, na Áustria. Ele ansiava pelo inatingível.
Aos 14 anos, o garoto construiu para si um planador para alcançar os céus, mas caiu com ele.
Então, na década de 1930, Laszlo Almasy partiu para encontrar o oásis perdido de Zarzura. O mítico local é mencionado nos livros de tesouros árabes e numa coleção de histórias conhecida como “As Mil e Uma Noites”, onde é referida como a “Cidade de Latão”.
O pioneiro explorou dois milhões de quilômetros quadrados do Saara. Ele vasculhou o terreno, desenhou mapas e pisou em locais do mar de dunas onde “nenhum olho humano já havia visto”. No remoto Wadi Sura, ele descobriu por acidente pinturas em cavernas da Idade da Pedra – um achado sensacional.
Mas ele nunca encontrou Zarzura.
Não há dúvidas de que Almasy era um homem que seguia seus sonhos. Mas quem era esse aventureiro, instrutor de voo e agente nazista, cujos beduínos reverenciavam chamando de Abu Ramla, ou “Pai da Areia”?
O melodrama distorcido de Hollywood
Os diários de Almasy desapareceram. Relatórios que ele escreveu para a rede de espionagem alemã, capturados pelos britânicos, estão agora trancados no Imperial War Museum, em Londres.
O monumento que Hollywood erigiu para ele apresenta uma imagem distorcida. O Almasy mostrado no melodrama “O Paciente Inglês” morre de overdose de morfina, um herói que teve seu coração partido por uma mulher e estava determinado a morrer.
Na realidade, o explorador morreu de disenteria amébica em 1951. E ele tinha pouco interesse em mulheres.
Cartas de amor foram encontradas entre os documentos que ele deixou. Almasy, membro do Afrika Korps, as escreveu para um jovem soldado chamado Hans.
O Instituto Heinrich Barth para Estudos Africanos, em Colônia, também possui correspondência íntima escrita por ele, mas recusa-se a publicar as cartas. Um porta-voz da instituição revelou, no entanto: “Príncipes egípcios estavam entre seus amantes”.
Novos detalhes também emergiram sobre seu mais bravo feito. Em 1942, Almasy contrabandeou agentes alemães para dentro do Egito ocupado pelos ingleses, numa aventura conhecida como “Operação Salam”. Para completar a jornada, ele percorreu 4.200 quilômetros pelo Saara oriental. Um relatório de suas experiências na África, que Almasy escreveu em húngaro, foi agora publicado em alemão pela primeira vez.
Uma jornada épica
De acordo com o relato, Almasy trabalhou para o “Comando Brandenburgo”, uma notória unidade da agência militar de inteligência alemã que realizou atos de sabotagem por trás das linhas inimigas. Ele rapidamente recebeu uma delicada missão: infiltrar espiões por terra até o Nilo.
A jornada começou em maio de 1942, quando um grupo deixou o oásis de Jalo em dois caminhões americanos e dois chevrolets roubados. Primeiramente eles queriam seguir em frente diretamente para leste, através de terreno inacessível. No entanto, encontraram uma zona morta de areia movediça e planícies de sal. Os veículos constantemente afundavam na areia, e quando dois dos motoristas contraíram diarréia, o grupo decidiu voltar.
Na segunda tentativa, alguns dias depois, o comboio com os agentes entrou profundamente no território líbio, somente virando em direção ao Nilo perto de Kufra, no sudeste da Líbia. “O terreno é terrível”, notou Almasy.
Em certo ponto, o grupo avistou ingleses. “Estou observando o inimigo pelos meus binóculos”, escreveu. “Eles estão orando”. Depois disso, ele corajosamente esvaziou os tanques de combustível do inimigo.
Após a difícil travessia, o grupo finalmente atingiu a ferrovia perto da cidade egípcia de Asyut. Os espiões, Hans Eppler e Peter Stanstede, desceram e seguiram até o Cairo, onde desapareceram no distrito de prostituição da cidade. Eles esconderam seus transmissores de rádio no bar de uma barca do Nilo.
Como poderia essa épica jornada ter sucesso? Sabia-se que Almasy tinha um depósito montado onde combustível, comida e água para a viagem de volta eram mantidos. Ele descreveu o lugar como “uma profunda caverna num penhasco, um verdadeiro ninho de ladrões”.
Houve muitas tentativas de encontrar esse local escondido durante os anos. Agora parece eu uma expedição austríaca finalmente o descobriu no sul do Egito.
Uma ousada operação militar
Os austríacos encontraram empoeiradas baterias de carro e peças na caverna, bem como galões de gasolina da Wehrmacht, garrafas de schnapps e “duas latas de apresuntado do Brasil e uma lata de leite condensado”, disse a arqueóloga Kathrin Kleibl.
Por mais mundano que o material possa parecer, representa uma das mais ousadas operações militares por trás das linhas britânicas. Almasy era um brilhante explorador do deserto.
A missão em si nunca causou muito dano. Os agentes alemães transmitiram informação sobre o Cairo por diversas semanas, até que seu transmissor quebrou. E foi ninguém menos que o futuro presidente do Egito, Anwar al-Sadat, que era membro do movimento de resistência contra a ocupação britânica, que acorreu para consertar o aparelho.
Mas Sadat rapidamente percebeu que havia algo errado naquela situação. Em suas memórias, ele escreveu que os espiões haviam deliberadamente desmontado seu rádio para que pudessem aproveitar, sem perturbações, “duas prostitutas judias”.
Fonte: Der Spiegel, 2 de abril de 2010.
Na infância, o filho de um nobre húngaro frequentemente ficava olhando o horizonte em seu local de nascimento, um castelo na atual região de Burgenland, na Áustria. Ele ansiava pelo inatingível.
Aos 14 anos, o garoto construiu para si um planador para alcançar os céus, mas caiu com ele.
Então, na década de 1930, Laszlo Almasy partiu para encontrar o oásis perdido de Zarzura. O mítico local é mencionado nos livros de tesouros árabes e numa coleção de histórias conhecida como “As Mil e Uma Noites”, onde é referida como a “Cidade de Latão”.
O pioneiro explorou dois milhões de quilômetros quadrados do Saara. Ele vasculhou o terreno, desenhou mapas e pisou em locais do mar de dunas onde “nenhum olho humano já havia visto”. No remoto Wadi Sura, ele descobriu por acidente pinturas em cavernas da Idade da Pedra – um achado sensacional.
Mas ele nunca encontrou Zarzura.
Não há dúvidas de que Almasy era um homem que seguia seus sonhos. Mas quem era esse aventureiro, instrutor de voo e agente nazista, cujos beduínos reverenciavam chamando de Abu Ramla, ou “Pai da Areia”?
O melodrama distorcido de Hollywood
Os diários de Almasy desapareceram. Relatórios que ele escreveu para a rede de espionagem alemã, capturados pelos britânicos, estão agora trancados no Imperial War Museum, em Londres.
O monumento que Hollywood erigiu para ele apresenta uma imagem distorcida. O Almasy mostrado no melodrama “O Paciente Inglês” morre de overdose de morfina, um herói que teve seu coração partido por uma mulher e estava determinado a morrer.
Na realidade, o explorador morreu de disenteria amébica em 1951. E ele tinha pouco interesse em mulheres.
Cartas de amor foram encontradas entre os documentos que ele deixou. Almasy, membro do Afrika Korps, as escreveu para um jovem soldado chamado Hans.
O Instituto Heinrich Barth para Estudos Africanos, em Colônia, também possui correspondência íntima escrita por ele, mas recusa-se a publicar as cartas. Um porta-voz da instituição revelou, no entanto: “Príncipes egípcios estavam entre seus amantes”.
Novos detalhes também emergiram sobre seu mais bravo feito. Em 1942, Almasy contrabandeou agentes alemães para dentro do Egito ocupado pelos ingleses, numa aventura conhecida como “Operação Salam”. Para completar a jornada, ele percorreu 4.200 quilômetros pelo Saara oriental. Um relatório de suas experiências na África, que Almasy escreveu em húngaro, foi agora publicado em alemão pela primeira vez.
Uma jornada épica
De acordo com o relato, Almasy trabalhou para o “Comando Brandenburgo”, uma notória unidade da agência militar de inteligência alemã que realizou atos de sabotagem por trás das linhas inimigas. Ele rapidamente recebeu uma delicada missão: infiltrar espiões por terra até o Nilo.
A jornada começou em maio de 1942, quando um grupo deixou o oásis de Jalo em dois caminhões americanos e dois chevrolets roubados. Primeiramente eles queriam seguir em frente diretamente para leste, através de terreno inacessível. No entanto, encontraram uma zona morta de areia movediça e planícies de sal. Os veículos constantemente afundavam na areia, e quando dois dos motoristas contraíram diarréia, o grupo decidiu voltar.
Na segunda tentativa, alguns dias depois, o comboio com os agentes entrou profundamente no território líbio, somente virando em direção ao Nilo perto de Kufra, no sudeste da Líbia. “O terreno é terrível”, notou Almasy.
Em certo ponto, o grupo avistou ingleses. “Estou observando o inimigo pelos meus binóculos”, escreveu. “Eles estão orando”. Depois disso, ele corajosamente esvaziou os tanques de combustível do inimigo.
Após a difícil travessia, o grupo finalmente atingiu a ferrovia perto da cidade egípcia de Asyut. Os espiões, Hans Eppler e Peter Stanstede, desceram e seguiram até o Cairo, onde desapareceram no distrito de prostituição da cidade. Eles esconderam seus transmissores de rádio no bar de uma barca do Nilo.
Como poderia essa épica jornada ter sucesso? Sabia-se que Almasy tinha um depósito montado onde combustível, comida e água para a viagem de volta eram mantidos. Ele descreveu o lugar como “uma profunda caverna num penhasco, um verdadeiro ninho de ladrões”.
Houve muitas tentativas de encontrar esse local escondido durante os anos. Agora parece eu uma expedição austríaca finalmente o descobriu no sul do Egito.
Uma ousada operação militar
Os austríacos encontraram empoeiradas baterias de carro e peças na caverna, bem como galões de gasolina da Wehrmacht, garrafas de schnapps e “duas latas de apresuntado do Brasil e uma lata de leite condensado”, disse a arqueóloga Kathrin Kleibl.
Por mais mundano que o material possa parecer, representa uma das mais ousadas operações militares por trás das linhas britânicas. Almasy era um brilhante explorador do deserto.
A missão em si nunca causou muito dano. Os agentes alemães transmitiram informação sobre o Cairo por diversas semanas, até que seu transmissor quebrou. E foi ninguém menos que o futuro presidente do Egito, Anwar al-Sadat, que era membro do movimento de resistência contra a ocupação britânica, que acorreu para consertar o aparelho.
Mas Sadat rapidamente percebeu que havia algo errado naquela situação. Em suas memórias, ele escreveu que os espiões haviam deliberadamente desmontado seu rádio para que pudessem aproveitar, sem perturbações, “duas prostitutas judias”.
Fonte: Der Spiegel, 2 de abril de 2010.

Veja também:
>>Filmes: Leão do Deserto
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>>Filmes: El Alamein
>>Camionetta AS 42 Sahariana
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2 comentários:
O mundo é mais Gay do que podemos imaginar!.
Fantástica estória.
Por vezes a História é mais interessante que as estórias que o cinema conta. Esse é um desses casos. Grato por compartilhar essa descoberta conosco.
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