
Nunca um céu azul foi tão inoportuno. As nuvens tropicais cinzentas que tinham ajudado a mascarar os movimentos dos dois grandes navios desde sua partida de Cingapura haviam desaparecido, e agora, passando lentamente no horizonte, estavam as aeronaves de reconhecimento japonesas.
Os oficiais do couraçado HMS Prince of Wales e seu consorte, o cruzador de batalha HMS Repulse, sob o codinome “Força Z”, sabiam que um engajamento não estava distante. Era a manhã de 10 de dezembro de 1941, três dias após o ataque à frota americana em Pearl Harbor, e a Royal Navy estava prestes a sofrer sua maior derrota única em toda a Segunda Guerra Mundial.
As sirenes tocaram pouco depois das 11h da manhã. Os rústicos sinais de radar dos navios registravam borrões de aeronaves de aproximando, grupos imensos. Marinheiros e fuzileiros, em meio ao seu lanche matinal, correram para seus postos. Armas antiaéreas apontaram para o céu, preparando-se para despejar uma cascata de fogo sobre a armada aérea japonesa.
Rapidamente, tudo estava terminado. Às 1:20h da tarde, o Prince of Wales, orgulho da marinha, comissionado apenas oito meses antes, virava lentamente, com seu casco destroçado por quatro torpedos. O Repulse, elegante veterano da Primeira Guerra, já mergulhava por entre as ondas calmas do Mar do Sul da China, igualmente destruído.
Por mais de uma hora, o fuzileiro Jim Wren e outros artilheiros tinham ficado dentro do Repulse escutando o rugir da batalha antes do caos reinar. “Sabíamos que íamos afundar, e que ia ser rápido”, ele se lembra. “O navio virou para bombordo. Mais de metade já estava debaixo da água. Tirei minhas roupas mais pesadas, subi na amurada, escalei e finalmente fui ao mar. Não havia tempo para sentir medo. Era fazer ou morrer”.
Os navios, de 41 mil e 33 mil toneladas, respectivamente, tinham derrubado apenas três das 85 aeronaves inimigas antes de sucumbirem. Foram os primeiros couraçados a serem afundados em alto mar exclusivamente pelo poder aéreo, e sua derrota sinalizava o fim da era dos grandes canhões. Com eles, foi-se o prestígio britânico no Extremo Oriente.
Sem proteção naval, Cingapura, a fortaleza construída a altíssimos custos para proteger o Império Britânico na Ásia da expansão japonesa, caiu dois meses depois. Para os ingleses, que denegriam os japoneses chamando-os de míopes e semi-primitivos, foi uma humilhação, um prenúncio da queda de seu império.
O maior custo, contudo, foi em vidas humanas. Dos 1.612 homens a bordo do Prince of Wales, 327 morreram. Os números do Repulse foram mais altos, com 513 mortos dentre seus 1.309 tripulantes. 840 almas foram destroçadas por torpedos e bombas, escaldadas até a morte por vapores liberados ou despedaçados pelas explosões interiores dos gigantescos navios.
O Almirante Tom Phillips, comandante da Força Z, foi um dos mortos. Resoluto defensor dos grandes canhões, ele desdenhava a capacidade das aeronaves como armas, e escolheu permanecer até o fim com seu Prince of Wales.
Winston Churchill, que havia enviado os navios para seu fim, descreveu como foi acordado no meio da noite pelas terríveis notícias: “Em toda a guerra eu nunca recebi um golpe tão certeiro. Enquanto eu virava na cama, fui atingido por todo o horror dos acontecimentos”.
Ainda assim, a destruição da Força Z é apenas uma nota de rodapé, uma tragédia distante obscurecida pela grande luta contra a Alemanha Nazista. Os Estados Unidos marcaram o 70º aniversário do ataque a Pearl Harbor com serviços memoriais e cerimônias por todo o país. Os ingleses, por outro lado, irão ignorar os 70 anos de sua catastrófica estreia na guerra contra o Japão.
Fonte: The Telegraph, 8 de dezembro de 2011.
Os oficiais do couraçado HMS Prince of Wales e seu consorte, o cruzador de batalha HMS Repulse, sob o codinome “Força Z”, sabiam que um engajamento não estava distante. Era a manhã de 10 de dezembro de 1941, três dias após o ataque à frota americana em Pearl Harbor, e a Royal Navy estava prestes a sofrer sua maior derrota única em toda a Segunda Guerra Mundial.
As sirenes tocaram pouco depois das 11h da manhã. Os rústicos sinais de radar dos navios registravam borrões de aeronaves de aproximando, grupos imensos. Marinheiros e fuzileiros, em meio ao seu lanche matinal, correram para seus postos. Armas antiaéreas apontaram para o céu, preparando-se para despejar uma cascata de fogo sobre a armada aérea japonesa.
Rapidamente, tudo estava terminado. Às 1:20h da tarde, o Prince of Wales, orgulho da marinha, comissionado apenas oito meses antes, virava lentamente, com seu casco destroçado por quatro torpedos. O Repulse, elegante veterano da Primeira Guerra, já mergulhava por entre as ondas calmas do Mar do Sul da China, igualmente destruído.
Por mais de uma hora, o fuzileiro Jim Wren e outros artilheiros tinham ficado dentro do Repulse escutando o rugir da batalha antes do caos reinar. “Sabíamos que íamos afundar, e que ia ser rápido”, ele se lembra. “O navio virou para bombordo. Mais de metade já estava debaixo da água. Tirei minhas roupas mais pesadas, subi na amurada, escalei e finalmente fui ao mar. Não havia tempo para sentir medo. Era fazer ou morrer”.
Os navios, de 41 mil e 33 mil toneladas, respectivamente, tinham derrubado apenas três das 85 aeronaves inimigas antes de sucumbirem. Foram os primeiros couraçados a serem afundados em alto mar exclusivamente pelo poder aéreo, e sua derrota sinalizava o fim da era dos grandes canhões. Com eles, foi-se o prestígio britânico no Extremo Oriente.Sem proteção naval, Cingapura, a fortaleza construída a altíssimos custos para proteger o Império Britânico na Ásia da expansão japonesa, caiu dois meses depois. Para os ingleses, que denegriam os japoneses chamando-os de míopes e semi-primitivos, foi uma humilhação, um prenúncio da queda de seu império.
O maior custo, contudo, foi em vidas humanas. Dos 1.612 homens a bordo do Prince of Wales, 327 morreram. Os números do Repulse foram mais altos, com 513 mortos dentre seus 1.309 tripulantes. 840 almas foram destroçadas por torpedos e bombas, escaldadas até a morte por vapores liberados ou despedaçados pelas explosões interiores dos gigantescos navios.
O Almirante Tom Phillips, comandante da Força Z, foi um dos mortos. Resoluto defensor dos grandes canhões, ele desdenhava a capacidade das aeronaves como armas, e escolheu permanecer até o fim com seu Prince of Wales.
Winston Churchill, que havia enviado os navios para seu fim, descreveu como foi acordado no meio da noite pelas terríveis notícias: “Em toda a guerra eu nunca recebi um golpe tão certeiro. Enquanto eu virava na cama, fui atingido por todo o horror dos acontecimentos”.
Ainda assim, a destruição da Força Z é apenas uma nota de rodapé, uma tragédia distante obscurecida pela grande luta contra a Alemanha Nazista. Os Estados Unidos marcaram o 70º aniversário do ataque a Pearl Harbor com serviços memoriais e cerimônias por todo o país. Os ingleses, por outro lado, irão ignorar os 70 anos de sua catastrófica estreia na guerra contra o Japão.
Fonte: The Telegraph, 8 de dezembro de 2011.
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