
Um programa obrigatório para qualquer interessado em história militar passando pelo Rio de Janeiro é Museu Aeroespacial (Musal) do Campo dos Afonsos. E já que é obrigatório eu não podia deixar de ir lá conferir.
Tendo combinado previamente com a administração do museu um tour acompanhado, saímos do Clube da Aeronáutica às 8h da manhã do sábado e tomamos um táxi para a Base Aérea dos Afonsos. È um percurso longo, que normalmente toma cerca de uma hora. Como era feriado (em 23 de abril comemora-se o Dia de São Jorge no estado do RJ), o tráfego de veículos não estava muito grande, então chegamos um pouco adiantados.
Percorre-se o muro da base aérea até o portão de entrada do museu, localizado na parte mais afastada da instalação. É preciso identificar-se na porta, por se tratar de uma instalação militar. Contudo, logo ao entrar você já começa a respirar a atmosfera da aviação nostálgica. Alguns aeromodelistas ali praticam seu hobby, e o zunido de diversos aviõezinhos corta o silêncio do afastado complexo.
À distância, identifiquei lado a lado um C-47 Skytrain, C-119 Flying Boxcar e um C-46 Commando. Uma visão belíssima dessas históricas aeronaves numa ensolarada manhã de sábado! O que entristece um pouco é o péssimo estado das aeronaves que ficam expostas ao tempo... Mas mesmo assim vale a pena.
Encontrando nosso guia, ele nos leva para uma área afastada dos hangares, onde duas grandes surpresas nos aguardavam. A primeira é um trimotor alemão Junkers Ju 52, recentemente negociado com a Força Aérea Portuguesa para o acervo do Musal. Ainda desmontado, esse clássico precisa ser restaurado e será futuramente exibido aos visitantes, provavelmente nas cores da Varig.
A outra surpresa é um Boeing B-17 Flying Fortress. Embora somente uma carcaça hoje, o modelo foi operado pela FAB na tarefa de busca e salvamento até 1968. Também será restaurado e colocado em exibição, mas o prazo é indeterminado. Confesso que foi emocionante ver-me ao lado de uma aeronave tão famosa e importante – e já pude imaginar ver aquela Fortaleza Voadora de volta à sua antiga glória, restaurada e sendo apreciada.
Passamos pelo hangar de restauração, onde há um C-47 completamente restaurado – em condições de voo até – além de um Thunderbolt e o Mirage III que Senna voou, ainda em trabalho. Foi-nos explicado que, embora o Musal possua aeronaves em plenas condições de voo, existe numa norma regulatória da FAB que impede o voo de aeronaves históricas de seu acervo. Por isso não vemos mais nossos P-47s no céu.
Já dentro do prédio de exibição, o visitante passa por salões que recontam a história da aviação no Brasil. Começamos pelo famoso T-6 Texan do Coronel Braga, grande expoente da Esquadrilha da Fumaça. Em seguida, passamos por um salão com diversos biplanos, além de réplicas do 14-bis e Demoiselle, projetos de Alberto Santos Dumont. Há uma sala de armamentos e outra dedicada à história das mulheres na FAB, e então você faz um retorno para o salão onde passa em frente a outras raridades, entre elas uma hélice quadripá do Savoia-Marchetti S.55 do Marechal italiano Italo Balbo, quando este visitou o Brasil no começo da década de 1930.
Subindo para o segundo andar, passamos por um corredor com diversas pinturas de aeronaves militares brasileiras, que dá acesso a salas temáticas dedicadas a Bartolomeu de Gusmão, Salgado Filho, Santos Dumont e o 1º Grupo de Caça – esta última, de longe, é a mais interessante.
Ornada com diversos itens usados na Segunda Guerra Mundial, por brasileiros, Aliados e pelo Eixo, a sala do 1º Grupo de Caça tem luz baixa, o que ressalta a iluminação dos mostruários e dos efeitos luminosos e sonoros do ambiente. Há uma representação com bonecos dos nossos pilotos juntos de um P-47 e documentários são rodados constantemente.
O visitante então entra num grande salão que possui dioramas e exposição de uniformes históricos, além de uma grande hélice do dirigível Graf Zeppelin e alguns foguetes de fabricação nacional. Fica aqui uma dica para que seja melhorada a refrigeração deste salão, pois estava muito quente lá dentro.
O Salão da Embraer é o próximo, e talvez o mais bem ilustrado de todo o museu. Fica claro o empenho da empresa em decorar o ambiente para mostrar sua história.
Descendo pelas escadas, mais uma vez nos encontramos no térreo dos hangares. Em meio às grandes aeronaves lá expostas, destaca-se uma verdadeira avis rara: o único Focke-Wulf Fw 58 Weihe do mundo! Comprado da Alemanha na década de 1930, o modelo foi utilizado pelas Forças Armadas e depois por órgãos civis brasileiros. Meu amigo Martin Drewes voou essas aeronaves para o Departamento de Estradas de Goiás no começo da década de 1950, e por isso o Weihe tem uma significação especial para mim.
Citar todas as aeronaves que vimos no Musal significaria um relato quilométrico, então, vamos saltar para as mais destacadas: o Curtiss P-40 Warhawk, dois Gloster Meteor, um F-80 Shooting Star, um AMX, Xavante, Mirage III, o Vickers Viscount do Presidente Juscelino Kubitschek (que pode ser visitado por dentro), um A-20 Havoc, um North American B-25 Mitchell, Douglas A-26 Invader, e um fantástico C-47. Destaco-o por afinidade pessoal mesmo – ele também pode ser visitado por dentro, e aqui pode-se ter uma pequena noção do que era estar dentro de um desses durante a guerra, e inclusive imaginar-se como um dos paraquedistas de “Band of Brothers”.
A última parte da visitação guarda a jóia da coroa: o P-47 Thunderbolt “B-4”, restaurado e em plenas condições de voo. O magnífico caça impressiona por seu tamanho e robustez, e é um bocado diferente a sensação de ver um assim, prontinho, daquela de ver um dos modelos “espetados” (como o da BASC). O Thunderbolt exala imponência, e eu pude somente imaginar como seria ver essas máquinas decolando para atacar alvos inimigos no norte da Itália, em 1945.
Estar junto ao P-47 é estar junto de nossa história, e qualquer um que esteja aqui lendo essa matéria sabe o que é essa emoção. Mais uma vez eu reitero o convite: vá ao Musal pelo menos uma vez e veja nosso vetor de guerra, é uma recordação que levará para o resto da vida, e um tributo aos nossos aviadores, que deram sangue pela causa brasileira.
Minha viagem ao Rio de Janeiro foi uma verdadeira imersão na história do 1º Grupo de Aviação de Caça. Conheci nossos veteranos, vi suas máquinas e fiz diversas novas amizades. As celebrações do 22 de abril são a ocasião maior na qual podemos prestar uma homenagem justa aos nossos herois, enquanto ainda estão conosco. Participem também!
Meus agradecimentos a Celso Menezes, Eduardo Seyfert, Luis Gabriel, Pedro Luis Moreira Lima, Brigadeiro Rui Moreira Lima e à direção do Musal, que colaboraram inquestionavelmente para o sucesso desta viagem.

























Veja também:
>>Evento: Dia da Aviação de Caça 2011 - Parte 2
>>Evento: Dia da Aviação de Caça 2011 - Parte 1
>>Livro: Jambocks!
>>Livro: Brazilian Expeditionary Force in World War II
>>Uma aventura da ELO no Norte da Itália – 1944
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1 comentários:
Caramba, Júlio! Na falta de uma palavra melhor, muito tesão estes posts sobre o dia da Aviação de Caça.
Nosso Governo deveria ser o 1º a incentivar a preservação de nossa história e, no entanto, não o faz. Pelo menos não a contento. Cortou-me o coração ver alguns dos aviões largados à própria sorte.
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