Civil de Okinawa relembra batalha

Quando ainda uma criança vivendo em Okinawa, Seiei Kiyuna aprendeu que os americanos eram maus.
Mas ao fim da Batalha de Okinawa – a mais sangrenta do Pacífico na Segunda Guerra Mundial – ele passaria a pensar diferente.
A guerra no Pacífico estava no auge 65 anos atrás, quando o irmão mais velho de Kiyuna, Seiji, então com 17, juntou-se à Marinha Imperial para se tornar um piloto kamikaze. O então pequeno Seiei, de 12 anos, tinha esperanças de um dia também se tornar um soldado para que, também, pudesse combater os americanos.
Seiei Kiyuna, que juntamente com seus pais e sete irmãos vivia numa área que agora é parte de Camp Foster (base norte-americana em Okinawa), lembra-se que todos queriam fazer sua parte.
“Era natural cooperar e dar suportes às nossas tropas imperiais”, disse recentemente, aos 77 anos de idade.
Quando os metais foram necessários para fabricar balas, ele disse, o povo de Okinawa contribuiu com tudo que podia, incluindo potes e panelas.
Não havia dúvida de que o Japão seria vitorioso, ele relembrou.
Mas aquele sentimento logo mudaria após um ataque aéreo Aliado em outubro de 1944, que transformou Naha, a capital da ilha, em cinzas.
Com os desembarques de forças inimigas chegando no fim de março de 1945, a família Kiyuna e dezenas de milhares de outras pessoas foram ordenadas a evacuar o norte da ilha.
Para evitar os ataques aéreos, disse Kiyuna, eles se escondiam em arbustos de dia e caminhavam por toda a noite.
Em 1 de abril, o primeiro grupo de forças Aliadas desembarcou na costa oeste de Okinawa, forçando a família Kiyuna a fugir para as montanhas.
“Comíamos aquilo que podíamos – trepadeiras, sementes de plantas, amoras, ostras”, lembrou-se. “Qualquer coisa que nos enchesse o estômago”.
Em meados de abril, um grande número de tropas Aliadas avançava para o sul. Milhares de civis e tropas imperiais os esperavam em seus esconderijos. Civis foram levados para campos de refugiados, enquanto os soldados foram levados para campos de prisioneiros.
Mas muitos se recusaram a render-se.
“Nos disseram que quando nos capturassem, as mulheres seriam estupradas e os homens brutalmente assassinados”, disse Kiyuna.
Ser capturado pelo inimigo era pior que a morte em si, era a opinião da maioria. Foi sob essas circunstâncias que suicídios em massa ocorreram, e as pessoas saltaram de abismos para suas mortes.
Um dia, cinco americanos apareceram subitamente no esconderijo montanhoso dos Kiyunas, não dando tempo para que a família fugisse.
“Fiquem parados, ou seremos fuzilados”, alertou o pai de Seiei, professor da escola primária.
Com o esconderijo agora incendiado, seu pai ainda voltou para recuperar o ihai da família (tábuas com os nomes dos ancestrais familiares) e fotos da família e estudantes.
Um soldado nipo-americano os urgiu em japonês para que descessem pela margem do rio até um local seguro.
“Enquanto seguíamos o rio, chegamos a um lugar onde uma rocha bloqueava nosso caminho”, disse Kiyuna.
Eles teriam que entrar na forte correnteza. Mas os soldados americanos então fizeram algo que espantou Kiyuna. Eles o carregaram, bem como seus dois irmãos mais novos, nas costas, e atravessaram a água.
Kiyuna não pôde acreditar que isso estava acontecendo.
Ele foi ensinado na escola que os americanos eram monstros sem misericórdia. Mas os de olhos azuis na frente dele eram gentis, e o jovem soldado que o carregou ficava falando com ele, para diminuir seu nervosismo.
Não demorou e seu pequeno corpo parou de tremer.
“O medo naquele momento em que ele me pegou logo se tornou um grande alívio”, lembrou-se. Após uma longa caminhada, eles chegaram a Kushi, onde milhares de refugiados estavam reunidos. O pai de Kiyuna logo reconheceu alguns dos seus estudantes – muitos usando uniformes esfarrapados e sujos de sangue, mas com alegria nos olhos pelo reencontro.
A partir daquele dia, disse Kiyuna, ele olhou para os americanos de forma diferente. Enquanto estava no campo de refugiados, ele seguiu os soldados americanos na esperança de aprender inglês.
Após a luta terminar no norte, pesado combate continuou no sul até 23 de junho de 1945, quando a resistência organizada do Exército Imperial encerrou-se com a morte do Tenente-General Mitsuru Ushijima.
Mais de 200.000 morreram na ilha durante a batalha, que durou menos de três meses. O irmão mais velho de Kiyuna voltou para casa após a guerra, que terminou antes que sua missão kamikaze pudesse ser realizada.
“Ele nunca aceitou a derrota”, disse Kiyuna sobre o irmão, que se tornou um alcoólatra e morreu aos 25 anos.
Kiyuna, no entanto, freqüentou a escola de inglês após terminar seu ensino médio, e conseguiu um emprego junto à Força Aérea Americana. Ele mais tarde conheceu sua esposa em uma das bases americanas nas quais trabalhou, e hoje é pai de três filhos.
“O fim da guerra para mim foi o encontro com os americanos, que abriram minha visão para o mundo”, confessou.
Fonte: Stars and Stripes, 23 de junho de 2010.
Mas ao fim da Batalha de Okinawa – a mais sangrenta do Pacífico na Segunda Guerra Mundial – ele passaria a pensar diferente.
A guerra no Pacífico estava no auge 65 anos atrás, quando o irmão mais velho de Kiyuna, Seiji, então com 17, juntou-se à Marinha Imperial para se tornar um piloto kamikaze. O então pequeno Seiei, de 12 anos, tinha esperanças de um dia também se tornar um soldado para que, também, pudesse combater os americanos.
Seiei Kiyuna, que juntamente com seus pais e sete irmãos vivia numa área que agora é parte de Camp Foster (base norte-americana em Okinawa), lembra-se que todos queriam fazer sua parte.
“Era natural cooperar e dar suportes às nossas tropas imperiais”, disse recentemente, aos 77 anos de idade.
Quando os metais foram necessários para fabricar balas, ele disse, o povo de Okinawa contribuiu com tudo que podia, incluindo potes e panelas.
Não havia dúvida de que o Japão seria vitorioso, ele relembrou.
Mas aquele sentimento logo mudaria após um ataque aéreo Aliado em outubro de 1944, que transformou Naha, a capital da ilha, em cinzas.
Com os desembarques de forças inimigas chegando no fim de março de 1945, a família Kiyuna e dezenas de milhares de outras pessoas foram ordenadas a evacuar o norte da ilha.
Para evitar os ataques aéreos, disse Kiyuna, eles se escondiam em arbustos de dia e caminhavam por toda a noite.
Em 1 de abril, o primeiro grupo de forças Aliadas desembarcou na costa oeste de Okinawa, forçando a família Kiyuna a fugir para as montanhas.“Comíamos aquilo que podíamos – trepadeiras, sementes de plantas, amoras, ostras”, lembrou-se. “Qualquer coisa que nos enchesse o estômago”.
Em meados de abril, um grande número de tropas Aliadas avançava para o sul. Milhares de civis e tropas imperiais os esperavam em seus esconderijos. Civis foram levados para campos de refugiados, enquanto os soldados foram levados para campos de prisioneiros.
Mas muitos se recusaram a render-se.
“Nos disseram que quando nos capturassem, as mulheres seriam estupradas e os homens brutalmente assassinados”, disse Kiyuna.
Ser capturado pelo inimigo era pior que a morte em si, era a opinião da maioria. Foi sob essas circunstâncias que suicídios em massa ocorreram, e as pessoas saltaram de abismos para suas mortes.
Um dia, cinco americanos apareceram subitamente no esconderijo montanhoso dos Kiyunas, não dando tempo para que a família fugisse.
“Fiquem parados, ou seremos fuzilados”, alertou o pai de Seiei, professor da escola primária.
Com o esconderijo agora incendiado, seu pai ainda voltou para recuperar o ihai da família (tábuas com os nomes dos ancestrais familiares) e fotos da família e estudantes.
Um soldado nipo-americano os urgiu em japonês para que descessem pela margem do rio até um local seguro.
“Enquanto seguíamos o rio, chegamos a um lugar onde uma rocha bloqueava nosso caminho”, disse Kiyuna.
Eles teriam que entrar na forte correnteza. Mas os soldados americanos então fizeram algo que espantou Kiyuna. Eles o carregaram, bem como seus dois irmãos mais novos, nas costas, e atravessaram a água.
Kiyuna não pôde acreditar que isso estava acontecendo.
Ele foi ensinado na escola que os americanos eram monstros sem misericórdia. Mas os de olhos azuis na frente dele eram gentis, e o jovem soldado que o carregou ficava falando com ele, para diminuir seu nervosismo.
Não demorou e seu pequeno corpo parou de tremer.
“O medo naquele momento em que ele me pegou logo se tornou um grande alívio”, lembrou-se. Após uma longa caminhada, eles chegaram a Kushi, onde milhares de refugiados estavam reunidos. O pai de Kiyuna logo reconheceu alguns dos seus estudantes – muitos usando uniformes esfarrapados e sujos de sangue, mas com alegria nos olhos pelo reencontro.
A partir daquele dia, disse Kiyuna, ele olhou para os americanos de forma diferente. Enquanto estava no campo de refugiados, ele seguiu os soldados americanos na esperança de aprender inglês.
Após a luta terminar no norte, pesado combate continuou no sul até 23 de junho de 1945, quando a resistência organizada do Exército Imperial encerrou-se com a morte do Tenente-General Mitsuru Ushijima.
Mais de 200.000 morreram na ilha durante a batalha, que durou menos de três meses. O irmão mais velho de Kiyuna voltou para casa após a guerra, que terminou antes que sua missão kamikaze pudesse ser realizada.
“Ele nunca aceitou a derrota”, disse Kiyuna sobre o irmão, que se tornou um alcoólatra e morreu aos 25 anos.
Kiyuna, no entanto, freqüentou a escola de inglês após terminar seu ensino médio, e conseguiu um emprego junto à Força Aérea Americana. Ele mais tarde conheceu sua esposa em uma das bases americanas nas quais trabalhou, e hoje é pai de três filhos.
“O fim da guerra para mim foi o encontro com os americanos, que abriram minha visão para o mundo”, confessou.
Fonte: Stars and Stripes, 23 de junho de 2010.
Okinawa logo após a batalha, em 1945.
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