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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Pearl Harbor: 70 anos



Pearl Harbor completa 70 anos hoje. Não a base naval, nem o porto que ali existia antes, mas o ataque japonês àquele alvo militar. De tão marcante que foi, não precisa nem de uma chamada específica – todos se lembram do evento apenas pela chamada do nome “Pearl Harbor”.

Ressaltar a importância desse ataque para a Segunda Guerra Mundial (na verdade, para a história mundial) é chover no molhado, já que muito (mas muito mesmo) foi e continua sendo escrito sobre o assunto. Sabemos que foi o estopim que levou os EUA a envolverem-se diretamente no conflito, levando os Aliados definitivamente à vitória quatro anos depois.

Pois bem, o que falar sobre Pearl Harbor, nessa data tão marcante?

Se discutir sua importância não traz nenhuma novidade, que tal uma discussão sobre sua própria origem?

O trabalho que faço aqui na Sala de Guerra é, como faço questão de ressaltar, isento. Pessoalmente, não acredito em “herois versus vilões” no mundo real. Isso é puro papo de propaganda, claramente feito por vencedores de conflitos. Uma pesquisa historiográfica básica irá te revelar esse fato em diversas épocas históricas (tão antigas quanto no “Comentarii de Bello Gallico” de César até o discurso “Mission Accomplished” de George W. Bush após a invasão do Iraque em 2003) – e claro, a Segunda Guerra Mundial não fica de fora.

O Japão saiu de um país isolacionista para uma potência colonialista em pouco mais de 50 anos. Conquistou porções da China durante a passagem do século XIX para o XX, inclusive acendendo conflitos com a Rússia Imperial. O que era a China na época? Um conglomerado nacional comandado de facto por caudilhos regionais, que na realidade pouco deferiam ao Imperador em Pequim. Muito diferente do que era a África no começo do século XIX? Conceitos de imperialismo à parte, não podemos deixar de perceber que a história nos é contada de uma perspectiva europeia, e por isso mesmo, pouco é discutido sobre os métodos que essas potências usaram para pacificar suas colônias.

Contudo, sabemos da particular brutalidade com que os japoneses trataram seus colonos, um fato que sempre é ressaltado – e não deve ser esquecido, diga-se de passagem. Essa brutalidade serviu para justificar quaisquer ações ocidentais contra o colonialismo japonês, e até mesmo para diminuir a simpatia pelas vítimas dos bombardeios atômicos de 1945.

Devemos analisar se realmente foi a brutalidade dos métodos japoneses que pôs as potências ocidentais, principalmente os Estados Unidos, contra o Japão durante a década de 1930. Minha visão é de que níveis de brutalidade em choques étnicos – por si só – pouco afetam as decisões de grandes potências em intervir no exterior. Vide a crueldade das guerras civis na Somália, Darfur e Birmânia. Agora comparem com a violência praticada contra minorias no Iraque, Kuwait e Líbia. Qual a diferença? Aposto que sabem que, enquanto nos três primeiros, ninguém se manifesta, nos três últimos a coisa foi resolvida rapidamente com ações militares “libertadoras”. E por que essa diferença? Tentem medir o valor das riquezas naturais dos dois grupos territoriais e me digam sua conclusão.

O Japão era uma potência militar e econômica. Sua esfera de interesses se chocava com a de outras potências coloniais, no caso: Inglaterra, Holanda, França e Estados Unidos (sim, os EUA eram colonialistas; as Filipinas eram deles). Os japoneses eram tão dependentes de importação de matéria-prima quanto qualquer potência europeia, e por isso mesmo foi buscar essas commodities na força.

Construindo uma poderosa força militar naval, o Japão começou realmente a ameaçar a preponderância naval norte-americana da região do Pacífico. E essa era uma situação que simplesmente não era aceitável para os EUA.

A conjuntura internacional da década de 1930 trouxe para perto os regimes totalitários alemão, italiano e japonês. Inicialmente um pacto anti-comunismo em 1936, passando para colaborações econômico-militares até culminar na assinatura do Pacto Tripartite em setembro de 1940. A guerra, que já rugia na Europa nessa época, trouxe consequências para o outro lado do mundo.

O Japão ocupou a Indochina Francesa naquele mesmo mês, para impedir que a China recebesse material bélico por lá. Esse movimento desencadeou de Washington um embargo econômico ao Japão, que interrompeu o suprimento de maquinário e aço para Tóquio. Para encerrar o embargo, os americanos demandaram que os japoneses se retirassem da China, o que era simplesmente inviável para o governo japonês. Esse impasse levou a uma subida de tensão entre as duas nações.

Ora, não se pode ser tão ingênuo a ponto de pensar que o Japão colocaria a perder anos de esforço de guerra devido a um ultimato norte-americano naquelas condições. E isso também estava claro para os idealizadores do embargo em Washington. Se o Japão não poderia comprar aço, teria então que recorrer a novas conquistas para consegui-lo. Isso também não pode ter fugido às mentes na capital americana.

A situação que já estava difícil ficou virtualmente insustentável em julho de 1941, quando Roosevelt decidiu embargar a venda de petróleo para os japoneses, congelando seus ativos nos EUA. Dada a total dependência japonesa do petróleo norte-americano, isso equivalia a uma provocação de primeira classe – pois colocava a faca na jugular do Império: suas conexões ultra-marítimas.

Nesse mesmo tempo, os americanos já quebravam os códigos navais e diplomáticos japoneses. Escutavam o que diziam. Será possível mesmo estarem tão cegos quanto a uma ação ofensiva nipônica? No caso de não estarem tão cegos, e realmente anteciparem a possibilidade de guerra, por que deliberadamente evitaram a mesa de negociação com o Japão no segundo semestre de 1941? Sim, o secretário Cordell Hull até se encontrou algumas vezes com o embaixador japonês em Washington, mas somente para reiterar a posição inflexível de Roosevelt: saia da China e encerre suas ações militares, ou nada feito.

Os japoneses teriam então que tomar suas fontes de matéria-prima a força. E para fazer isso, tinham que assegurar sua mão-livre no Pacífico. Fizeram exatamente isso atacando a frota norte-americana em Pearl Harbor: uma manobra militar preemptiva para garantir o sucesso de ações posteriores. Brilhantemente executada. Contudo, já esperada.

Se Roosevelt tinha noção da intensidade ou local exato do ataque, não está certo. A probabilidade, contudo, é afirmativa. Muitos episódios misteriosos que rodeiam os últimos dias e horas que precederam à ação sugerem isso. O governo americano fez vista grossa a informações que anunciavam uma atitude hostil japonesa contra um alvo nacional. Os interesses por trás disso, são para que cada um aqui julgue.

Não isento nem redimo ninguém. A história é feita por interesses e ações de líderes, de ambas as partes. E longe da perfeição unilateral de um conto de fadas, a vida real tem facetas bem mais interessantes.

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1 comentários:

menreis1968 disse...

Caro Júlio
Parabéns pelo excelente site.

A razão de Pearl Harbor era o dilema em que Roosevelt estava no fim de 1940. Ele queria intervir na Europa para salvar a Grã-Bretanha (e a civilização, pois se temia que os alemâes desenvolvessem a bomba atômica), desde a derrota surpreendente da França, mas não podia fazer isso: os isolacionistas não permitiriam, e na campanha de 1940 teve que prometer que não mandaria americanos lutar no ultramar (isto é, na Europa). A rivalidade com o Japão, porém, ajudou muito: a história mostrava que o Japão atacava primeiro e depois declarava guerra (fez isso em 1894 contra a China e em 1904 contra a Rússia). Um ataque à traição uniria os EUA... Mas, se os japoneses atacassem qualquer colônia britânica, francesa, holandesa, ou mesmo as Filipinas, o efeito não seria o mesmo que atacar território americano (esta é a teoria de Jean-Jacques Servan Schreiber). Então, a frota do Pacífico foi mudada de San Diego para Pearl Harbor para "vigiar" melhor os japoneses, em 1940. Tornou-se um alvo tentador... Os sucessivos embargos que os americanos impuseram ao Japão, acompanhado pela adesão do país ao Eixo, só tornaram as coisas piores. Até que o governo japonês, encurralado pelos estados-maiores de marinha e exército resolveu passar à ação. Eu vi um documentário "O Sacrifício de Pearl Harbor", no qual veteranos americanos declaram que as autoridades de Washington sabiam do ataque e nada fizeram. O resultado era mais importante, indignar e unir o país, ainda mais que o ataque foi perpetrado por um povo considerado "inferior", e sem declaração prévia de guerra. Depois disso, a declaração de guerra de Hitler aos EUA em 11 de dezembro de 1941 calou os isolacionistas (homens como Lindbergh foram execrados e considerados filo-nazistas, Joseph Kennedy também)e permitiu a ação na Europa.