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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O prisioneiro de guerra nº 1 dos Estados Unidos


O prisioneiro de guerra nº 1 dos Estados Unidos

Na manhã de 7 de dezembro de 1941, os jornais anunciavam cruzeiros para o Havaí. Franklin Roosevelt revia sua coleção de selos. E os Washington Redskins jogavam contra os Philadelphia Eagles na frente de 27.102 fãs, incluindo o Alferes John F. Kennedy.

Sete fuso-horários à oeste, Kazuo Sakamaki, uma das poucas pessoas que sabia que a Segunda Guerra Mundial estava chegando, tinha acabado de conduzir seu mini-submarino para dentro das águas de Pearl Harbor. Longo e tubular, a embarcação parecia uma nave espacial de Júlio Verne.

Havia outros quatro submarinos iguais àquele, cada um com dois torpedos, todos com as mesmas ordens: encontrar-se em Pearl Harbor. Então, ao fim do ataque aéreo, atingir quaisquer alvos que avistassem. Era um plano duvidoso – cinco submarinos, 10 tripulantes – e amaldiçoado com falhas desde o começo, embora alguns historiadores atestem que um deles eventualmente afundou o couraçado USS Oklahoma.

Ao anoitecer, nove tripulantes estavam mortos. Alguns, como o colega de Sakamaki, haviam se afogado. Outros sucumbiram às cargas de profundidade dos americanos e gases tóxicos que enchiam os submersíveis.

No lado americano, as estatísticas mostraram uma história muito pior: 2.404 mortos ou desaparecidos. E uma frota de couraçados em frangalhos.

Entre os submarinistas, Sakamaki foi o único sobrevivente. A bússola de seu submarino não funcionara, e o barco repetidamente atingira recifes de coral. Tentando escapar da embarcação, seu parceiro afogara-se.

Desorientado e exausto, Sakamaki de alguma forma chegou à praia na ilha de Oahu. Jogando-se na areia, ele dormiu por horas. Quando acordou, David Akui, um cabo da Guarda Nacional do Havaí, estava apontando-lhe uma pistola.

Kazuo Sakamaki se tornou o prisioneiro de guerra nº 1 dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

Para um homem que tinha jurado morrer pelo Imperador, ser capturado foi o pior fim possível. “Eu estava terrivelmente envergonhado”, disse mais tarde. “Pedi uma oportunidade de morrer honravelmente, mas eles só riram de mim”.

Levado para Fort Shafter, ele foi interrogado e mais tarde enviado ao continente, onde ficou internado em quatro diferentes campos durante toda a guerra.

No Japão, a mídia falou dos ataques dos mini-submarinos, mas nunca mencionou que um dos tripulantes estava agora nas mãos dos americanos.

Também nas mãos dos americanos estava agora o submarino de Sakamaki. Encontrado praticamente intacto pelas tropas, foi enviado aos EUA um mês depois do ataque. O mini-submarinos eram designados “barcos alvo Tipo A”. Era um disfarce dos japoneses. Se um deles fosse prematuramente descoberto, seria argumentado que estavam praticando com alvos, não em operações ofensivas.

Um total de 50 foram construídos. Durante e após a guerra, seus destroços foram encontrados em locais diversos como Sydney, na Austrália e Sitka, no Alaska, além de Gaum, Guadalcanal e Madagascar.

Dos 5 submarinos usados no ataque de 7 de dezembro, os restos de todos foram encontrados nas décadas seguintes. O mais recente achado foi feito um ano atrás: justamente o submarino que acredita-se ter atirado contra o West Virginia e o Oklahoma.

O submarino de Sakamaki, designado HA-19, foi usado a partir de janeiro de 1942 num tour por todo o país, para vender bônus de guerra. Uma das paradas foi Fredericksburg, Texas, cidade natal do comandante da Frota do Pacífico, Almirante Chester Nimitz.

O museu local, em memória do comandante, se tornou o lar permanente do HA-19.

Após a guerra, Sakamaki voltou ao Japão. Seu único dia de guerra fizera-o um homem diferente. O jovem de 22 anos que queria morrer pelo Imperador havia se tornado um devoto pacifista.

Como muitos veteranos, ele escreveu suas memórias. Nelas, ele conta que foi moralmente agredido por alguns japoneses, por não ter tirado sua vida quando a captura parecera inevitável.

No oitavo aniversário do ataque, o livro foi publicado nos EUA, com o título “Eu ataquei Pearl Harbor”. Só houve uma tiragem, e o livro hoje é item de colecionador.

Sakamaki tornou-se um empresário e, eventualmente, tornou-se diretor da Toyota no Brasil. Em 1991, ele visitou o museu de Fredericksburg. Testemunhas dizem que ele chorou ao ver o submarino que o tinha levado à guerra 50 anos antes.

Além de escrever suas memórias, amigos dizem que ele quase nunca falava sobre a guerra no fim da vida. Casado e pai de dois filhos, Sakamaki faleceu em 29 de novembro de 1999, aos 81 anos de idade.

Fonte: Press-Telegram, 4 de dezembro de 2010.

Sakamaki visitando o HA-19 em 1991.

Veja também:
>>Filmes: Tora! Tora! Tora!
>>Nota de Falecimento: John Finn
>>Os Heróis dos Mini-Submarinos
>>Quantos couraçados afundados em Pearl Harbor?
>>Resolvido o mistério do último mini-submarino?
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