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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Civil de Okinawa relembra batalha


Civil de Okinawa relembra batalha


Quando ainda uma criança vivendo em Okinawa, Seiei Kiyuna aprendeu que os americanos eram maus.

Mas ao fim da Batalha de Okinawa – a mais sangrenta do Pacífico na Segunda Guerra Mundial – ele passaria a pensar diferente.

A guerra no Pacífico estava no auge 65 anos atrás, quando o irmão mais velho de Kiyuna, Seiji, então com 17, juntou-se à Marinha Imperial para se tornar um piloto kamikaze. O então pequeno Seiei, de 12 anos, tinha esperanças de um dia também se tornar um soldado para que, também, pudesse combater os americanos.

Seiei Kiyuna, que juntamente com seus pais e sete irmãos vivia numa área que agora é parte de Camp Foster (base norte-americana em Okinawa), lembra-se que todos queriam fazer sua parte.

Era natural cooperar e dar suportes às nossas tropas imperiais”, disse recentemente, aos 77 anos de idade.

Quando os metais foram necessários para fabricar balas, ele disse, o povo de Okinawa contribuiu com tudo que podia, incluindo potes e panelas.

Não havia dúvida de que o Japão seria vitorioso, ele relembrou.

Mas aquele sentimento logo mudaria após um ataque aéreo Aliado em outubro de 1944, que transformou Naha, a capital da ilha, em cinzas.

Com os desembarques de forças inimigas chegando no fim de março de 1945, a família Kiyuna e dezenas de milhares de outras pessoas foram ordenadas a evacuar o norte da ilha.

Para evitar os ataques aéreos, disse Kiyuna, eles se escondiam em arbustos de dia e caminhavam por toda a noite.

Em 1 de abril, o primeiro grupo de forças Aliadas desembarcou na costa oeste de Okinawa, forçando a família Kiyuna a fugir para as montanhas.

Comíamos aquilo que podíamos – trepadeiras, sementes de plantas, amoras, ostras”, lembrou-se. “Qualquer coisa que nos enchesse o estômago”.

Em meados de abril, um grande número de tropas Aliadas avançava para o sul. Milhares de civis e tropas imperiais os esperavam em seus esconderijos. Civis foram levados para campos de refugiados, enquanto os soldados foram levados para campos de prisioneiros.

Mas muitos se recusaram a render-se.

Nos disseram que quando nos capturassem, as mulheres seriam estupradas e os homens brutalmente assassinados”, disse Kiyuna.

Ser capturado pelo inimigo era pior que a morte em si, era a opinião da maioria. Foi sob essas circunstâncias que suicídios em massa ocorreram, e as pessoas saltaram de abismos para suas mortes.

Um dia, cinco americanos apareceram subitamente no esconderijo montanhoso dos Kiyunas, não dando tempo para que a família fugisse.

Fiquem parados, ou seremos fuzilados”, alertou o pai de Seiei, professor da escola primária.

Com o esconderijo agora incendiado, seu pai ainda voltou para recuperar o ihai da família (tábuas com os nomes dos ancestrais familiares) e fotos da família e estudantes.

Um soldado nipo-americano os urgiu em japonês para que descessem pela margem do rio até um local seguro.

Enquanto seguíamos o rio, chegamos a um lugar onde uma rocha bloqueava nosso caminho”, disse Kiyuna.

Eles teriam que entrar na forte correnteza. Mas os soldados americanos então fizeram algo que espantou Kiyuna. Eles o carregaram, bem como seus dois irmãos mais novos, nas costas, e atravessaram a água.

Kiyuna não pôde acreditar que isso estava acontecendo.

Ele foi ensinado na escola que os americanos eram monstros sem misericórdia. Mas os de olhos azuis na frente dele eram gentis, e o jovem soldado que o carregou ficava falando com ele, para diminuir seu nervosismo.

Não demorou e seu pequeno corpo parou de tremer.

O medo naquele momento em que ele me pegou logo se tornou um grande alívio”, lembrou-se. Após uma longa caminhada, eles chegaram a Kushi, onde milhares de refugiados estavam reunidos. O pai de Kiyuna logo reconheceu alguns dos seus estudantes – muitos usando uniformes esfarrapados e sujos de sangue, mas com alegria nos olhos pelo reencontro.

A partir daquele dia, disse Kiyuna, ele olhou para os americanos de forma diferente. Enquanto estava no campo de refugiados, ele seguiu os soldados americanos na esperança de aprender inglês.

Após a luta terminar no norte, pesado combate continuou no sul até 23 de junho de 1945, quando a resistência organizada do Exército Imperial encerrou-se com a morte do Tenente-General Mitsuru Ushijima.

Mais de 200.000 morreram na ilha durante a batalha, que durou menos de três meses. O irmão mais velho de Kiyuna voltou para casa após a guerra, que terminou antes que sua missão kamikaze pudesse ser realizada.

Ele nunca aceitou a derrota”, disse Kiyuna sobre o irmão, que se tornou um alcoólatra e morreu aos 25 anos.

Kiyuna, no entanto, freqüentou a escola de inglês após terminar seu ensino médio, e conseguiu um emprego junto à Força Aérea Americana. Ele mais tarde conheceu sua esposa em uma das bases americanas nas quais trabalhou, e hoje é pai de três filhos.

O fim da guerra para mim foi o encontro com os americanos, que abriram minha visão para o mundo”, confessou.

Fonte: Stars and Stripes, 23 de junho de 2010.

Okinawa logo após a batalha, em 1945.

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