Últimos veteranos japoneses falam sobre Nanking

O jovem infante japonês Sawamura ficou apático quando foi ordenado a baionetar um civil chinês, enquanto colegas olhavam e o incentivavam.
“Você o capturou, agora livre-se dele”, esbravejou seu tenente, jogando o soldado de 21 anos contra a tremulante vítima, apenas dias após tropas japonesas conquistarem a cidade chinesa de Nanking, em dezembro de 1937.
“Me inclinei para frente e enfiei a lâmina no seu corpo até que saiu do outro lado”, disse Sawamura, que agora tem 94 anos. “Éramos ensinados a não desperdiçar balas. Era o treinamento básico”.
“Eu disse a mim mesmo pelo resto da vida que matar é errado”, disse o veterano do Exército Imperial Japonês, que recusou-se a dar seu sobrenome, numa entrevista em Kyoto.
Sawamura é parte de um grupo que encolhe rapidamente: os ex-soldados japoneses que tomaram parte no Massacre de Nanking, considerado por historiadores como a pior atrocidade de guerra cometida pelos japoneses na China.
Historiadores geralmente estimam que 150.000 pessoas foram mortas, milhares de mulheres foram estupradas e milhares de lares foram incendiados numa orgia de violência que durou até março de 1938, no que era até então a capital do governo nacionalista chinês.
Num estudo conjunto de um comitê sino-japonês de história liberado em 2009, a China disse que o número de vítimas excede 300.000, enquanto os historiadores japoneses estimam que o número real está entre 20.000 e 200.000 mortos.
Sawamura – que agora passa seus dias regando plantas e decorando a casa com fotos do netos – é um dos últimos japoneses vivos que participaram ativamente do massacre na cidade que agora chama-se Nanjing.
Poucos veteranos aceitam falar sobre o que no Japão ainda permanece como tabu, e muitos levaram seus testemunhos para o túmulo. Mas esse ano, num último esforço para manter viva esta obscura memória, a ativista japonesa Tamaki Matsuoka lançou um documentário no qual veteranos falam pela primeira vez em filme sobre a matança e os estupros.
Memórias Dolorosas de Nanjing foi recentemente ao ar no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong, e em pouco tempo pode estrear no Festival de Cinema de Sydney.
Por mais de uma década, Matsuoka - uma professora aposentada e inimiga dos conservadores nacionalistas japoneses - entrevistou centenas de sobreviventes chineses do banho de sangue e cerca de 250 veteranos japoneses que estiveram lá. Hoje, somente três desses soldados ainda vivem, incluindo Sawamura.
“Mesmo que estrangeiros assistam o filme, também quero que o povo do Japão assista para aprender sobre isso”, disse Matsuoka. Mas apesar dos seus esforços, poucos japoneses poderão ver o documentário, que até agora só está sendo exibido em três cinemas.
A história do Japão durante a Segunda Guerra Mundial permanece um assunto sensível no país, e um espinho nas relações de Tóquio com seus vizinhos asiáticos, que frequentemente reclamam que o Japão não assumiu suficientemente seus crimes.
Livros escolares japoneses atenuam os crimes do país durante a guerra, ressaltando as provocações da China e outros países. Alguns membros do governo chamaram o Massacre de Nanking de invenção chinesa.
Embora as atrocidades estejam bem documentadas no resto do mundo, principalmente por relatos de vítimas e estrangeiros que viviam em Nanking na época, testemunhos japoneses têm sido descartados.
O punhado de veteranos que testemunharam publicamente vêm sendo criticados por grupos nacionalistas de ultra-direita, ou acusados pelas famílias dos mortos na guerra de traição e deturpação da memória dos soldados.
Matsuoka disse que está lutando por uma causa que muitas vezes ameaça sua vida e quase sempre parece infrutífera. Ela já foi interpelada por nacionalistas que protestam em seus eventos e gritam insultos – algumas revistas já a chamaram de espiã chinesa.
Alguns dos soldados inicialmente a expulsaram ou fingiram senilidade ao serem questionados, ela disse. Esposas enfurecidas enxotavam-na ou impediam seus maridos de falar sobre molestar mulheres.
Levou uma década para ganhar sua confiança e persuadi-los a falar para a câmera, ela disse. No fim, alguns confiaram-lhe fotos e objetos, incluindo um cartão postal de soldados comemorando ao lado de uma pilha de caveiras e outro mostrando-os brincando com o coração de uma vítima.
“No Japão existe o ditado que diz ‘o prego que fica para fora tem que ser nivelado’. Mas eu sou um prego que se estica tanto para fora que ninguém mais consegue nivelar”, brincou Matsuoka.
Os testemunhos que ela conseguiu são poderosos.
Outro veterano japonês, o ex-aviador naval Sho Mitani, 90, recontou como a visão de corpos apodrecendo e sangue coagulado despertou nele um misto de curiosidade e repulsa.
“Vivíamos numa época onde aprendíamos que chineses não eram humanos”, disse ele. “O Exército usava um som de trombeta que significava ‘mate todos os chineses que correrem’. Aprendíamos desde pequenos nas escolas que os chineses eram como insetos”.
Mitani disse que levou uma década para encontrar coragem para dar seu testemunho de chineses sendo dizimados por metralhadoras enquanto tentavam fugir nadando pelo rio Yangtze.
Ele disse que decidiu falar quando o governador conservador de Tóquio, Shintaro Ishihara, numa entrevista em 1990, disse que o massacre era uma mentira.
“Eu disse a mim mesmo ‘isso é errado’, porque aconteceu de verdade”, disse Mitani, que testemunhou a matança por uma luneta de um destróier da Marinha. “Eu tinha que contar a verdade”.
Fonte: France 24, 16 de maio de 2010.
“Você o capturou, agora livre-se dele”, esbravejou seu tenente, jogando o soldado de 21 anos contra a tremulante vítima, apenas dias após tropas japonesas conquistarem a cidade chinesa de Nanking, em dezembro de 1937.
“Me inclinei para frente e enfiei a lâmina no seu corpo até que saiu do outro lado”, disse Sawamura, que agora tem 94 anos. “Éramos ensinados a não desperdiçar balas. Era o treinamento básico”.
“Eu disse a mim mesmo pelo resto da vida que matar é errado”, disse o veterano do Exército Imperial Japonês, que recusou-se a dar seu sobrenome, numa entrevista em Kyoto.Sawamura é parte de um grupo que encolhe rapidamente: os ex-soldados japoneses que tomaram parte no Massacre de Nanking, considerado por historiadores como a pior atrocidade de guerra cometida pelos japoneses na China.
Historiadores geralmente estimam que 150.000 pessoas foram mortas, milhares de mulheres foram estupradas e milhares de lares foram incendiados numa orgia de violência que durou até março de 1938, no que era até então a capital do governo nacionalista chinês.
Num estudo conjunto de um comitê sino-japonês de história liberado em 2009, a China disse que o número de vítimas excede 300.000, enquanto os historiadores japoneses estimam que o número real está entre 20.000 e 200.000 mortos.
Sawamura – que agora passa seus dias regando plantas e decorando a casa com fotos do netos – é um dos últimos japoneses vivos que participaram ativamente do massacre na cidade que agora chama-se Nanjing.
Poucos veteranos aceitam falar sobre o que no Japão ainda permanece como tabu, e muitos levaram seus testemunhos para o túmulo. Mas esse ano, num último esforço para manter viva esta obscura memória, a ativista japonesa Tamaki Matsuoka lançou um documentário no qual veteranos falam pela primeira vez em filme sobre a matança e os estupros.
Memórias Dolorosas de Nanjing foi recentemente ao ar no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong, e em pouco tempo pode estrear no Festival de Cinema de Sydney.
Por mais de uma década, Matsuoka - uma professora aposentada e inimiga dos conservadores nacionalistas japoneses - entrevistou centenas de sobreviventes chineses do banho de sangue e cerca de 250 veteranos japoneses que estiveram lá. Hoje, somente três desses soldados ainda vivem, incluindo Sawamura.
“Mesmo que estrangeiros assistam o filme, também quero que o povo do Japão assista para aprender sobre isso”, disse Matsuoka. Mas apesar dos seus esforços, poucos japoneses poderão ver o documentário, que até agora só está sendo exibido em três cinemas.
A história do Japão durante a Segunda Guerra Mundial permanece um assunto sensível no país, e um espinho nas relações de Tóquio com seus vizinhos asiáticos, que frequentemente reclamam que o Japão não assumiu suficientemente seus crimes.Livros escolares japoneses atenuam os crimes do país durante a guerra, ressaltando as provocações da China e outros países. Alguns membros do governo chamaram o Massacre de Nanking de invenção chinesa.
Embora as atrocidades estejam bem documentadas no resto do mundo, principalmente por relatos de vítimas e estrangeiros que viviam em Nanking na época, testemunhos japoneses têm sido descartados.
O punhado de veteranos que testemunharam publicamente vêm sendo criticados por grupos nacionalistas de ultra-direita, ou acusados pelas famílias dos mortos na guerra de traição e deturpação da memória dos soldados.
Matsuoka disse que está lutando por uma causa que muitas vezes ameaça sua vida e quase sempre parece infrutífera. Ela já foi interpelada por nacionalistas que protestam em seus eventos e gritam insultos – algumas revistas já a chamaram de espiã chinesa.
Alguns dos soldados inicialmente a expulsaram ou fingiram senilidade ao serem questionados, ela disse. Esposas enfurecidas enxotavam-na ou impediam seus maridos de falar sobre molestar mulheres.
Levou uma década para ganhar sua confiança e persuadi-los a falar para a câmera, ela disse. No fim, alguns confiaram-lhe fotos e objetos, incluindo um cartão postal de soldados comemorando ao lado de uma pilha de caveiras e outro mostrando-os brincando com o coração de uma vítima.
“No Japão existe o ditado que diz ‘o prego que fica para fora tem que ser nivelado’. Mas eu sou um prego que se estica tanto para fora que ninguém mais consegue nivelar”, brincou Matsuoka.
Os testemunhos que ela conseguiu são poderosos.
Outro veterano japonês, o ex-aviador naval Sho Mitani, 90, recontou como a visão de corpos apodrecendo e sangue coagulado despertou nele um misto de curiosidade e repulsa.“Vivíamos numa época onde aprendíamos que chineses não eram humanos”, disse ele. “O Exército usava um som de trombeta que significava ‘mate todos os chineses que correrem’. Aprendíamos desde pequenos nas escolas que os chineses eram como insetos”.
Mitani disse que levou uma década para encontrar coragem para dar seu testemunho de chineses sendo dizimados por metralhadoras enquanto tentavam fugir nadando pelo rio Yangtze.
Ele disse que decidiu falar quando o governador conservador de Tóquio, Shintaro Ishihara, numa entrevista em 1990, disse que o massacre era uma mentira.
“Eu disse a mim mesmo ‘isso é errado’, porque aconteceu de verdade”, disse Mitani, que testemunhou a matança por uma luneta de um destróier da Marinha. “Eu tinha que contar a verdade”.
Fonte: France 24, 16 de maio de 2010.
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2 comentários:
Muito interessante esta reportagem. Este documentário, pelo que foi descrito, merece ser visto.
Esse capítulo da história ainda precisa ser escrito... Gostaria muito de poder assistir esse documentário.
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