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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Falece o Barão da FEB


O Nosso Barão

Guimarães Rosa escreveu uma vez que Deus coloca certas pessoas na vida da gente para nos ensinar a sorrir, e depois as tira para ver se a gente já aprendeu a sorrir sozinha. Penso que assim que José Santana Filho (o Barão) será lembrado, como alguém que veio ao mundo para ensinar outros a sorrir. E cumpriu sua missão.

Ele, homem de tantas missões, foi combatente na Segunda Guerra Mundial pela nossa Força Expedicionária Brasileira (FEB), nos anos de 1944 e 1945, servindo o País em território italiano pelo 11° Regimento de Infantaria de São João del Rey. O bravo soldado da 5ª Companhia presenciou os mais relevantes fatos da história do Brasil nesse conflito, como a conquista de Monte Castello e Montese determinantes para a rendição das tropas alemãs no Norte da Itália.

A tensão e a amargura no campo de batalha, as privações do ambiente hostil, a solidariedade e amizade entre os aliados, a riqueza artística italiana, os amores em tempos de guerra, a saudade do Brasil, a comoção pelos que morreram, a emoção da vitória e o retorno ao País, privilegiados foram aqueles, como eu, que tiveram o prazer e a honra de ouvir essas e outras histórias contadas sempre com entusiasmo e maestria pelo Barão.

Nem os morteiros alemães que desabaram num casarão encravado nos Apeninos, onde descansava, junto com a tropa brasileira, nosso soldado tricordiano, deixando o local em ruínas, inclusive com vítimas fatais, não ceifaram sua vida – cumpriu-se com o nosso Barão o trecho da Canção do Expedicionário: Por mais terras que eu percorra/Não permita Deus que eu morra/Sem que volte para lá. Voltou para as serras de Minas o infante de montanha, no corpo algumas marcas da guerra, na mente lembranças de quem foi, viu e venceu... um vencedor, mas também um ser humano que vivenciou sofrimento e miséria, que dividiu seus suprimentos com crianças famintas, que levou esperança para famílias espoliadas e arrasadas pelo inimigo.

A vida segue, aprendeu e ensinou essa lição o nosso amigo, e sempre com alegria, como nas marchinhas que cantarolava entre histórias pitorescas, reunidas em mais de 90 anos de vida, compartilhadas nos quatro cantos da cidade de Três Corações. E o que dizer da Avenida Getúlio Vargas sem a presença de um dos seus mais ilustres personagens? Por ela tantas vezes desfilou o Barão, como ex-combatente, à frente do Exército, orgulhoso, nos dias 7 e 23 de Setembro, e como folião, brincalhão, nos desfiles de carnavais – um homem que comungou como poucos do amor à pátria e da riqueza da cultura brasileira.

Assim, se hoje o dia é triste porque perdemos um grande amigo, e mais triste ainda para sua família, todos, no entanto, podemos dizer que sim, aprendemos, sim, a sorrir com o Barão, mais uma vez ele cumpriu com louvor sua missão, retorna para os braços de Deus, como no dia em que, retornando da Guerra, avistou os braços do Cristo Redentor e recebeu o reconhecimento e o afeto de sua gente, de seu País.

Iniciei esta singela homenagem ao nosso estimado Barão citando Guimarães Rosa, encerro com o mesmo escritor mineiro que dizia que a gente não morre, fica encantado; pois é, José Santana Filho, o Barão, que foi um encantador narrador de histórias, finalmente, torna-se encantado. Um encantamento que vai percorrer mares, trincheiras, avenidas, quartéis, bailes, fotografias... lembranças e sorrisos. Assim, sentiremos a falta de um combatente, como quem honra um herói ao Toque de Silêncio. Mas, saudaremos sempre o nosso Barão, sorrindo, como quem dança e ouve uma linda marchinha de outrora: sempre é carnaval, sempre é carnaval/vamos embora, pessoal/ sempre é carnaval, sempre é carnaval/muita alegria, pessoal...

João Luis, Professor de História

Custei a acreditar na notícia quando a recebi...

A vida me prega peças e me coloca em lugares estratégicos, pude mais uma vez confirmar. Tive a extrema felicidade de conhecer José Santana no mês de julho, por ocasião do Centenário do Sgt. Max Wolff Filho na EsSA, quando fui convidado pelo General Vasconcellos para ir à Três Corações. Sentei-me ao lado do Barão durante a cerimônia no auditório na tarde do dia 28, antes da minha palestra. Bancando os não-tão-bons ouvintes, conversamos bastante durante o evento. Uma conversa foi inesquecível, na qual ele me confidenciou segredos polêmicos e falou-me sobre sua carreira de combate na Itália. Tudo pontuado com seu característicos estilo bem-humorado.

José Santana era um homem que não demonstrava ter a idade que tinha. Resistência e firmeza físicas eram suas marcas. Cantava canções da FEB e falava com tanta propriedade que angariava atenções facilmente. "Chegamos a Nápoles e formos transportados por mar dentro de barcaças anfíbias. Vou te dizer, foi a pior época da minha vida, dentro daqueles barcos. Nos jogaram lá como bichos e fecharam a porta. Preferi muito mais estar debaixo das balas depois", contou-me. Deixou-nos no dia 20 de outubro de 2011.

Polêmico, divertido, cheio de vida. Não consigo acreditar que o Barão tenha-se ido.

O Barão e eu no auditório da EsSA.

No jantar do dia 27 de julho. José Santana conversa com os veteranos Geraldo Taitson, Divaldo Medrado e Josino Aguiar. Do lado direito, a enfermeira Carlota Mello e eu.

O Barão José Santana dando as boas-vindas ao General Fernando Vasconcellos.


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2 comentários:

alex2876 disse...

Prezado Júlio,
meu nome é Alexandre SANTANA Teixeira, neto do Barão! Com orgulho o único neto com seu sobrenome "SANTANA" e como ele costumava brincar no jeito sempre gozador de ser: "...o neto que iria ficar com o seu "merdeiro"...". Fiquei bastante emocionado e comovido com a homenagem tão especial prestada ao Barão -- você traçou resumidamente e de forma muito especial quem foi o Barão ("foi" em vida, mas sua memória certamente permanece).

Meu avô viveu intensamente seus 90 ("ou + anos"...acho que nem ele sabia ao certo que idade tinha, costumávamos brincar), sua história, memórias, personalidade cativante e jeito descontraído de ser permanecerão vivas nas vidas dos que tiveram o privilégio de conhecelo. Ao ler o seu texto, bateu uma saudade ainda mais forte, um vazio...fiquei um pouco triste...triste por talvez não estar tão próximo a ele quanto eu deveria durante todos estes anos. A vida nos coloca em situações que muitas vezes nos afasta das pessoas mais importantes em nossa existência terrena, e infelizmente nos damos conta disso tarde demais. De qualquer forma sou feliz por ler seu texto e não desconhecer o indivíduo incrível que foi meu avô, e as passagens de sua vida ali relatadas. Com mais carinho, me lembro se suas marchinhas que gostava de compor e cantava para mim vez ou outra pessoalmente ou ate quando nos falávamos por telefone.
Estou certo que ele ficaria muito feliz com sua homenagem prestada a altura de quem ele foi enquanto aqui.

Obrigado pelo carinho e por me fazer enxergar algumas coisas que são realmente importantes enquanto temos pessoas amadas por perto.

Grande Abraço,

Alexandre SANTANA Teixeira

Júlio disse...

Prezado Alexandre,

A honra foi toda minha em conhecer teu avô numa ocasião tão inesperada e fortuita. Ao vê-lo e conversar com ele, não diria nunca que já tinha virado a página dos 90 anos. Sua vitalidade era impressionante. Vi-o cantar suas marchinhas, uma vez para mim e outra para os veteranos que vieram de BH. Foi um momento maravilhoso vê-los tentando acertar o ritmo e a letra, tantos anos depois. Sou muito feliz por ter conhecido o Barão.

Cordiais abraços,
Júlio César Guedes Antunes