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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O terrível legado da ocupação das cidades atômicas



A ocupação militar de Hiroshima e Nagasaki, iniciada poucas semanas após os bombardeios atômicos às duas cidades, ainda é um assunto pouco discutido nos EUA, e veremos por que.

As primeiras tropas americanas desembarcaram em Yokohama, perto de Tóquio, em 28 de agosto de 1945, com 15 mil soldados seguindo em poucos dias, sob a direção do General Douglas MacArthur. Também chegaram rapidamente elementos do US Strategic Bombing Survey, uma organização criada pelo Exército em novembro de 1944 para estudar os efeitos das campanhas aéreas contra a Alemanha e Japão (os filmes que eles fizeram ficaram lacrados por décadas).

Os japoneses se renderam oficialmente a bordo do couraçado USS Missouri em 2 de setembro. Nesse ponto, o público americano tinha pouco conhecimento das condições nas cidades-alvos atômicos – que ficavam bem ao sul e oeste de Tóquio – além das alegações japonesas de que uma misteriosa e mortal praga estava atacando muitos dos sobreviventes das explosões (alegações que eram tidas como propaganda inimiga). Nenhum ocidental havia chegado a Hiroshima e nenhuma fotografia tinha sido publicada. Os primeiros americanos só chegaram à cidade em 3 de setembro. George Weller, primeiro americano a chegar a Nagasaki, descobriu que todos os seus relatórios haviam sido censurados pelo escritório de MacArthur em Tóquio.

Em 8 de setembro, o General Thomas Ferrell chegou à Hiroshima com um radiologista e dois médicos de Los Alamos. Havia urgência. Deveriam descobrir se era seguro enviar soldados americanos às cidades. Três dias depois, Ferrell anunciou que “nenhum tipo de gás venenoso foi lançado” em Hiroshima. A vegetação já crescia lá.

O primeiro grande grupo de soldados americanos chegou a Nagasaki em 23 de setembro, e em Hiroshima duas semanas depois. Eram parte da força de ocupação de 240 mil homens que ocuparam as ilhas de Honshu e Kyushu. A maioria desembarcou em Nagasaki, pois seu porto não estava minado. A 2ª Divisão de Fuzileiros Navais ocupou a cidade, e as 24ª e 41ª Divisões do Exército ocuparam Hiroshima.

A maioria das tropas em Hiroshima ficou acampada nos limites da cidade, mas em Nagasaki grande parte dos acampamentos foi feito no centro, perto do ponto zero. Soldados se envolveram em operações de limpeza (e retirada de corpos) sem a utilização de equipamentos protetores, e até mesmo dormiram no chão.

Entramos em Nagasaki despreparados... Realmente, não tínhamos a menor ideia do que aquela bomba era”, lembrou-se um soldado. “Droga, bebemos aquela água, respiramos aquele ar, vivemos naqueles destroços. Fizemos nosso trabalho”.

Sam Scione, fuzileiro veterano de Guadalcanal, Tarawa e Okinawa, agora recém-chegado a Nagasaki, lembrou-se: “Nunca nos ensinaram sobre radiação e os efeitos que ela podia ter em nós. Fomos ao ponto zero diversas vezes e nunca nos disseram para não ir lá”. Um ano depois, ele voltou aos EUA. Seu cabelo começou a cair e seu corpo ficou cheio de manchas. Ele sofreu uma série de enfermidades, mas nunca conseguiu do governo um auxílio de ferido em combate.

A força de ocupação de Nagasaki chegou a 27 mil e a de Hiroshima foi a 40 mil – incluindo muitos médicos e enfermeiras militares. Alguns permaneceram por meses.

Quando os soldados voltaram para casa, muitos sofreram com estranhas feridas e manchas. Anos depois, alguns foram afligidos com doenças como leucemia, problemas na tireóide, e câncer relacionado à exposição à radiação.

Nas décadas seguintes, milhares de outros “veteranos atômicos”, entre eles aqueles que participaram dos testes nucleares em Nevada e no Pacífico, apresentariam sintomas semelhantes aos daqueles que ocuparam Hiroshima e Nagasaki. Todos continuaram sem assistência governamental e sua situação de feridos em serviço nunca foi reconhecida pelo governo americano.

Fonte: The Nation, 19 de agosto de 2011.

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